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Grama foi feita para ser pisada (e algumas regras, para serem quebradas)

O banco da praça Buenos Aires. (Foto: CMC)

Aproveitando que hoje é sabadão e o dia há de estar bonito em alguns parques deste Brasil, vou postar aqui uma crônica que adorei ter lido, lá pelos meus 12 anos, e com a qual concordo veementemente.

Lembrei-me dela após ler um post do blog do ambientalista Ricardo Cardim (cujo sobrenome deve ter sido grafado errado por algum cartório, porque deveria ser “Jardim”), defendendo que a gente pudesse pisar nos gramados dos parques e praças deste mundão, porque não há nada melhor do que deitar sobre uma grama verdinha, em dia de sol, pra ler um livro, por exemplo.

Mas outro dia fui repreendida até por ler um livro deitada no banco da praça Buenos Aires, aqui em São Paulo! E nem dá pra dizer que estava lotada e eu estava ocupando o lugar que poderia ser usado por alguém querendo se sentar (aí eu concordaria com o pito). Era uma tarde de terça nublada e só eu estava lá (e o guarda). As pessoas não nos deixam curtir os poucos espaços verdes das cidades cinzas…

Mas voltando à crônica, trata-se de “A Menina no Jardim“, do meu conterrâneo que adoro, Paulo Mendes Campos:

“Em seus 14 meses de permanência neste mundo, a garotinha não tinha tomado o menor conhecimento das leis que governam a nação.
Isso se deu agora na praça, logo na chamada República Livre de Ipanema.
Até ontem ela se comprazia em brincar com a terra. Hoje, de repente, deu-lhe um tédio enorme do barro de que somos feitos: atirou o punhado de pó ao chão, ergueu o rosto, ficou pensativa, investigando com ar aborrecido o mundo exterior. Por um momento seus olhos buscaram o jardim à procura de qualquer novidade. E aí ela descobriu o verde extraordinário: a grama.
Determinada, levantou-se do chão e correu para a relva, que era, vá lá, bonita, mas já bastante chamuscada pela estiagem. Não durou mais que três minutos seu deslumbramento. Da esquina, um crioulão de bigodes, representante dos Poderes da República, marchou até ela, buscando convencê-la de que estava desrespeitando uma lei nacional, um regulamento estadual, uma postura municipal, ela ia lá saber o quê. Diga-se, em nome da verdade, que no diálogo que se travou em seguida, maior violência se registrou por parte da infratora do que por parte da Lei, um guarda civil feio, mas invulgarmente urbano.
— Desce da grama, garotinha — disse a Lei.
— Blá blé bli bá — protestou a garotinha.
— É proibido pisar na grama — explicou o guarda.
— Bá bá bá — retrucou a garotinha com veemência.
— Vamos, desce, vem para a sombra, que é melhor.
— Buh buh — afirmou a garotinha, com toda razão, pois o sol estava mais agradável do que a sombra. A insubmissão da garotinha atingiu o clímax quando o guarda estendeu-lhe a mão com a intenção de ajudá-la a abandonar o gramado. A gentileza foi revidada com um safanão. Dura lex sed lex.
— Onde está sua mamãe? A garotinha virou as costas ao guarda, com desprezo.
A essa altura levantou-se do banco, de onde assistia à cena, o pai da garota, que a reconduziu, sob chorosos protestos, à terra seca dos homens, ao mundo sem relva que o Estado faculta ao ir e vir dos cidadãos. A própria Lei, meio encabulada com o seu rigor, tudo fez para que o pai da garotinha se persuadisse de que, se não há mal para que uma brasileira tão pequenininha pise na grama, isso de qualquer forma poderia ser um péssimo exemplo para os brasileiros maiores.
— Aberto o precedente, os outros fariam o mesmo — disse o guarda com imponência.
— Que fizessem, deveriam fazê-lo — disse o pai.
— Como? — perguntou o guarda confuso e vexado.
— A grama só podia ter sido feita, por Deus ou pelo Estado, para ser pisada. Não há sentido em uma relva na qual não se pode pisar.
— Mas isso estraga a grama, cavalheiro!
— E daí? Que tem isso?
— Se a grama morrer, ninguém mais pode ver ela — raciocinou a Lei.
— E o senhor deixa de matar a sua galinha só porque o senhor não pode mais ver ela?
O guarda ficou perplexo e mudo. O pai, indignado, chegou à peroração:
— É evidente que a relva só pode ter sido feita para ser pisada. Se morre, é porque não cuidam dela. Ou porque não presta. Que morra. Que seja plantado em nossos parques o bom capim do trópico. Ou que não se plante nada. Que se aumente pelo menos o pouco espaço dos nossos poucos jardins. O que é preciso plantar, seu guarda, é uma semente de bom-senso nos sujeitos que fazem os regulamentos.
— Buh bah – concordou a menina, correndo em disparada para a grama.
— O senhor entende o que ela diz? — perguntou o guarda.
— Claro — respondeu o pai.
— Que foi que ela disse agora?
— Não a leve a mal, mas ela mandou o regulamento para o diabo que o carregue.”

