Galileu, Brecht, Bretas, Dallagnol e o julgamento de Lula no STF

Texto escrito por José de Souza Castro:

O coordenador da força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, Deltan Dallagnol, deve estar fazendo jejum nesta quarta-feira para que Deus interfira no Supremo Tribunal Federal e Lula seja preso. Não duvido que o ex-presidente da República será preso. Não, porém, por justiça divina.

Como diz Lenio Luiz Streck, em artigo publicado dia 2: “Se Deus atendesse ao pedido de Dallagnol, estaria negando o pedido de milhões de outros cristãos. Isso é como no futebol. Deus não se mete. Tem mais coisas para fazer. Dallagnol esquece que é agente político do Estado. E não um torcedor. Deveria incluir Deus fora desse tipo de comportamento político.”

Eu teria mais coisas a dizer sobre o julgamento desta quarta-feira (por exemplo, que dificilmente a ministra Rosa Weber votará contra os interesses de Sérgio Moro e das cinco famílias que controlam a imprensa no Brasil – e dos Estados Unidos, o que parece ser a mesma coisa), mas prefiro aproveitar a experiência e a sabedoria desse jurista de Porto Alegre.

Segundo Streck, a performance de Dallagnol depõe contra a secularização própria a qualquer democracia, porque não se deve misturar religião com Estado e com o Direito. “Isso vale também para o juiz Bretas, que estaria orando pelas prisões diretas em segundo grau. Provavelmente, ambos teriam condenado Jesus por organização criminosa (afinal, eram mais de quatro) com base na delação premiada de Judas”, ironiza o jurista.

Como se sabe, Dallagnol e Bretas são evangélicos. Bretas, que ficou famoso por ter condenado o almirante Othon Pinheiro a 43 anos de prisão, um golpe no programa nuclear brasileiro, apoiou o jejum de Dallagnol, mas não quer fazer a mesma coisa. Só vai orar.

Por que Streck, que se diz devoto de Nossa Senhora de Lourdes, pensa diferente dos dois justiceiros religiosos sobre o julgamento desta quarta-feira no STF? Primeiro, como dito, porque acha que Deus tem mais coisas para fazer. No Brasil de Temer, então, digo eu, tem coisa pra chuchu.

Streck relaciona 10 motivos para não querer que o Supremo decida como querem Dallagnol e Bretas e a porção mais rica do Brasil e talvez do mundo. Não vou citar os motivos, pois estão disponíveis no link do Conjur. Transcrevo, porém, o início do artigo, na esperança de que assim anime o leitor a ir lá:

“Na peça A Vida de Galileu, Bertolt Brecht concebe uma cena em que o cientista toscano fracassa em convencer seus interlocutores (um filósofo, um matemático e o grão-duque de Florença) a dar uma espiadela pelo telescópio e observar as luas de Júpiter, o que comprovaria sua tese de que o sistema ptolomaico não era completo. Eles preferem agarrar-se às suas velhas crenças. Pois, sobre a presunção da inocência, parece que não adianta também oferecer o telescópio jurídico para o Movimento que Defende a Prisão Automática em Segunda Instância – MDEPASEG (dou esse epíteto para não precisar escrever todo o nome). Preferem não arriscar. Querem ficar com suas crenças punitivistas.”

O Deus deles, definitivamente, não é o Deus da misericórdia que nos ensinaram nas aulas de catecismo da nossa infância.

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