O escorregão de Boechat 18 anos antes da queda do helicóptero

Texto escrito por José de Souza Castro:

Enquanto a Aeronáutica pesquisa a causa do acidente de helicóptero que matou nesta segunda-feira o jornalista Ricardo Boechat – para que fatalidades parecidas não se repitam – lembrei-me de um episódio de junho de 2001 que serviu para reforçar minha convicção de que é vital manter a ética na profissão que escolhemos. Até onde sei, foi a única vez que Boechat se descuidou, pagando com sua demissão do jornal “O Globo” e seu afastamento do “Bom Dia Brasil”, da Rede Globo.

Como muitos leitores não se lembram do episódio e outros não terão sido informados a respeito pelos generosos necrológios devidos a um dos mais importantes jornalistas brasileiros da atualidade, vou tratar disso aqui.

A demissão de Boechat me deixou marcas. Em 2001, quando ambos estávamos n’O Globo, eu como simples repórter e ele o mais importante colunista do jornal, Boechat foi demitido. Era um domingo, 25 de junho. Aos leitores, não foi explicado o motivo, limitando-se o jornal a informar que estaria de volta a Coluna do Carlos Swann.

Não demorou para que a revista “Veja” descobrisse a causa da surpreendente demissão. A notícia pode ser lida AQUI e, com mais detalhes, anos depois, por Reinaldo Azevedo, em seu blog na Veja.

O fato é que Boechat havia tido acesso, mediante fonte amiga, de bastidores da luta do grupo canadense TIW, com apoio de três fundos de pensão de estatais que participaram do leilão de privatização da Telemig Celular e Tele Norte Celular, em 1998. Estes se juntaram para tentar, na Justiça, tomar o controle de Daniel Dantas – dono do Banco Opportunity –, que, apesar de ter investido menos de 1% na compra das duas empresas de telefonia, passou a geri-las com plenos poderes.

O deslize ético de Boechat ficou claro num diálogo telefônico dele com Paulo Marinho, principal assessor do dono do “Jornal do Brasil”, Nelson Tanure, que tentava ganhar uma nota fazendo lobby em favor dos adversários de Daniel Dantas.

Boechat lê para Marinho a reportagem que havia escrito e que seria publicada pelo Globo no dia seguinte. E lamenta não ter podido evitar que ela saísse assinada com seu nome. Desse modo, ficaria evidente para a direção do jornal “O Globo” sua ligação com Nelson Tanure, o operador do negócio noticiado.

A seguir, dois trechos do diálogo (gravado por uma empresa de espionagem paga por Dantas) entre Ricardo Boechat e Paulo Marinho:

Boechat – Eu pensei em dizer ‘não assina, não’. Mas preferi ficar calado.
Paulo – Acho que você dizer pra não assinar eu acho um erro. Tu não pode dar esta montaria pra esses caras…
Boechat – Sabe o que mais? O último detalhe é o seguinte: aquela última nota nossa do dia 3, quando a gente… quando teve a reunião do conselho, que eu dei a história da demissão, lembra? Da demissão do Arthur (Carvalho, cunhado, braço direito de Daniel Dantas no Opportunity e o representante do banco nos conselhos de administração das telefônicas)…
Paulo – Lembro.
Boechat – Eles… quando deu, eu assinei. Eu dei na Agência Globo sem assinar.
Paulo – Eu sei, você disse que eles identificaram em dois minutos que era sua a nota…
Boechat – Eles botaram no ar um desmentido com meu nome. Então é ridículo eu ficar dissimulando… (…)
Boechat – Aí, comecei da seguinte maneira. É um texto curto e tal. Dizendo assim: (O jornalista lê na íntegra a reportagem que foi publicada em O Globo no dia seguinte.)
Paulo – Tá ótima a matéria, diz tudo o que a gente queria falar.
Boechat – Agora, não dá pra dizer que a atitude é ilegal, entendeu? Mas é isso aí.
Paulo – A matéria tá muito bem-feita, meu querido. Tá na conta. Não precisa botar mais p… nenhuma, não. O resto é como você falou: é adjetivação que você não pode colocar. (…)
Boechat – Os caras disseram que vão dar bem a matéria, vamos ver. (…)
Paulo – Amanhã, eu te ligo pra te dar notícia da matéria.
Boechat – Pra saber se deu certo.

