O fantasma e o fantasma do Palácio da Alvorada

Texto escrito por José de Souza Castro:

O jornalista Kiko Nogueira escreveu neste domingo artigo que me lembrou um livro meu, escrito para a filha de 12 anos. É possível que ela tenha sido a única leitora do que eu havia escrito durante meu ócio de desempregado. A Cris me disse, na época, que amou o livro. Anos depois, o incluiu na biblioteca deste blog.

O artigo do Kiko tem como título “O diálogo de Temer com o fantasma do Palácio da Alvorada”. Como sabem, Michel Temer morou com a família nesse palácio durante 11 dias, depois “de gastar mais de 20 mil reais numa reforma que envolveu a instalação de uma rede de proteção para o filho numa varanda”.

Ao justificar porque preferiu voltar ao Palácio do Jaburu, disse Temer que sentiu no Alvorada uma coisa estranha lá. “Eu não conseguia dormir, desde a primeira noite. A energia não era boa. A Marcela sentiu a mesma coisa. Só o Michelzinho, que ficava correndo de um lado para outro, gostou. Chegamos a pensar: será que tem fantasma?”

O fantasma de meu livro era um jornalista abelhudo, o Daniel, que vestiu uma capa da invisibilidade ganhada de um ET para penetrar no Alvorada horas depois do massacre dos sem-terra no Sul do Pará. O presidente da República, Francisco Honório Camargo (FHC), estava bebendo e conversando à noite com dois ministros amigos – Saulo Moura e Joel Serpa – sobre a melhor maneira de enfrentar a notícia de que mais de 20 pessoas, inclusive crianças, foram mortas a tiros, disparados à queima-roupa por soldados da polícia militar do Estado, governado então pelo PSDB.

“É um baita azar”, comentou Serjão – ops! Saulão – o governador ser filiado ao PSBD, o partido do presidente. “Já não bastassem as pauladas que temos levado desses cretinos do Movimento dos Sem–Terra!”.

O ministro do Planejamento, Joel (José) Serpa, aproveitou pra bajular o presidente, dizendo que ele conseguiria tirar de letra (ou do gogó) essa questão do massacre, que acabaria incomodando mais o presidente do que suas dores de coluna.

Quando os ministros se retiraram, meu fantasma diz a FHC: “A consciência dói mais do que a coluna. Acertei, senhor presidente?”. Depois de uma busca no salão, feita pela segurança presidencial, sem encontrar o fantasma, o presidente acabou voltando ao uísque, pensando que fora apenas imaginação sua. E prossigo com minha narrativa:

“– Engana–se, senhor presidente. Não foi uma ilusão.

– Quem está falando? – indagou FHC, depois de algum tempo.

– A voz da sua consciência. Se preferir, pode me chamar de grilo falante… O presidente não se moveu, pensativo. Nunca havia enfrentado situação semelhante, embora pudesse imaginá–la, nos seus piores momentos. Fantasmas? Não acreditava nisso. Microfone oculto? Impossível, depois da varredura feita pela segurança. Podia perceber que a voz estranha vinha de um canto da sala, à sua esquerda. Precisava de tempo, para desvendar o mistério.

– Por que diabos pensa você, seja quem for, que minha consciência me incomoda?

– Ora, só por causa daquelas mortes… E daquelas promessas feitas na campanha eleitoral, todas elas jogadas no lixo, veja o senhor, logo após a vitória nas urnas. Ainda mais grave, o esquecimento proposital de todas as suas ideias, expostas naqueles magníficos livros de sociologia…

– Ora, digo eu. Já pedi há muito tempo que esquecessem tudo o que escrevi… Tratava-se, é óbvio, de uma realidade absolutamente diferente da atual! Só um mal intencionado não percebe essa verdade!

– Obrigado pela parte que me toca. Mas quem terá mudado? O mundo ou o autor?

– Não percebe? É evidente que ambos mudaram muito. Olha, pessoalmente, venho sofrendo grandes transformações, sempre para melhor! Não se chega ao poder, sem deixar algo para trás. Sem assumir novos compromissos, redesenhar as estratégias, optar por movimentos táticos, correr riscos de ser incompreendido muitas vezes. O poder traz consigo graves responsabilidades…

– Que lástima! – ironizou o jornalista. – No entanto, de nada vale o poder, se não puder servir para melhorar a vida do povo…

– E quem disse que não melhorou? Olha aí o Plano Realidade. Ele acabou com o imposto inflacionário. Não sabe, ele era pago principalmente pelos mais pobres, que não têm como se defender fazendo aplicações ou antecipando compras. Ele levou mais comida à mesa do pobre. Desculpe-me, essa conversa está ficando chata! Você parece um desses repórteres da “Falha”… Pior, porque invisível! Para falar a verdade, sua conversa está me dando sono. Chego a preferir a companhia da Rita…

– Pobre homem! Como vê, sou a sua consciência. É impossível suportá–la!

– Você está doido! – exclamou o presidente. – Vai à merda! Ele juntou um resto de dignidade no gesto de esvaziar o copo e se retirou, cambaleando, sem dizer qualquer outra palavra para o impertinente fantasma. Um serviçal abriu a outra porta, para fazer a limpeza da sala. Daniel aproveitou para sair. Fez o caminho de volta ao carro, assobiando baixinho. Tinha a impressão de que não perdera inteiramente seu tempo. O presidente não se esqueceria, tão cedo, daquela noite… A noite do Dia do Massacre.”

Termina assim o primeiro capítulo do livro “Sagaetê” que, para alívio de sua única leitora, pouco fala de política e, de resto, se esquece completamente de FHC nas páginas seguintes.


Nota da Kika: eu AMEI este livro! Já li várias vezes desde que foi escrito, mas já fazia um tempo que não lia de novo… Este post me deu saudades e terei que reler de novo. Trata-se de uma aventura infanto-juvenil, embora tenha alguns lances mais bem compreendidos pelos adultos, então recomendo a leitura pelos mais novinhos também. CLIQUE AQUI para fazer o download gratuito na Biblioteca do Blog.

 

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