A arte do mineiro Marco Paulo Rolla: vício em telas e a desconexão com a vida

Exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: CMC / blog da kikacastro
Exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: CMC / blog da kikacastro

Já tive a oportunidade de ver duas vezes esta exposição Contrapontos e Contratempos, com a arte de Marco Paulo Rolla, que está em cartaz na Galeria de Arte do Centro Cultural Unimed-BH Minas desde abril, e ainda fica até o dia 22 de junho.

Na primeira delas, já me impressionei com as pinturas dele, que, além de muito bonitas e meio fantásticas, geram algum incômodo na gente, nos fazem pensar. Como esta, que está bem na entrada, e mostra um executivo saltando por sobre sua mesa de trabalho, ávido, como se em fuga, em busca de uma coisa bem melhor longe dali. O nome da obra é “Situação a priori – é possível!“:

Obra "Situação a priori - é possível!", presente na exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra “Situação a priori – é possível!“. Foto: CMC / blog da kikacastro

Na segunda visita, tive um pouco mais de tempo e pude prestar mais atenção às pinturas, esculturas e ao vídeo que encerra a mostra.

Minha parte favorita foi, sem dúvida, as obras da série Conexão ou desconexão?, que é assim explicada:

“Vivemos em uma era em que o vício em telas está criando um desequilíbrio socioemocional entre as pessoas e nossa conexão com a vida.

Ao soar, o celular nos entrega à urgência do seu toque e rompemos a conexão com a realidade do momento, como uma conversa com um amigo, e caímos numa realidade paralela que tem dominado nossos desejos.

Hoje, o aparelho substituiu fisicamente todos os nossos documentos, contatos, dinheiro e até namorados, deixando-nos sempre na expectativa de ver o que está acontecendo em todos os campos dos quais precisamos para viver e sobreviver.

Assim se faz a pergunta: conexão ou desconexão?”

Quem acompanha este blog sabe, afinal, que este é um tema caríssimo por aqui.

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São vários quadros ótimos, mas tenho certeza de que você vai se reconhecer em pelo menos um destes abaixo:

Obra "Um pouco antes", de 2025, presente na exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra “Um pouco antes“, de 2025. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra "A hora do almoço", de 2025, presente na exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra “A hora do almoço“, de 2025. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra "Enfim sós", de 2025, presente na exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra “Enfim sós“, de 2025. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra "Laxante", de 2024, presente na exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra “Laxante“, de 2024. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra "Laptop", de 2006, presente na exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra “Laptop“, de 2006. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra "Na busca", de 2024, presente na exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra “Na busca“, de 2024. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra Embarque, de 2022, presente na exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: Beto Trajano / blog da kikacastro
Obra “Embarque“, de 2022. Foto: Beto Trajano / blog da kikacastro

E aí, se reconheceu? Pregado no celular enquanto come, antes de dormir, enquanto dirige, pega o metrô, usa a privada? Vidrado na tela quando antes costumava namorar ou conversar? Derretendo no teclado do laptop de tanto trabalhar?

A exposição também levanta outras situações, como as relações familiares diante da tela, mesmo na época da velha TV de tubo que aparece neste belo quadro de 2014:

Obra TV, de 2014, presente na exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra “TV“, de 2014. Foto: CMC / blog da kikacastro

Ou os chamados “crimes virtuais“, que de virtuais não têm nada: causam estragos, agridem e matam com a mesma ferocidade de uma velha faca:

Obra "Crime virtual", de 2021, presente na exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra “Crime virtual“, de 2021. Foto: CMC / blog da kikacastro

E, de novo, os grilhões do trabalho moderno, nesta obra “De mãos atadas“, que remete às mãos dos escravizados de antigamente, agora presas a um teclado:

Obra "De mãos atadas", presente na exposição Contrapontos e Contratempos, de Marco Paulo Rolla. Foto: CMC / blog da kikacastro
Obra “De mãos atadas“. Foto: CMC / blog da kikacastro

Performance Urgência Social já tratava do incômodo do celular em 2005

Como podem ver, a maioria das obras expostas são super recentes, até inéditas, feitas ainda em 2025. Mas há também outras de muito mais tempo, que mostram como esses temas da tecnologia interferindo nas nossas vidas interessam ao artista mineiro bem antes de serem discutidos por todos.

