Comecei a ler a obra completa de Murilo Rubião ainda em 2022, se não me engano. Na mesma medida em que me encantei, também me angustiei com suas histórias fantásticas, malucas, com o nonsense inserido no meio do cotidiano mais frugal.
Acabei interrompendo a leitura, e o livro ficou esquecido na minha biblioteca, pela metade.
Em 2023, entrei de novo no universo kafkiano do escritor mineiro ao assistir ao filme “O Lodo”, de Helvécio Ratton, baseado em um dos contos de Rubião. Escrevi, na época, que a graça da história é o suspense e a tensão em torno do personagem central, seus pesadelos se fundindo à realidade.
“Ficamos angustiados junto com ele, tentando entender como aquele inferno em que ele se meteu poderá se resolver, se é que se resolverá.”

Este não foi o único conto de Rubião que virou filme. “A Armadilha” virou um curta-metragem nas mãos do diretor Henrique Faulhaber, em 1979. “O Pirotécnico Zacarias” também foi adaptado para o cinema, em 1981. “O Ex-Mágico da Taberna Minhota” virou um curta de Rafael Conde em 1987. “O bloqueio” virou animação em 2002.
A obra de Murilo Rubião também ganhou prêmios célebres, ficou famosa em outros países, virou objeto de estudo de teses acadêmicas, ensaios e exposições. O mais interessante, para mim, é que a obra completa dele, completa, TUDO o que ele fez em toda a sua vida de escritor, se resume a 33 contos curtos.
A pessoa precisa ser muito impactante para conseguir gerar tamanha admiração, respeito e ganhar essa legião de fãs com apenas 33 textos, não acham?
Afinal, o que Rubião tem de especial? Ele foi um dos precursores do realismo mágico, este mesmo que tornou famosos escritores como Gabriel García Márquez e Jorge Luis Borges – e quando ainda nem conhecia a obra de Franz Kafka. Fez isso praticamente sem sair de seu apartamento em Belo Horizonte, onde, segundo dizem, aperfeiçoava e burilava cada um de seus textos à exaustão, às vezes por anos, em busca do melhor possível.

E, embora todas as suas histórias sejam, como eu disse no outro post, uma mistura de “realismo fantástico, terrorismo psicológico, absurdos desconcertantes e humor”, elas quase sempre estão fincadas numa base de normalidade, de cotidiano, de vida real. É como no conto/filme “O Lodo”: Galateu é um sujeito qualquer que resolve procurar um terapeuta. Isso é vida comum, é um ponto de partida totalmente trivial. Mas os labirintos que se formam a partir dele são a marca registrada de Rubião.
Já adianto que, em sua maioria, esses labirintos oníricos mais parecem um pesadelo. Nem sempre a leitura é fácil, porque nos vemos presos nos mesmos devaneios desesperadores de quem está tendo um sonho ruim. Pior: queremos acordar, mas os fins das histórias nunca oferecem esse consolo.
Talvez por isso eu tenha demorado tanto a continuar minha leitura, mas finalmente terminei, neste janeiro de 2025, os 33 contos e os ensaios que os acompanham na edição especial da Companhia das Letras. Com a certeza de que Murilo Rubião é um dos escritores mais insólitos da literatura brasileira (ou mundial).

Assim como todos deveriam conhecer Kafka algum dia, todos também deveriam navegar pelas linhas e ideias raras de Murilo Rubião.
“Murilo Rubião: Obra Completa”
Murilo Rubião
ed. Companhia das Letras
283 páginas
R$ 66,65 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
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Murilo Rubião era antes de mais nada um burocrata. Formado em Direito, dedicou-se mais ao jornalismo e, sob esse aspecto, sua maior obra foi a criação do suplemento literário do Diário Oficial de Minas Gerais, que eu lia sempre, amenizando a difícil tarefa de ler diariamente o jornal para saber as últimas do governo de Minas e dali tirar algo para fazer a pauta da sucursal mineira do JB. Ele próprio se declarava um funcionário público e, como tal, chefiou o gabinete do então governador JK na década de 1950. Sempre achei difícil ler os contos dele e, apesar da excelente referência da Cris, não sei se nesta altura da vida os lerei.
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Não são fáceis mesmo, não!
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