Minha experiência na Petrobras e por que nunca se roubou tão pouco

A Refinaria Gabriel Passos (Regap), da Petrobras, em foto de divulgação.
A Refinaria Gabriel Passos (Regap), da Petrobras, em foto de divulgação.

Texto escrito por José de Souza Castro:

Li hoje que um leitor acessou neste blog, dez anos depois, um artigo que escrevi aqui logo depois que a Lava Jato havia iniciado, em novembro de 2014, sobre a prisão de empresários importantes suspeitos de participarem da corrupção na Petrobras. Com foco nos governos petistas, embora a corrupção tenha começado bem antes.

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Eu conto minha experiência na maior estatal brasileira, no início do golpe militar:

“Meu terceiro emprego com carteira assinada foi na Petrobras. Fiz concurso para auxiliar de escritório na obra de construção da Refinaria Gabriel Passos (Regap), em Betim, e fui admitido em 1965. A Construtora Andrade Gutierrez fazia ainda a terraplanagem, mas algumas obras civis já tinham começado.

Eu fui designado para a Seção de Fiscalização e lotado na Central de Concreto. A empreiteira era a Bento Paixão S/A. Meu chefe era um engenheiro experiente que começara na Petrobras praticamente desde sua fundação, em 1953. O outro funcionário da Petrobras, nesta Central de Concreto, era um servente que ficava no poeirento local em que cimento, areia e brita eram misturados e transformados em concreto. Ele anotava a metragem de concreto que saía e o tipo, pois em cada um havia gastos diferentes, segundo uma tabela, de cimento, areia e brita.

A brita era produzida, ali perto, numa pedreira da Bento Paixão, que também se encarregava da compra da areia. O cimento era comprado pela Petrobras. Havia três fornecedores: Itaú, Ciminas e Cauê. Eu fazia os pedidos ao Setor de Compras da Regap, por telefone, e ele os repassava a uma das três cimenteiras. O caminhão carregado de cimento era pesado por um empregado da Bento Paixão, ao chegar e ao sair, e ele me informava a quantidade de cimento fornecido, a partir do peso do caminhão.

Era um controle muito à base da confiança, mas tanto meu chefe como a superintendência da Regap se mostravam satisfeitos com o sistema de fiscalização. Ao fim de cada dia eu apresentava a ele um relatório e, ao fim do mês, outro com informações consolidadas. Pelos meus cálculos, não havia divergências entre concreto fornecido e cimento comprado. A qualidade do produto era atestada por um laboratório de concreto contratado pela Regap, pertencente a um conhecido engenheiro de Belo Horizonte. E, até onde sei, essa qualidade nunca foi contestada nestes anos todos.

Eu estava satisfeito com meu trabalho, pois sobrava tempo para estudar, preparando-me para o vestibular de medicina. Cheguei a fazer inscrição, mas desisti das provas, pois passei num concurso para Operador de Utilidades da Regap que exigiria trabalhar em turnos de oito horas. Ganharia dez salários mínimos, e não podia abrir mão disso. Acabei cursando jornalismo, a partir de 1968.

O que me incomodou, na Central de Concreto, foi o que aconteceu na véspera do Natal.”

Depois desses parágrafos iniciais, seguem-se muitos outros, começando pelo presente de Natal que recebi de uma empreiteira. Reli a história com saudade. Quem se interessar pode ler neste link: Minha experiência na Petrobras.

Eu me interessei também pelos links de artigos indicados nos comentários ao texto. Os links encaminham aos artigos dos jornalistas Luciano Martins Costa, Luiz Fernando Viana e Ricardo Melo.

E à opinião do empresário Ricardo Semler na “Folha de S.Paulo”, que parecia saber mais que o então juiz Sérgio Moro. Ele era sócio da Semco Partners, professor visitante da Harward Law School e professor no MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts. O título de seu texto: “Nunca se roubou tão pouco“.

Veja os parágrafos iniciais do artigo que Semler escreveu na “Folha” (a íntegra está no link acima):

“Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.

Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.

Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos “cochons des dix pour cent”, os porquinhos que cobravam 10% por fora sobre a totalidade de importação de barris de petróleo em décadas passadas.

Agora tem gente fazendo passeata pela volta dos militares ao poder e uma elite escandalizada com os desvios na Petrobras. Santa hipocrisia. Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão – cem vezes mais do que o caso Petrobras – pelos empresários?”

Leia mais posts sobre a Petrobras:

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Por José de Souza Castro

Jornalista mineiro, desde 1972, com passagem – como repórter, redator, editor, chefe de reportagem ou chefe de redação – pelo Jornal do Brasil (16 anos), Estado de Minas (1), O Globo (2), Rádio Alvorada (8) e Hoje em Dia (1). É autor de vários livros e coautor do Blog da Kikacastro, ao lado da filha.

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