A gaita e o violão: um trecho de ‘As vinhas da ira’

Neste último mês tenho lido, vagarosamente, o clássico da literatura “As Vinhas da Ira”, de John Steinbeck. Sensacional, e logo vai ganhar uma resenha aqui no blog, porque já estou nas últimas páginas. Por enquanto, deixo vocês com um trechinho, sobre meus dois instrumentos musicais favoritos, que são descritos nas páginas 417 e 418. Bom proveito:

gaitavelha“Uma gaita é fácil de se carregar. Tira ela do bolso de trás das calças e bate ela na mão, pra cair a poeira, a sujeira do bolso e os fiapos de fumo. Bom, agora ela tá boa. Pode-se fazer muita coisa com uma gaita: pode-se arrancar um som agudo e penetrante e acordes simples, e também uma melodia de acordes rítmicos. Pode-se moldar a música com as mãos em concha, fazendo-a lamentar-se, chorar que nem uma gaita escocesa, torná-la volumosa, cheia como um órgão ou fina e amarga como o sopro das montanhas. E pode-se tocar e guardar o instrumento no bolso. Ter ele sempre no bolso, sempre acompanhando a gente. E pode-se sempre tocar e aprender novos truques, novos métodos de se moldar o som com as mãos, modular ele com os lábios, sem precisar de ninguém que nos ensine essas coisas. E pode-se fazer experiências sozinho, às apalpadelas… sozinho na sombra de uma tarde, ou então depois do jantar, à entrada da tenda, enquanto as mulheres lavam a louça. Pode-se bater com o pé no chão, vagarosamente, para marcar o compasso; as sobrancelhas a subir e descer, seguindo o ritmo. E se acaso se perde o instrumento, ou se alguém o quebra, o prejuízo não é tão grande assim. Pode-se comprar outra gaita por 25 cents.

Um violão é mais precioso. Deve-se aprender a tocar violão. Os violaodedos da mão esquerda devem ser calosos. O polegar da direita também deve ter calosidades. Esticam-se os dedos que nem patas de aranha, para acertar bem as marcações nas cordas.

Este violão era de meu pai. Eu não era mais alto que um percevejo quando ele começou a me ensinar. E quando eu já sabia tocar que nem ele, deixou que eu tocasse. Costumava sentar-se na soleira, me escutando e marcando o compasso com o pé. Às vezes eu metia coisas da minha cabeça no meio da música, e ele ficava zangado até que eu conseguia acertar; então ele ficava aliviado. ‘Toca’, dizia. ‘Toca alguma coisa bem bonita’. Pois é. Este é um violão dos bons. Olha só como já tá todo arranhado. Foi um milhão de canções que arranhou ele assim, um milhão de canções que já se tocou com ele. Foi esse milhão de canções que afinou a madeira desse jeito. Qualquer dia tá quebrando que nem casca de ovo. Não se pode consertar ele, senão perde o som. Às vezes, quando toco, de noite, uma gaita na tenda do vizinho me acompanha. E fica tão bonito, os dois juntos!”

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9 comentários sobre “A gaita e o violão: um trecho de ‘As vinhas da ira’

  1. Eu comecei As Vinhas da Ira ano passado, mas acabou não dando pra ir muito adiante e tive que devolver o livro pra biblioteca. Do que eu li eu gostei bastante, tem uma vibe meio Vidas Secas, mas num estilo diferente, é uma prosa bem gostosa de ler (apesar do assunto tenso). Um dia pegarei de novo! 😀

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