- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Antes que este “mês das mulheres” termine, quero trazer aqui para o blog uma iniciativa bem legal que minha amiga Paola Carvalho ajudou a divulgar: o “Guia para comunicadores sobre a violência contra a mulher”.
Como diz o texto da introdução:
“Diante do crescimento dos casos dos vários tipos de violências, da complexidade das violações e dos novos desafios impostos pelo ambiente digital e pelas tecnologias emergentes, saber como falar deixou de ser apenas uma escolha editorial: tornou-se um compromisso ético. O guia foi pensado como uma ferramenta de apoio para comunicadores, criadores de conteúdo e pessoas interessadas em abordar o tema de forma cuidadosa, informada e comprometida com a proteção das vítimas.”

Sou jornalista há 20 anos, mas, como eu disse no meu último post, aprendi que ainda tenho MUITO a aprender. E é com esse espírito que leio esse tipo de guia ou manual. Porque não podemos achar que, só por dominarmos as principais técnicas da comunicação ou só por sermos mulheres não estamos sujeitas a publicar conteúdos que, no fundo, mais prejudicam que ajudam as vítimas de violência de gênero. Ainda temos um longo chão de aprendizado pela frente.
Foi com este mesmo pensamento, aliás, que eu trouxe aqui para o blog, em 2024, o manual de redação antirracista para jornalistas. O antirracismo é uma construção que não é necessariamente simples ou fácil, por causa do contexto histórico em que vivemos, e por isso deve ser um esforço abraçado por todos. Assim como o feminismo.
A seguir, trago um breve resumo do que é abordado no “Guia para comunicadores sobre a violência contra a mulher”.
Quais são os tipos de violência contra a mulher?
- Violência física: “É qualquer tipo de agressão que atente contra a integridade física da mulher, com o uso de arma ou não. Atirar objetos, sacudir, apertar os braços, tentar sufocar, torturar ou causar lesões estão incluídos aqui, ocorrendo ou não em ambiente doméstico.”
- Violência psicológica: “Atitudes que têm como objetivo constranger, causar dano emocional, diminuir autoestima e que envolvam atos de manipulação, chantagem, violação de intimidade, perseguição e isolamento.”
- Violência sexual: “Estupro ou qualquer ato sexual não desejado, que ocorra sem o consentimento da mulher, seja por meio de força, coação ou intimidação. Inclui também violações aos direitos reprodutivos, como impedir acesso a métodos contraceptivos ou forçar a mulher à gravidez ou ao aborto.” Importante: “No Brasil, qualquer ato sexual com menores de 14 anos é considerado estupro de vulnerável.”
- Violência moral: “Entendida como condutas que configurem calúnia, difamação ou injúria, incluindo humilhação pública, exposição da vida íntima e comentar de forma que desvalorize ou rebaixe a mulher pelo seu modo de ser ou de se vestir.”
- Violência patrimonial: “Diz respeito a controle, retenção ou destruição de bens, objetos, documentos e instrumentos de trabalho. Inclui estelionato sentimental, quando há o uso dos bens da vítima por meio de manipulação de vínculo afetivo, e até o não pagamento de pensão alimentícia.”
- Assédio sexual: “Ligada a assimetrias de poder, o assédio inclui o constrangimento e a intimidação da vítima, sem necessariamente envolver contato físico e exige relação de hierarquia para configurar como crime. Pode se dar por meio de palavras, gestos ou qualquer outro tipo de manifestação que cause dano à honra e dignidade, incluindo insinuações veladas e explícitas.”
- Violência de gênero na internet: “Praticada em ambiente virtual, consiste no compartilhamento sem consentimento de imagens e vídeos íntimos, além do stalking, sextorsão, doxxing e cyberbullying. Vale reforçar que as violências que acontecem offline, como estupro, também podem ser reproduzidas online, com potencial traumático equivalente.”
- Violência política de gênero: “Delimitada por lei em 2021, considera toda ação ou omissão que tenha como finalidade impedir ou restringir os direitos políticos de mulheres, tanto candidatas quanto políticas com mandato. Pode se manifestar de forma física ou como violência institucional, verbal e simbólica.”
- Feminicídio: “Forma extrema de violência, considerada como um crime de ódio que consiste no assassinato de mulheres em função do seu gênero, quando a condição de mulher é a principal motivação para a prática do crime hediondo.”
Faltou apenas eles colocarem a violência racial, que atinge as mulheres negras.
Alguns dados e estatísticas sobre violência contra a mulher
- Em 2025, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) registrou a concessão de 621.202 medidas protetivas.
- Foram 998.368 novos processos de violência doméstica no mesmo ano.
- Nos tribunais de primeiro grau, foram julgados 4.243 feminicídios em 2025 – um aumento de quase 94% em cinco anos, já que foram 2.188 casos em 2020.
- Já o balanço anual do Ligue 180 mostra que, em 2024, data do último levantamento, a central atendeu 691.444 ligações com denúncias de violência de todo o país – 21,6% a mais que em 2023.
- Segundo os dados compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2025 houve um aumento de 19% nas tentativas de feminicídio, 18,2% nos casos de stalking e 6,3% nos registros de violência psicológica.
- O Anuário também traz dados sobre o perfil das vítimas de feminicídio: 63,3% eram mulheres negras, 70,5% tinham idade entre 18 e 44 anos, e 8 em cada 10 mulheres foram assassinadas por companheiros e ex-companheiros, sendo que 64,3% das mortes ocorreram na casa da vítima.

