Imprensa brasileira criticada em Londres e governo interino, na ONU

Texto escrito por José de Souza Castro:

Tenho sido um jornalista crítico da grande imprensa brasileira, e sou criticado por isso. Mas não estou sozinho. Quem lê o Observatório da Imprensa sabe disso. É uma questão que preocupa muitos jornalistas brasileiros e também estrangeiros que conhecem bem o Brasil. Uma dessas é a britânica Sue Brandford.

Ela começou sua carreira como jornalista trabalhando no Brasil na década de 1970, como correspondente para “Financial Times”, “Economist” e “Observer”. Ao voltar ao Reino Unido, trabalhou para o BBC World Service. Publicou cinco livros, incluindo “The Last Frontier – Fighting over Land in the Amazon and Cutting the Wire – the Story of the Landless Movement in Brazil”, que lhe valeu o prêmio Vladimir Herzog de direitos humanos. Atualmente é editora voluntária do Latin America Bureau (LAB), criado em 1977 em Londres para reportar e denunciar a violência na América Latina.

No dia 16 deste mês, o LAB organizou em Londres o Forum UK 2016. Um dos debatedores foi Sue Brandford. Outro, Otavio Frias Filho, diretor de Redação da “Folha de S.Paulo”, que a chamou de petista. A fala dos dois pode ser ouvida AQUI. Nos primeiros 18 minutos, se ouve em inglês a fala de Sue. Em seguida, em português, a de Frias Filho.

Sue Brandford (esquerda) e Otavio Frias Filho (direita). Reprodução / Youtube

Sue Brandford (esquerda) e Otavio Frias Filho (direita). Reprodução / Youtube

Quem não sabe inglês, pode ler uma tradução feita pelo tradutor profissional Luís Henrique Kubota para o site “O Cafezinho”.

Trecho da fala de Sue Brandford:

“Existem inúmeros outros exemplos de distorção, não apenas pela TV Globo, mas por muitos outros veículos da mídia tradicional. Não é muito comum ver mentiras escancaradas. O mais usual é ver omissões e formas indiretas de manipulação. Cada um desses casos pode até parecer bem banal, mas, no acumulado, representam grave distorção. Vejamos três exemplos, apresentados pela revista digital Calle2:

1. No dia anterior à votação do impeachment, a Globonews estava apresentando uma matéria sobre as declarações dos deputados a favor e contra o impeachment. A Globonews optou por interromper as transmissões ao vivo e apresentar comentários de um de seus jornalistas ou de outro comentarista exatamente quando um deputado pró-governo (pró-Dilma) estava falando. Então, ficou a impressão – sem que isso fosse realmente dito – de que toda a Câmara apoiava o impeachment.

O segundo exemplo:

Romero Jucá, o primeiro ministro derrubado. Foto: Agência Senado

Romero Jucá, o primeiro ministro derrubado. Foto: Agência Senado

2. Logo após Michel Temer ocupar a presidência, em 18 de abril, foi revelado que os principais ministros de seu novo governo estavam sendo investigados como parte da Operação Lava Jato ou estavam sendo citados em delações premiadas. Isso era claramente um desdobramento importante – e foi amplamente reportado pela imprensa estrangeira. Mas levou duas semanas até que a Folha de S. Paulo informasse seus leitores sobre esse fato. E, segundo a Calle2, isso só aconteceu depois que a revista contatou o ombudsman da Folha. E, ainda assim, diz a Calle2, isso não foi tratado de maneira satisfatória.

Terceiro exemplo:

Janaína Paschoal no Senado. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Janaína Paschoal no Senado. Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

3. Quando a advogada Janaína Paschoal participou de um debate no Senado, em 28 de abril, admitiu ter recebido R$ 45.000 do PSDB, para preparar o parecer no qual se baseia o pedido de impeachment de Dilma. Essa informação é claramente importante, pois sugere que o parecer pode não ter sido um documento jurídico imparcial, mas algo encomendado pelo PSDB, que é o partido que mais tem pressionado a favor do impeachment. No dia seguinte, porém, nenhuma matéria sobre o tema foi publicada. Nem na Folha nem no Estadão.

