Taxa de juros tem que ser mais racional no Brasil, diz presidente da CNI

Ricardo Alban na cerimônia de posse como presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria). Foto: CNI / Divulgação
Ricardo Alban na cerimônia de posse como presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria). Foto: CNI / Divulgação

Texto escrito por José de Souza Castro:

Em artigo na “Folha de S.Paulo” no último sábado (19), o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, afirma: “Às vezes é preciso dizer o óbvio: taxa mais racional, como em economias emergentes, incentivaria investimentos, reduzindo a pressão inflacionária”.

Fiquei curioso sobre um autor que eu, na minha ignorância, não sabia quem era. No portal da CNI, encontrei o seguinte:

Antônio Ricardo Álvarez Alban nasceu na Bahia em outubro de 1960, graduou-se em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Bahia e em Administração de Empresas. Ele substituiu no comando da CNI o mineiro Robson Braga de Andrade, no cargo desde novembro de 2010. Este eu conhecia e o cito no livro “O enigma Salej“, disponível na biblioteca do blog.

Ricardo Alban (esquerda) substitui Robson Andrade (direita) na presidência na Confederação Nacional da Indústria (CNI), que Andrade comandou por 13 anos. Foto: CNI / Divulgação
Ricardo Alban (esquerda) substitui Robson Andrade (direita) na presidência na Confederação Nacional da Indústria (CNI), que Andrade comandou por 13 anos. Foto: CNI / Divulgação

Voltando às informações da CNI:

Alban presidiu a Federação baiana desde 2014 e o Centro das Indústrias do Estado da Bahia desde 2018. Trabalhou no Citibank no início dos anos 1980 e, desde 1987, é sócio-diretor da Biscoitos Tupy, fundada por sua família. Claro, isso não é suficiente para que chegasse à presidência da CNI.

Vamos, pois, em frente:

É também vice-presidente da Associação Nacional da Indústria de Biscoitos; presidente do Sindicato da Indústria do Trigo, Milho, Mandioca, Massas Alimentícias e de Biscoitos do Estado da Bahia; membro do Conselho Nacional do SESI; membro da Associação Nordeste Forte; membro titular do Conselho Diretor do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico; e membro do Conselho de Administração da Renova, do Conselho de Administração da Cetrel e do Conselho Consultivo Agro da Unigel.

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Encontrei ainda o discurso de posse de Ricardo Alban na CNI, em 31/10/23, para mandato até 2027:

“O momento atual é propício para promovermos a neoindustrialização. A revolução tecnológica em curso e a necessária descarbonização da economia são janelas de oportunidades que devem ser aproveitadas pelo Brasil. Para isso, precisamos de capacidade em inovação, em pesquisa e desenvolvimento, para absorvermos e desenvolvermos tecnologias para que o país cresça, crie empregos, amplie sua presença no comércio mundial e reduza as desigualdades sociais”.

De posse de tão preciosas informações, reli o artigo dele na “Folha de S.Paulo”, jornal que leio desde que me formei em jornalismo, em 1972. Primeiro, o que me despertou a atenção foi o título: “Afinal, quem é responsável pelo aumento de juros?

Seria o Lula, como têm escrito alguns notáveis colunistas do próprio jornal? Seriam os apostadores nas bolsas de valores? Os donos do grande capital gananciosos por mais riqueza? O início do artigo pareceu-me promissor:

“A recente alta da taxa básica de juros tem provocado discussões entre especialistas econômicos e líderes empresariais. É preocupante que o aumento da capacidade instalada na indústria seja usado como justificativa para a elevação da Selic. Afinal, por que tantas narrativas são criadas para justificar algo que muitos consideram irracional? Qual é o verdadeiro papel do mercado financeiro nesse cenário, e por que ele parece ditar os rumos da política monetária nacional? Até quando?

A pressão sobre a capacidade instalada da indústria brasileira tem origem no histórico de juros astronômicos praticados no Brasil. O alto custo do crédito impede o investimento na expansão das plantas e o aumento da produção, agravando o gargalo da oferta e a inflação. A solução para a equação parece óbvia: uma taxa de juros mais racional, alinhada às praticadas em outras economias emergentes, incentivaria investimentos produtivos, reduzindo a pressão inflacionária, além de criar mais empregos e desenvolvimento. Às vezes é preciso dizer o óbvio.”

Meu ânimo continuou nos três parágrafos seguintes:

“Economias como a da China, que recentemente adotaram medidas de estímulo ao crescimento industrial, reforçam a tese de que o equilíbrio na política de juros alavanca o desenvolvimento. Nosso cenário atual bloqueia a expansão industrial, justo quando a economia brasileira está se recuperando, com a ajuda do desempenho da indústria. Enquanto presidente do G20, o Brasil só se soma à Índia e à Rússia em política monetária. Enquanto os três subiram juros, os outros 14 integrantes do G20 cortaram a taxa básica.

Atualmente, a Selic está em 10,75%. Já os custos para a indústria podem chegar a taxas entre 25% e 30% ao ano. O impacto nas cadeias produtivas, que são longas, é devastador. O custo financeiro embutido no produto final pode chegar a 25% do preço ao consumidor, situação insustentável para a competitividade da indústria.

Outro ponto controverso é a narrativa que orienta a política monetária no país, inclinada a se basear na pesquisa Focus, respondida por 170 empresas e instituições, sendo que apenas oito não são diretamente ligadas ao setor financeiro. Até que ponto as perspectivas da economia real, especialmente da indústria, comércio e serviços, são efetivamente consideradas na formulação das políticas econômicas?”

Taxa Selic ao longo dos anos, em gráfico do Banco Central. Em 2015, chegou a 14,25%. Caiu até 2% em dezembro de 2020. Hoje já está em 10,75%.
Taxa Selic ao longo dos anos, em gráfico do Banco Central. Em 2015, chegou a 14,25%. Caiu até 2% em dezembro de 2020. Hoje já está em 10,75%.

Finalmente, a conclusão esperada do bravo empresário baiano:

“A crítica que emerge é clara: a política de juros no Brasil parece estar moldada em benefício do mercado especulativo, em detrimento da economia produtiva. O setor agropecuário e o sistema financeiro têm vozes fortes – e levadas em consideração – no debate econômico. Nada mais justo que a indústria também tenha suas demandas ouvidas e consideradas.

Se o Brasil quer evitar perder mais oportunidades de crescimento, deve rever o papel dos juros na política econômica. O país precisa de uma política industrial consistente e de visão de longo prazo, onde o incentivo ao investimento produtivo ocupe lugar central. Assim, construiremos um país que privilegia o desenvolvimento e o bem-estar social, em vez de manter o foco no lucro especulativo de curto prazo.”

No final do artigo, o tradicional aviso do jornal: “Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e do pensamento contemporâneo”.

Ninguém duvida que não traduzam.

 


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Por José de Souza Castro

Jornalista mineiro, desde 1972, com passagem – como repórter, redator, editor, chefe de reportagem ou chefe de redação – pelo Jornal do Brasil (16 anos), Estado de Minas (1), O Globo (2), Rádio Alvorada (8) e Hoje em Dia (1). É autor de vários livros e coautor do Blog da Kikacastro, ao lado da filha.

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