É o caso da performance “Urgência Social“, que foi feita por Marco Paulo Rolla há vinte anos, lá em 2005, quando as pessoas ainda nem usavam smartphones, mas sim aqueles velhos celulares quadradinhos que só sabiam ligar e receber ligações.

Cena da performance Urgência Social (2005), de Marco Paulo Rolla, presente em vídeo de 23 minutos na exposição Contrapontos e Contratempos.
Cena da performance Urgência Social (2005), de Marco Paulo Rolla, presente em vídeo de 23 minutos na exposição Contrapontos e Contratempos.

O vídeo da performance, de 23 minutos, é exibido na exposição, mas só consegui assistir a um trecho. Ele mostra o incômodo do artista com o celular e com sua interrupção contínua no nosso cotidiano.

Na performance, vinte pessoas ficam ligando para ele sem parar, durante um evento, interrompendo suas conversas – tudo previamente combinado com elas, é claro. Depois, ele e essas vinte pessoas caem no chão, com o celular na mão, derrubando suas taças de vinho, e ficam ali, como mortas, enquanto os outros continuam confraternizando normalmente. É impactante.

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Quem é Marco Paulo Rolla?

A graça das exposições é nos fazer conhecer artistas e ideias que ainda não tinham chegado até nós, não é mesmo? Eu nunca tinha ouvido falar em Marco Paulo Rolla, infelizmente. Agora conheço um pouco do seu trabalho.

Marco Paulo Rolla é artista mineiro de São Domingos do Prata, pintor, desenhista, escultor e performer. Foto: Divulgação na página do artista.
Marco Paulo Rolla é artista mineiro de São Domingos do Prata, pintor, desenhista, escultor e performer. Foto: Divulgação na página do artista.

O artista, da cidade mineira de São Domingos do Prata, nasceu em 1967, formou-se como bacharel em Artes pela UFMG, depois fez mestrado em Artes na mesma universidade e agora faz doutorado na também renomada UEMG. Nos anos 1990, fez residência na Rijksakademie van Beeldende Kunsten, em Amsterdã, na Holanda.

Já participou de inúmeras exposições individuais e coletivas, no Brasil e fora – Alemanha, Argentina, Holanda, Finlândia e Itália. Seus trabalhos fazem parte de acervos importantes, como o do Museu de Arte Moderna de São Paulo, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Instituto Itaú Cultural (São Paulo), Museu de Arte da Pampulha (Belo Horizonte), Centro Cultural Inhotim (Brumadinho, MG), Museu de Arte Casa das Onze Janelas (Belém, PA), Museu MAR (Rio de Janeiro) e Dragão do Mar (Fortaleza, CE).

Desde 2001, é criador, coordenador, curador e editor do Centro de Experimentação e Informação de Arte, em Belo Horizonte.

Saiba mais sobre a exposição:

  • Contrapontos e Contratempos – exposição Individual de Marco Paulo Rolla
  • Onde: Galeria de Arte do Centro Cultural Unimed-BH Minas
  • Endereço: Rua da Bahia, 2.244 – Lourdes – Belo Horizonte/MG
  • Quando: Em cartaz até 22 de junho de 2025; de terça a sábado, das 10h às 20h; aos domingos e feriados, das 11h às 19h.
  • Valor: Gratuito, sem necessidade de ingresso.
  • Classificação: Livre
  • Mais informações no site

Como comprar o livro de crônicas (Con)vivências, de Cristina Moreno de Castro, do blog da kikacastro.

Outras exposições legais que já vi em BH:

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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