Sugiro a vocês, caros leitores, que também mandem esses regulamentos para o diabo e aproveitem este fim de semana em algum gramado de sol 😉

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

13 comentários em “Grama foi feita para ser pisada (e algumas regras, para serem quebradas) Deixe um comentário

  1. Muito bom esse texto politicamente incorreto do Paulo Mendes Campos, Cris. Quase tanto quanto os dois que ele escreveu na década de 60 e publicados, em sequência, em dois números da Manchete ou da Fatos e Fotos, contando a experiência dele com a LSD, então uma droga pouco conhecida por estas pragas. Um brilhante testemunho literário dos efeitos da maldita (não posso dizer se fiel à realidade, pois nunca experimentei).

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  2. São essas coincidências. Quando escrevi o comentário acima, pensei que talvez desde a década de 60 não lia um poema de Paulo Mendes Campos. Pouco depois, abro o Blog do Noblat (http://oglobo.globo.com/pais/noblat/) e vejo lá “Balada de Amor Perfeito”, com suas 20 estrofes. Aí os primeiros cem versos:

    Pelo pés das goiabeiras,
    pelo braços das mangueiras,
    pelas ervas fratricidas,
    pelas pimentas ardidas,
    fui me aflorando.

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  3. Me fez lembrar de alguns diretores de escola que impedem o acesso dos alunos às salas de informática nas escolas pois “os alunos podem danificar as máquinas”. ( sério, isso existe)

    Gosto muito das crônicas do Paulo Mendes Campos!

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      • Jaime, no ginásio em que estudei no interior de Minas, que fazia parte de uma organização não-governamental (esse nome não existia na época), uma associação de educandários gratuitos que recebia subvenção do governo, a parede de uma sala de aulas era ocupada por uma grande estante, de alto a baixo, onde ficavam aqueles aparelhos de química e física que a gente vê em filmes (redomas, tortas, balanças etc). Os alunos não podiam tocar neles. Nunca foram usados nas aulas, pois nenhum professor sabia para que aquilo servia.

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  4. Cris, se eu fosse escrever o que eu vejo ( e vi) em escolas… deixa pra lá, quero ficar em paz rsrs

    José, que pena! E tal situação continua igual em muitas escolas. Aí é “um pouco de tudo”, inclusive uma formação irregular de professores. 😦

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  5. Ei Kika Castro,

    Sou estudante de Jornalismo em Belo Horizonte e participo de um projeto de extensão na faculdade (UniBH), chamado Jornal da Rua. Nesta edição, falaremos sobre algumas praças de BH e o uso feito pelos cidadãos. Encontramos seu post e amamos! Durante o processo de produção, cobrimos uma manifestação aqui chamada Pise na Grama. O movimento aconteceu na praça Floriano Peixoto, para contestar a prisão de três jovens que discordaram de uma regra imposta pela prefeitura no dia de um festival musical na praça. No dia do evento, cercaram o espaço gramado, não permitindo que as pessoas o utilizassem.
    A partir desse movimento todo, construímos a matéria a fim de levantar a reflexão de uso do espaço público e de regras bobas como essa que, infelizmente, ainda existem. Gostaríamos muito de usar seu post (com os devidos créditos e endereço do blog) na matéria.
    É possível?
    Obrigada! 🙂
    Abraço,
    Leilane

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  6. Assim que a versão online do jornal sair, envio o link para você 😉 A previsão é para agosto. Muito obrigada! Beijo

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