Moro e o blogueiro Eduardo Guimarães: quem cometeu crime?

Eduardo Guimarães fala a Laura Capriglione, do Jornalistas Livres, sobre condução coercitiva. Foto: Reprodução

Texto escrito por José de Souza Castro:

O blogueiro Eduardo Guimarães foi acordado na manhã desta terça-feira em sua residência em São Paulo por agentes da Polícia Federal que receberam do juiz Sérgio Moro a ordem para que fizessem condução coercitiva dele à delegacia e a apreensão de seu computador, notebook e celular – inclusive o de sua mulher. O juiz da Lava Jato, que já abrira um processo contra o blogueiro por se sentir ameaçado por ele, queria a confirmação do nome da fonte do Blog da Cidadania que há um ano deu o furo sobre a condução coercitiva de Lula.

Ao ser liberado, depois de prestar depoimento, sem confirmar ou negar o nome da fonte já identificada pela Lava Jato, Eduardo Guimarães estava acompanhado por seu advogado, Felipe Hideo, para quem a iniciativa buscava ilegalmente “violar o sigilo da fonte”. Eles foram entrevistados ali pelo site Jornalistas Livres, que divulgou um vídeo que se espalhou rapidamente pela blogosfera [nota da Kika: o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas também emitiu nota oficial se posicionando. Leia AQUI. Mais tarde, a jornalista Laura Capriglione também gravou vídeo de Eduardo Guimarães sobre o ocorrido. Assista AQUI].

O deputado Paulo Teixeira (PT-S) perguntou a Sérgio Moro sobre a legalidade de exigir do blogueiro o nome da fonte e ouviu do juiz o seguinte: “Ele não é jornalista”. O juiz parece desconhecer que no Brasil não se exige o diploma de jornalista e que Eduardo Guimarães, formado em Direito, criou o blog há 12 anos, onde faz jornalismo.

O comportamento do juiz foi muito criticado por blogueiros, aos quais me alio, e seu gesto interpretado como uma tentativa de calar os críticos da Lava Jato na Internet. Como exemplo, transcrevo trecho do artigo de Luís Nassif, para quem o caso Eduardo Guimarães, “torna-se um divisor de águas – da mesma maneira que o episódio da condução coercitiva de Lula”, que “expõe de forma inédita o uso do poder pessoal arbitrário de Moro para retaliar adversários. Não se trata mais de luta política, ideológica, de invocar as supinas virtudes da luta contra a corrupção para se blindar: da parte de Sérgio Moro, a operação atende a um desejo pessoal de vingança”, afirma Nassif. E prossegue:

“Com seu Blog Cidadania, Eduardo é um crítico implacável da Lava Jato. E autor de uma representação contra Sérgio Moro junto ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça).

Em represália, Moro entrou com uma ação contra Edu, baseada em uma frase mal construída. Na frase, Edu diz (para o leitor) que as ações da Lava Jato irão ameaçar “seu emprego e sua vida”, referindo-se ao emprego e vida do leitor.

Um Blog de ultradireita da Veja interpretou que “seu emprego e sua vida” referia-se a Moro. Cada vez mais ligado às milícias da ultradireita, Moro aproveitou a deixa para processar Edu.

O Tweet remetia para um artigo onde Edu praticava seu esporte predileto: brigar com outros grupos de esquerda (https://goo.gl/UvpKWo), e mostrar a situação de caos na economia, na qual seriam destruídas o emprego e a vida das pessoas.

Moro atropelou completamente a lei, que diz que um juiz não pode julgar um adversário.”

Não passa despercebido o apoio que Moro vem recebendo de tribunais e do próprio Supremo Tribunal Federal. Nassif destaca: “Depois de sofrer ataques da direita, o Ministro Luís Roberto Barroso resolveu se blindar: tornou-se o principal avalista do Estado de exceção de Curitiba, alegando que a Lava Jato enfrenta um quadro de exceção. Caminha para se tornar o Ministro símbolo do MBL e congêneres, assim como Moro e os procuradores da Lava Jato.”

E Nassif indaga do ministro Barroso se irá se pronunciar agora, justificando:

“A prisão e humilhação de um cidadão brasileiro, a invasão injustificada de seu lar, não obedeceu sequer à real politik da Lava Jato. Foi um ato de vingança pessoal, que atropela normas fundamentais de direitos civis.

Moro se comportou como um imperador, acima das leis, porque, no episódio do vazamento dos grampos, foi tratado acima das leis.

Sua atitude, agora, mostra um sujeito desequilibrado, utilizando o pesadíssimo poder conferido pelo apoio da mídia e de Ministros descompromissados com direitos civis, para exercer o arbítrio em causa própria.

Se fosse contra um jornalista da Rede Globo, o Ministro Barroso permaneceria calado? Certamente, não. Se fica calado agora, endossa a tese do direito penal do inimigo.

No final, fica-se sabendo que a sombra projetada por Barroso é infinitamente maior do que seu verdadeiro tamanho. Se não for contido agora, se a imprensa se calar – porque a vítima é um adversário – estará em marcha definitivamente a escalada do arbítrio.”

Nassif citou a Rede Globo. Fui lá no G1, o portal de notícias do Grupo Globo, e até as 18h não havia em sua página de abertura qualquer menção a Eduardo Guimarães. Ao contrário do UOL, portal da “Folha de S.Paulo”, no qual a coluna Mônica Bergamo deu a notícia com algum destaque, sem esconder as críticas a Sérgio Moro feitas pelo advogado do blogueiro e pelo deputado petista Paulo Teixeira. Até as 19h, havia 120 comentários. Entre eles, o de Paulo C. Petraski:

“O Moro endoidou de vez. Abusa de sua autoridade o tempo todo, e sempre diante de alguém ligado ao PT. Nada de imparcialidade e nada de respeitar a lei. Juiz megalomaníaco. Parece que anda com medo de algo. Seria pressão dos golpistas para achar ao menos uma única prova que incrimine Lula e impeça ele de ser mais uma vez presidente do Brasil?”

Uma boa pergunta, e encerro com ela. Sou ignorante em psiquiatria e não sei se Moro endoidou de vez. Mas sei que, se não for contido, ele continuará fazendo mal ao Brasil. E, a partir de agora, aos blogueiros de esquerda.

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