Boas notícias. É o que realmente queremos?

Texto escrito por José de Souza Castro:

Vejo a Cris querendo boas notícias. Quem não quer? Parece óbvia a resposta, mas não é. Estou completando 45 anos de jornalismo e já vi nesse tempo muitas tentativas fracassadas, feitas por jornalistas, de tocar a profissão ocupando-se preferencialmente com boas notícias.

O problema é o leitor. Antes, a natureza humana, que teve como mestra primordial a própria natureza, na qual os fortes se alimentam dos fracos, numa cadeia alimentícia implacável. Ficar atento ao mal à nossa volta é essencial.

Se houvesse grande interesse em boas notícias, os house organs de grandes empresas com suas informações oba oba seriam um sucesso de leitura. Não são. No jornalismo brasileiro, temos muitos exemplos de importantes jornais que fracassaram quando mudaram de orientação para satisfazer governos que queriam boas notícias.

O “Correio da Manhã”, depois de se ver obrigado a fechar por causa da perseguição dos vitoriosos no golpe militar de 1964, deixando para trás um título respeitado, portanto valioso, foi refundado anos depois por empreiteiros incentivados pelo ditador de plantão. E morreu de novo, logo depois. Desta vez, morte inglória.

As revistas “Manchete” e “Fatos e Fotos”, de Adolfo Bloch, tiveram sucesso enquanto apoiavam um governo democrático popular, o de Juscelino Kubitschek. Mas elas sucumbiram ao fazer o mesmo – agora com o reforço de uma concessão, a TV Manchete – à ditadura.

A imprensa mineira, sempre disposta a agradar governos, em busca de verbas oficiais, nunca teve importância.

O “Jornal do Brasil”, relevante entre meados das décadas de 50 e 80 do século passado, começou a naufragar em março de 1985. Conto no livro “Sucursal das Incertezas”. O governo Sarney convenceu Nascimento Britto, genro da condessa Pereira Carneiro, que seria de interesse da empresa publicar boas notícias. A condessa havia morrido e o JB estava em crise, depois de a empresa investir muito para obter a concessão de uma televisão (a futura TV Manchete), negada pelo último ditador.

As “Histórias de Sucesso” patrocinadas pela Petrobras, por ordem de Sarney, e publicadas pelo JB, foram um rumoroso insucesso de leitura. Bem como o esforço do jornal para mostrar um Brasil em pleno crescimento econômico e descobrir cidades com uma população feliz. Trecho de minha narrativa:

“No fim, os proprietários do jornal viram o resultado dessa submissão. Além de o JB perder credibilidade e prestígio, Sarney concedeu a Roberto Marinho mais quatro concessões de televisão, durante seu governo. A televisão Globo massacrava o jornal da condessa. Divulgava doses maciças de publicidade do jornal O Globo, no horário nobre, mediante pagamento apenas simbólico e contábil dessa publicidade (…). Pois, imagine então encontrar, no vasto interior de Minas, uma cidade em que as pessoas sejam felizes… Bom, com muita força de imaginação, é até possível – mas jornalismo, presume-se, lida com fatos. (…) O contraponto ao Brasil visualizado por Sarney e retratado em preto e branco pelo JB veio de pesquisa do Instituto de Estudos Políticos e Sociais dirigido pelo cientista Hélio Jaguaribe. Em 26 de maio de 1986, Ricardo Noblat divulgou em sua coluna política no JB alguns dados da pesquisa: 38 milhões de brasileiros em estado de miséria; metade da população tem acesso a apenas 13% da renda nacional, enquanto 33% estão concentrados nas mãos de 5% da população mais rica; 1% dos mais ricos detém igual percentual (13%) de renda dos 50% mais pobres; a mortalidade infantil é de 65 crianças por mil nascidas vivas; e pelo menos um terço das famílias brasileiras vive em estado de subnutrição.”

Desde então, todos os governos tentaram passar uma imagem de país muito melhorado, com a ajuda interessada da grande imprensa, e, sobretudo da TV Globo. Mas, o que era ruim ficou pior.

É claro que não defendo um jornalismo só de más notícias. É preciso haver equilíbrio. Minha seleção de reportagens, no livro “O Caçador de Estrelas”, reflete essa minha preocupação.

O filósofo Vladimir Safatle reflete sobre a existência de paixões tristes e paixões alegres. Escreveu:

“É difícil falar isso e não lembrar de uma entrevista dada por Theodor Adorno à revista alemã “Der Spiegel” um pouco antes de morrer. A certa altura, o jornalista, que procurava fazer de tudo para criar a imagem de Adorno como um negativista doente, afirma: “Até agora, a sua dialética abandonou-se aos pontos mais negros da resignação, à esteira destrutiva da pulsão de morte”. E Adorno responde: “Eu preferiria dizer que é o apego compulsivo ao positivo que provém da pulsão de morte”.

Essa era sua maneira de afirmar que nossa servidão não vem exatamente das paixões tristes. Ela vem da luta desesperada em não ouvi-las. Luta desesperada em apegar-se compulsivamente a uma afirmação cristalina e sem sombras. Apego que, ao menos neste momento histórico, corre o risco de acabar por alimentar a visão capitalista da felicidade como conformação estoica ao que acontece.

No que Adorno repetia a intuição de um poeta, talvez o último dos grandes poetas metafísicos, Paul Celan. O mesmo Celan que lembrava: ‘Fala, mas não separe o não do sim/ Dá a sua palavra também o sentido/ Dá-lhe a sombra’.”

Pois é: o que seria do branco, não fosse o preto? Branco e preto que compõem os tons de cinza em que o mundo vai se transformando por obra dos homens.

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2 comentários sobre “Boas notícias. É o que realmente queremos?

  1. Sobre esse tópico vou pro lado do Suassuna que dizia “cachorro gosta de carne, come osso porque é o que dão para ele. Se der so carne ele não vai querer mais osso”. Pelo pouco que li no Canada não existe programas sensacionalistas por exemplo, noticias de sobre violência são dadas sem muita enfase. O que com que a população mesmo nas capitas nãos se sintam intimidadas, ao contrario da nossa realidade. Noticias “fabricadas” por governos e o empresariado acho que sempre vão ter através do lobby. Mas pessoalmente me desanima muito a festa que fazem com a violência. Gostaria de ver uma mudança de foco nas noticias, tem que se noticiar tudo mas sem alarde. Entendo que isso nunca vai acontecer porque medo vende, porem cabe a torcida.

    Quando li “O problema é o leitor” me lembrei de Machado em memórias póstumas “O problema desse livro é você leitor” rs genial.

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    • Gustavo, o leitor faz bem se optar pela voz do silêncio. Muito depois de ler sobre “ruído e fúria sem significado algum” escrito por Shakespeare, tive em mãos para editar, em 2006, o livro “A Voz do Silêncio”, de Olavo Cabral de Souza. Radialista, advogado, professor e padre, era um profissional da palavra que valorizava o silêncio. que fala mais alto que o som, mais que a mímica, mais que a palavra. “Por isso é que eu gosto de ouvir a voz do silêncio. É a voz que clama no deserto”, pensava Olavo.

      Sim, Machado de Assis foi um gênio da escrita.

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