7 orientações para falar sobre violência contra a mulher com responsabilidade
E agora entramos ao ponto principal do guia, que é voltado para jornalistas e comunicadores em geral, inclusive influenciadores digitais que queiram levar informações de forma ética:
1. Não culpabilizar a vítima
“A vítima nunca tem culpa. E isso independe de roupas, comportamento, histórico pessoal, uso de álcool ou escolhas afetivas. Nada justifica a violência. Utilizar expressões que sugerem esse tipo de culpabilização reforça a cultura da violência e afasta outras mulheres da busca por ajuda.”
2. Não apelar ao sensacionalismo
“Descrever episódios de violência nos mínimos detalhes e usar imagens sensíveis ferem a dignidade da vítima e, ao mesmo tempo, falham em informar. Em vez da espetacularização e da exploração da dor alheia, o foco deve ser em contar a história da mulher para além da violência sofrida e na busca por justiça. E lembrar sempre que trauma não é entretenimento: relatar um caso deve servir ao propósito de honrar a vítima e exigir reparação e culpabilização.”
3. Evite o uso da voz passiva
“Utilizar frases como ‘Mulher é morta’ coloca o foco na vítima e esconde a responsabilidade do agressor. Isso pode gerar uma interpretação errônea de que a vítima teria algum tipo de ‘culpa’ sobre a violência que sofreu, ajudando a disseminar uma visão machista e normalizadora dos episódios violentos.”
4. Contextualizar os casos
“A violência contra a mulher, como já vimos, está inserida em um contexto mais amplo que envolve questões estruturais, como misoginia e racismo. Os casos não são isolados e situá-los na realidade ajuda as audiências a perceber a dimensão do problema e a necessidade de se engajarem na pauta do combate à violência.”
5. Permitir que sobreviventes falem por si
“No caso de mulheres que sobreviveram a um episódio de violência, exercitar a escuta atenta e empática é essencial. Além de respeitar os limites da pessoa, é importante deixar que ela fale de si em seus próprios termos, sem induzir respostas. Em entrevistas ou conversas com pessoas que passaram por episódios traumáticos, é fundamental deixar evidente que o controle sobre o que será dito e o que será silenciado é da pessoa – e não do interlocutor.”
6. Não reproduzir estereótipos
“A misoginia induz a produção de estereótipos que condenam a mulher por seu comportamento ou aparência. Evitar reproduzir imagens que reforcem esses padrões e que possam sexualizar vítimas é essencial; na dúvida, o ideal é sempre escolher fotos neutras, que não provoquem julgamentos morais.”
7. Evite calúnia, difamação e injúria
“Ao falar sobre o(s) agressor(es), evite o uso de termos que indicam acusação direta sem decisão judicial. Adote termos como ‘suspeito’, ‘acusado’, ‘investigado’, de acordo com cada caso. E, se houver dúvidas, consulte advogados ou organizações que atuam no combate à violência contra a mulher para compreender a melhor forma de reportar.”

O guia também traz dicas para os comunicadores que são vítimas de violência no ambiente da internet e sobre o que devem fazer se forem procurados por uma vítima. Para ler na íntegra, acesse este link e baixe o guia 😉
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Vale dizer que este guia foi feito pelo Redes Cordiais, “organização que atua na promoção de um ambiente digital mais ético, seguro e confiável”, com apoio do YouTube.
A pesquisa e redação foi feita pela jornalista Luiza Bodenmüller, a coordenação foi de Clara Becker e a supervisão, da Cris Fibe, que é voz muito ativa neste tema. Como boas jornalistas, elas listaram várias fontes confiáveis e referências bibliográficas no fim do guia, com links, para quem quiser se aprofundar ainda mais 😉
Por fim, não deixem de compartilhar este post e o guia. Eles mesmos reforçam que o material pode ser copiado e redistribuído “em qualquer suporte ou formato”, além de remixado e transformado “para qualquer fim, mesmo que comercial”. Quanto mais pessoas puderem refletir sobre estas questões, melhores as chances de evitarmos tragédias futuras ❤
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