As ideias de Hugo Chávez que morreram há tempos

Hugo Chávez, durante visita ao Brasil, em 2011. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR.
Hugo Chávez, durante visita ao Brasil, em 2011. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR.

Texto escrito por José de Souza Castro:

No dia 6 de setembro do ano passado, este blog publicou artigo intitulado “A entrevista de Hugo Chávez ao Pasquim há 21 anos: ideias que nunca morrem“.

Será? Nos últimos 12 meses muitas coisas aconteceram. Fernando Henrique Cardoso, que na época da entrevista era o presidente do Brasil, anda silencioso. Lula, presidente pela terceira vez, continua loquaz, mas parece ter perdido o ímpeto revolucionário, depois da tentativa de apoiar o sucessor de Chávez que abandonou algumas de suas ideias, como a construção de uma democracia baseada, por exemplo, em eleições livres.

Algumas ideias de Chávez morreram há tempos. Esta, principalmente:

“Nós vendemos petróleo cru para boa parte do mundo. Podemos fazer uma PetroAmérica: Brasil, Venezuela, Colômbia, Equador, México. Imagina o poder que uma companhia assim, estatal, multinacional, não teria! Penso assim, numa multinacional envolvendo estes Estados. Veja como não é difícil sonhar com isso: há três países, Colômbia, Brasil e Venezuela, que produzem grandes quantidades de petróleo, e há outros três (Equador, México e Bolívia) produzindo gás. Eu jamais deixei de dizer que acredito muito na relação entre Brasil e Venezuela como sendo um dínamo, um ponto de ligação, um motor para a integração da América do Sul. O norte do Brasil e o sul da Venezuela são um bloco só, com um grande potencial petrolífero. E ainda temos em comum a biodiversidade da Amazônia, temos água, temos a riqueza da cultura. Creio que ou nós transformamos isso em um esquema de integração, ou nada vai adiante”.

Chávez deu a entrevista ao “Pasquim” no dia 15 de maio de 2002, um mês após sofrer um golpe de estado, ser preso e ameaçado de ser jogado de helicóptero para morrer no mar. Sobreviveu porque foi ajudado por um oficial do Forte Tiuna que lhe emprestou o telefone para revelar à mulher e à filha que não havia renunciado e fugido, como propagavam os golpistas. Descoberta a mentira, o povo saiu às ruas. “Eu devo a reversão desse golpe oligárquico à coragem do povo e ao apoio da imprensa mundial e à ação dos meios alternativos da Venezuela”, disse Chávez.

Capa do jornal 'OPasquim21', de maio de 2002, com entrevista exclusiva de Hugo Chávez, um mês após ter sofrido golpe de Estado na Venezuela.
Capa do jornal ‘OPasquim21’, de maio de 2002, com entrevista exclusiva de Hugo Chávez, um mês após ter sofrido golpe de Estado na Venezuela.

Segundo Hugo Chávez, o golpe de Estado ocorreu porque a classe média venezuelana, sobretudo a alta, foi induzida pela mídia a acreditar que seria afetada pelo processo revolucionário “que visa a resgatar os direitos sem atropelar a ninguém”. Mas a imprensa, desde o início, fazia com ele o que faz hoje no Brasil com o petismo. Lá, como cá, as oligarquias têm uma história de apropriação da terra, do capital e dos meios de produção e fundamentam-se na miséria do povo, como alertara há 200 anos o visionário Bolívar, que desejava estabelecer a união da América do Sul para equilibrá-la com a outra América liderada pelos Estados Unidos.

Na opinião de Hugo Chávez, a integração pelo lado do neoliberalismo é impossível, “é uma integração para nos desintegrarmos, para sermos tragados. Assim como estamos é impossível, é totalmente ambíguo. Estamos cada dia menos integrados. O Mercosul cada vez menos integrado. Primeiro é preciso impor a vontade política dos líderes”, disse.

Logo no começo do governo, a primeira providência de Chávez foi propor uma nova Constituinte, aprovada em 1999. Em 2000 foi o ano da relegitimação dos poderes e também o ano do aprofundamento do processo revolucionário. “O Governo entregou 49 leis, uma por semana, todas ou quase todas com caráter revolucionário, do ponto de vista em que tocavam em questões cruciais da população venezuelana e da situação econômica e social. Havíamos feito uma Constituição maravilhosa, mas teríamos que cumpri-la se quiséssemos transformar o país”, frisou.

Uma das medidas era para deter o processo de privatização do petróleo, o principal recurso do país. “Naturalmente, as reações vieram como ódio e fúria, à altura dos interesses”. Algo previsto há dois séculos por Bolívar. Citou Chávez: “Os Estados Unidos parecem destinados pela Providência a infestar a América Latina de misérias em nome da Liberdade”.

Acerca do Brasil, disse ele, na entrevista: “Em nossa ideia bolivariana, sou capaz de repetir a mesma frase que disse Bolívar ao Embaixador do Brasil, e alguns estão dizendo por aí que um golpe contra Chávez não seria apenas um golpe contra Chávez, mas que também objetivaria o Brasil. É apenas uma hipótese, claro, e eu não tenho elementos para sustentá-la. Isto é trabalho para analistas políticos”.

É uma ideia com a qual atualmente muitos desses analistas concordam. E alguns, nem tanto bons analistas, berraram no último 7 de setembro na Av. Paulista, em São Paulo.


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Por José de Souza Castro

Jornalista mineiro, desde 1972, com passagem – como repórter, redator, editor, chefe de reportagem ou chefe de redação – pelo Jornal do Brasil (16 anos), Estado de Minas (1), O Globo (2), Rádio Alvorada (8) e Hoje em Dia (1). É autor de vários livros e coautor do Blog da Kikacastro, ao lado da filha.

1 comentário

  1. E,…, enquanto isso, Em Brasília…
    O PT é kitsch. Monstro antipático.
    Vejamos: um total Mula governando a partir de incompetências mil, com todo mau gosto possível. O PT nivela tudo por baixo, sobretudo a educação. Baranguices e breguices do petralhismo.
    O PT idolatra o mau gosto, principalmente a educação; a Cultura e a “””arte”””. Kitsch e baranguices do PT. O PT venera a Indústria Cultural (Theodor Adorno).

    Elevar o nível? Não faz parte.

    Desvirtuado é ser PeTralhista, a favor do breguismo petista, que estabelece um padrão correspondente ao nível mais baixo, sobretudo na cultura e na educação e na dita “”arte”” do PT (veja o Ministério da (des)cultura atual).

    A indústria cultural, portanto, não mede esforços para lançar os indivíduos em estado de indigência estética, isto é, no mais completo empobrecimento da reflexão crítica e da sensibilidade artística. A padronização é o valor decisivo desta proposta cultural. Eis aí o PT. O PT é cafonérrimo.

    A grande religião profana do nosso tempo é a publicidade. O PT pratica lavagem-cerebral via publicidade.
    PT e o Mula em Brasília?…
    Vamos ludibriar um bocadinho?
    Vamos! Vamos, sim!
    Tudo gado do aPedeuTa Mula e da medíocre dilmANTA. Todo Petista é gado do aPedeuTa Mula.

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