- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Eu falava que o tio Dodó era o meu tio favorito, o melhor tio do mundo, mas ele não acreditava, achava que era aquele tipo de coisa que se fala para todos, pra agradar.
Depois o Luiz também começou a falar que ele era o melhor tio-avô do universo, e aí acho que ele viu que não estávamos brincando.

Porque ele era mesmo, e desde que eu era pequetita. Uma das minhas primeiras memórias mais cristalinas é de quando eu tinha uns 4 anos, e ele foi fazer um estágio no Japão. Acho que ficou pouco tempo lá, mas, na minha condição espaço-temporal da primeira infância, a impressão é de que muitíssimo tempo tinha se passado.
(Até porque naquela época ainda tínhamos o bom hábito de almoçar todo domingo na casa da vovó Rosa, numa reunião da família toda. Então o tio Dodó, que não tinha nem 40 anos, fazia muita falta.)
O fato é que, depois de algum tempo (2 meses ou 2 anos, tanto faz), ele voltou falando um monte de frases em japonês (ou eram só umas duas, que ele repetia e eu não tinha como saber) e me deu de presente uma joaninha de corda.
Quando perguntei o que ele tinha ido fazer no Japão, país tão longe que ficava lá nas nuvens, ele me respondeu que tinha ido lá só pra comprar aquela joaninha de presente pra mim ❤
Assim era o tio Dodó: um conquistador. Eu só me lembro dele sorrindo, generoso, agregador, dando festas, sempre cercado por muitíssimos amigos, que ele ia colecionando ao longo da vida, como se fosse a abelha-rainha de uma grande colmeia que não parava de crescer (um deles repetiu várias vezes que era seu amigo desde 1973!).

Muitos desses companheiros ele conquistou nos tempos em que trabalhou na Açominas (hoje Gerdau), em Ouro Branco. A gente ia muito visitar o tio Dodó, a tia Rita e os primos Paula e Bruno na casa deles nesta cidade a 100 km de Belo Horizonte. Lembro que estávamos lá, por exemplo, no domingo em que Ayrton Senna morreu.
Assim como Senna era o herói de muitos brasileiros, o tio Dodó era o ídolo de toda a criançada da família Miranda Moreno (filhos, sobrinhos, netos, sobrinhos-netos…). Até seu apelido era divertido, combinando com ele muito mais que o nome de batismo sisudo pelo qual era chamado pelo resto do mundo: Josires.

Brincalhão, adorava dizer que era “um cavalo de homem”, empostando a voz e às vezes murchando a barriga e fazendo um muque, estilo He-Man ou Rambo. Nem Adriane Galisteu resistiria a tanto charme! 😀
Quando adoeceu, há cerca de dois anos, com uma doença dessas progressivas e degenerativas, falei com ele pra ficar bom logo, pra voltar a ser “um cavalo de homem”. Mas, nas vezes em que o vi, no hospital ou em casa, ele já estava abatido demais, entristecido, como se não achasse mais graça desta piada batida que ouvi a vida inteira.

Não se preocupe, tio Dodó: não é essa imagem que vamos guardar de você. Vou me lembrar de você pra sempre como o tio que fazia os melhores pães de queijo, os melhores churrascos, que adorava banana, doces e cervejas, que adorava Elvis e Beatles, que se emocionava fácil, que estava sempre presente nos eventos da família, que adorava receber os amigos e parentes em casa, que não se importava de ir cochilar quando o cansaço batia no meio da festa, que era muito conciliador, gostava de ficar bem com as pessoas, que não gostava de ler nem de falar de política ou futebol, que era carinhoso com minha mãe (sua irmã) e com todo o resto da família (a começar pelos filhos e netos), que exerceu a engenharia até o último dia de vida e que foi até o Japão só para trazer uma joaninha de plástico pra mim.
Infelizmente a joaninha quebrou no primeiro dia, porque girei a corda para o lado errado. Lembro que fiquei arrasada. Já a máquina de lavar que ele me deu no meu casamento durou 12 anos: parou de funcionar de vez no mesmo dia em que o tio Dodó também resolveu parar de funcionar e ir descansar – ou levar suas festas, sorrisos e churrascos para outros ares.
Arigatô, tio Dodó! ❤
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linda homenagem, Cris. Muito me emocionou.
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Obrigada, tia Detinha ❤️
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lindo texto Cris e super identifica o nosso querido tio Dodó que tinha muito carinho com todos os sobrinhos!
saudades, tia Rose
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Ele era mesmo muito querido por todos 🥰
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Fiquei emocionado, Cristina, ao ler esse seu relato sobre um “cavalo de homem” que nos deixou com tantas e boas memórias. Li seu texto há pouco, às 10 da noite deste dia que também se tornou inesquecível: o da despedida, pela família e incontáveis amigos, do corpo inanimado do tio Dodó. Ele morreu na véspera em casa, depois de passar a manhã trabalhando, remotamente, numa cadeira de rodas elétrica, para a empresa de engenharia que o empregava nos últimos anos. Tinha perdido boa parte da mobilidade, porém não o cérebro privilegiado. Arigatô!
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Sem dúvida, morreu com o cérebro inteiro… Ainda podendo aproveitar a vida até o fim, antes de a doença tirar o gosto das coisas boas.
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É assim que lembramos e lembraremos dele. ❤️
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❤️❤️❤️
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