Mas isso tudo tem importância? Acredito que sim. Estamos vendo a emergência de novas fontes de informações – websites alternativos (Pública, Mídia Ninja, Fluxo, Nexo, Indymedia, Conectas, etc.) – mas, no momento, a agenda [ainda] é definida pela mídia tradicional.

O PT prometeu reformar a mídia ou até mesmo criar uma agência de notícias independente financiada pelo governo – algo similar à BBC –, mas não cumpriu essa promessa. E acho que ainda precisamos de reformas urgentes no Brasil, se quisermos consolidar a democracia no país.

Para mim, é irônico que um dos ministros dos governos Lula (Planejamento) e Dilma (Comunicações), Paulo Bernardo, tenha sido preso ontem em uma operação da Polícia Federal. Ele foi contrário ao projeto de enfraquecer a mídia tradicional dominada por algumas famílias, gestado durante os últimos quatro anos do governo Lula, e para apoiar os blogs e portais na Internet menos conservadores. Um desses, o Brasil 247, que já perdeu os contratos publicitários conquistados no governo Dilma e cujo diretor, Leonardo Attuch, está também na mira dessa operação da Polícia Federal em São Paulo, que é um desdobramento da Lava Jato, no Paraná.

A prisão de Paulo Bernardo e outros petistas teve grande repercussão nos portais dos jornais “O Globo”, “Folha de S.Paulo” (Folha UOL), “O Estado de S. Paulo” e revista “Veja”, entre outros, e no noticiário da TV Globo, principalmente. E o ex-ministro, antes amigão dos barões da imprensa, não deve esperar que algum deles saia em sua defesa. Sobretudo agora que o Senado está decidindo sobre o impeachment de Dilma Rousseff e em que um dos senadores que mais se destacam nos debates, em defesa da presidente afastada é, exatamente, a mulher de Paulo Bernardo, senadora Gleisi Hoffmann, do PT do Paraná.

O ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo, preso preventivamente durante a Operação Custo Brasil, é transferido pela Polícia Federal para São Paulo. Foto: José Cruz/Agência Brasil

O ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo (de casaco), preso preventivamente durante a Operação Custo Brasil, é transferido pela Polícia Federal para São Paulo. Foto: José Cruz/Agência Brasil

Nesta sexta-feira, dia 24, relatores para a Liberdade de Expressão das Nações Unidas e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) manifestaram sua preocupação com as medidas adotadas pelo atual Governo Federal interino do Brasil em relação à intervenção na direção da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e a conversão da Controladoria Geral da União (CGU) em Ministério da Transparência, Fiscalização e Controle. A íntegra pode ser lida AQUI. Trecho:

O Brasil está passando por um período crítico e precisa garantir a preservação dos avanços que alcançou na promoção da liberdade de expressão e do acesso à informação pública ao longo das duas ultimas décadas. No dia 17 de maio, o presidente interino do Brasil substituiu o diretor da EBC, que estava apenas começando seu mandato de quatro anos. Em 2 de junho, o diretor da EBC foi reconduzido ao seu cargo por uma liminar do Supremo Tribunal Federal. Antes do seu retorno, a nova direção havia suspendido o contrato de alguns jornalistas em razão de um alegado “viés político” contrário ao novo governo e cancelado alguns programas de televisão.

Foto: EBC

Foto: EBC

De acordo com a ONU, “pelas normas internacionais, os Estados devem assegurar que os serviços públicos de radiodifusão tenham um funcionamento independente. Isso significa, fundamentalmente, garantir a sua autonomia administrativa e liberdade editorial”.

Receio que, sem uma televisão pública independente, os brasileiros vão permanecer mal informados. Sobretudo, se o atual governo prosperar na sua intenção de impedir o trabalho livre dos blogueiros.

Leia também:

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