Os advogados dos Fundos de Pensão e da TIW reproduziram a reportagem de Boechat na ação judiciária que propuseram dez dias depois contra Dantas. Quanto ao jornalista, soube-se pelo “Jornal do Brasil” o que aconteceu no dia em que seu diálogo foi divulgado pela imprensa:

“Boechat conversou na manhã de domingo com o editor-chefe do jornal, Rodolfo Fernandes. O jornalista perguntou se deveria escrever um artigo explicando seu diálogo ou apresentar pedido de demissão. Como resposta, escutou que sua situação já estava insustentável. À noite, o diretor-executivo do jornal foi até a casa de Boechat e oficializou a demissão”.

A decisão de demitir o jornalista foi unânime, ainda segundo o “Jornal do Brasil”. Os responsáveis pelo jornalismo das Organizações Globo consideraram que a conduta de Boechat feriu as normas do código de ética da empresa. Eles concordaram que o jornalista não poderia ter lido seu texto para Marinho nem discutido questões internas do jornal.

Eu gostava do Boechat. Fiquei triste, na época e agora.

 

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Vazamento da Satiagraha na Internet

Texto de José de Souza Castro:

Leio no Blog do Lucas Figueiredo notícia sobre o vazamento na Internet, por obra de hackers que se identificam como LuizSec e Anonymous, de uma batelada de documentos sigilosos da Operação Satiagraha, da Polícia Federal. É possível acessar os documentos clicando AQUI. São centenas, mas até agora só li quatro, dos quais o que mais me chamou a atenção é um relatório de 162 páginas assinado pela delegada Karina Murakami Souza, da Divisão de Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal.

O relatório, datado de junho de 2008, é dirigido ao juiz federal da 6ª Vara Criminal de São Paulo, e apresenta os resultados “do que foi apurado até o momento, através das interceptações telefônicas e telemáticas autorizadas judicialmente, com relação à organização criminosa liderada por DANIEL VALENTE DANTAS, envolvida na prática de delitos contra o Sistema Financeiro Nacional e o mercado de capitais, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal, formação de quadrilha, tráfico de influência, dentre outros.”

Como jornalista, fiquei bastante interessado no que li nos quatro parágrafos abaixo:

“No curso da presente investigação nos deparamos com diálogos e emails que apontam para ocorrência de manipulação da mídia pela organização criminosa investigada. Pudemos notar que tudo o que se publica com relação aos interesses do grupo é acompanhado de perto e cuidadosamente.

Não obstante não haver tipificação penal específica para tanto, a situação verificada ultrapassa os limites constitucionais estabelecidos nos artigos 220 e inciso IV do art. 221 da Constituição da República. Em alguns momentos, o comportamento de alguns jornalistas poderia até ser enquadrado como de membros da organização criminosa, especialmente daqueles com indícios de recebimento de remuneração direta ou indireta de recursos advindos do grupo.

Em certas oportunidades, é travada uma verdadeira batalha psicológica por meio dos órgãos de imprensa, os quais deveriam apresentar uma opinião isenta, mas, na verdade, encontram-se totalmente corrompidos, utilizados como instrumentos servindo aos interesses de criminosos.

O volume de dados obtidos sobre o tema foi grande e de sua análise concluirmos que a utilização da mídia serve a dois propósitos, no mínimo, antiéticos, o benefício próprio e o prejuízo de terceiros, com intenções de chantagem. Os diversos relatórios de interceptação telefônica e telemática trouxeram tópicos específicos sobre o tema que não irei reproduzir nesta peça, apesar de considerar importante chamar atenção para o tema que poderá ter influência na repercussão após a execução deste trabalho.”

Achei curiosa também uma referência à atual presidente da República, relacionada com um auxiliar direto de Daniel Dantas, o advogado e ex-deputado federal petista Luiz Eduardo Rodrigues Greenhalgh, o “Gomes”. Diz o relatório:

GOMES transita com facilidade nos gabinetes de Ministros do STF e STJ em busca de decisões favoráveis ao grupo, quase sempre com apoio de escritório de advocacia constituído para despistar a sua presença na causa. Devido à sua condição de ex-deputado federal e membro do Partido dos Trabalhadores, freqüenta a ante-sala do Gabinete da Presidência da República, buscando apoio para negócios ilícitos do grupo, notadamente no Gabinete da Ministra da Casa Civil Dilma Russef e do Secretário-Geral da Presidência Gilberto Carvalho, é intimamente próximo ao ex-Ministro da Casa Civil José Dirceu. Sua participação foi fundamental na criação da “Supertele”.

Gostaria que a forma como a delegada grafou o sobrenome de Dilma Rousseff não comprometa seu relatório como um todo. Temo, porém, que todo o caso esteja comprometido, não por culpa da esforçada delegada, mas por obra de alguns juízes e políticos muito importantes.