Num belo dia, viramos uma página

Tirado do blog da Alice: http://aliceecila.tumblr.com/post/48296123133

“Crescer e se tornar quem você realmente é requer coragem” – Tirado do blog da Alice: http://aliceecila.tumblr.com/post/48296123133

Quando eu era bem pequena tinha o mesmo pesadelo todas as noites: uma agulha malévola perfurava meus olhos e me deixava cega, com direito a muito sangue jorrando para todos os lados. Até hoje, ficar cega é meu maior medo — como todos os medos, totalmente irracional. Quando eu tinha esse “sonho ruim”, ia até a cama da minha irmã mais velha, aos prantos, e pedia para dormir com ela. Até que, um belo dia, uns dois anos depois, parei de ter esse sonho e ele nunca mais voltou a me atormentar.

Durante toda a infância, uma das minhas brincadeiras favoritas era a Barbie. Tinha “herdado” bonecas e móveis dela das minhas irmãs e primas mais velhas e tinha uma verdadeira casa da Barbie. Montava a brincadeira na sala de casa e ficava lá por horas a fio, falando sozinha, com todos aqueles brinquedos esparramados. Como “Peter Pana” que eu era, brinquei com as bonecas até bem tarde, esticando minha infância ao máximo possível. Até que, um belo dia, montei todas as bonecas pela última vez e nunca mais brinquei de novo. Estão ainda guardadas no armário de casa, para serem herdadas por sobrinhas e filhos.

Também já tive uma turma de amigos inseparáveis. Eles iam a todos os meus aniversários. Viajavam comigo para a roça, para a praia. Fazíamos todos os trabalhos de escola juntos, íamos brincar uns nas casas dos outros. Até que, um belo dia, mudei de escola, e perdemos o contato. Hoje vejo fotos deles comemorando os casamentos uns dos outros, todos juntos, e não estou mais no meio daquela turminha boa.

Também já tive dores de namoro terminado ou de cotovelo que pareciam intermináveis. Eu chorava, chorava, chorava e dizia que nunca mais ia amar ninguém. Até que, num belo dia, os rostos desapareciam da minha memória, eu não conseguia mais me lembrar dos números de telefone e acabava me apaixonando de novo e de novo (até acabar, hoje, achada e feliz na minha história de amor derradeira).

Levei 28 anos para perceber que a vida é formada de passagens que, só muito raramente, persistem com o tempo. As fases da vida costumam ter hora para acabar. As amizades se reciclam ou, quando isso não é possível, viram lembrança. A gente cresce e os gostos mudam. Mudamos de ideia, de perspectiva e de vontades na vida. Mudamos o peso que damos às coisas. E nada nunca “volta a ser como antes”: as páginas viram e se tornam diferentes — às vezes piores, às vezes melhores, às vezes bem melhores.

O importante não é tentar segurar o tempo e esticá-lo indefinidamente, penso hoje. Mas tentar viver o melhor de cada época, para que as épocas seguintes fiquem ainda mais especiais, recheadas com lembranças boas do passado e perspectivas boas do futuro. E tentar tornar cada fase marcante e marcar a vida dos outros também, para que se lembrem da gente com carinho. Porque, afinal, estamos também nas páginas dos que nos cercam.

***

P.S. Hoje tenho pesadelos com trabalhos inacabados, ensino a sobrinha a brincar de Barbie, tenho menos e mais seletivos amigos, cuido melhor do meu amor, e valorizo, acima de tudo, o que nunca vai deixar de fazer parte da minha história: minha família.
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