
Hoje leio a manchete da Folha sobre declaração da futura ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres: “Nova ministra diz que mulher não é obrigada a ter filhos”.
À primeira vista, me parece uma manchete muito fraca, por óbvia. Mas aos poucos cai minha ficha que ainda vivemos num mundo excepcionalmente machista e conservador.
Acabo de receber a prova definitiva.
Agora há pouco chegou minha mãe (que vai ler este post, “de coração aberto”) e disse que, apesar de eu não acreditar, eu deveria receber a conversa dela com o “coração aberto”.
Após essa introdução, prosseguiu: “Dizem que Santo Antônio é o padroeiro das moças. Dei este para sua irmã e, logo que ela se casou, peguei de volta. Dei para sua outra irmã e, agora que ela se casou, quero dá-lo a você.” E me estendeu o santinho.
Na mesma hora, enquanto eu recusava o pedacinho de cera pintada, lembrei que no casamento da minha irmã, em novembro, ela não fez como as outras noivas, que se viram de costas para um monte de mulheres desesperadas e lança um buquê. Antes de se virar, minha irmã pegou o microfone e me chamou pelo nome completo. Eu estava do outro lado do salão, conversando com primos sumidos, e nem ouvi. Não adiantou: ela foi até mim, de buquê na mão, e me entregou o arranjo.
Deve ter alguma placa na minha cabeça dizendo: “Quero casar e ter cinco filhos e, do alto de meus 25 anos, preciso fazer isso já.”
“Este é o sonho de toda mulher”, argumentou agora a minha mãe.
Não, o meu não é. Até quero ter filhos, em algum momento distante da vida, mas os exemplos de casamento que vejo por aí não são o que se chama de estimulantes.
O problema é que vivemos num país em que a ministra dizer que nenhuma mulher é obrigada a ter filhos vira manchete de jornal. (Ok, ela se referia ao aborto, mas não vou entrar nesse mérito da questão, porque post bom é post rápido). É um ambiente em que não basta tomarmos decisões, temos que passar a vida inteira explicando e justificando para os outros, e ainda assim seremos olhadas como E.T.s.
Independente disso, também tenho a crença pessoal de que, se um dia eu me casar, será porque encontrei um homem muito encantador, e não porque coloquei um santinho de cabeça pra baixo… Será que é muito, em pleno século 21?





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