Leitor do blog responde a artigo do meu pai

No último fim de semana, meu pai publicou aqui no blog o texto “Financial Times assiste no Brasil a um filme de terror“. O leitor Paulo Paredes comentou o texto na postagem do portal O Tempo e motivou novo artigo do meu pai, na última quarta-feira.

Mantendo a tradição do blog, de sempre abrir espaço ao debate (respeitoso) de ideias (como fizemos durante as eleições, por exemplo), propus ao Paulo que desse a resposta dele por meio de um artigo aqui no blog também. Ele aceitou o desafio e enviou o longo texto abaixo. Deixo para os leitores do blog complementarem sua leitura e chegarem às próprias conclusões sobre quem são “culpados”, “inocentes” e se a imprensa britânica deve ser vista como um texto bíblico pelos brasileiros ou não.

Aproveito para recomendar também a leitura de um texto do jornalista Mauro Santayana, que também tratou do mesmo assunto na última quarta-feira, e pode ajudar a enriquecer o debate. Na minha humilde opinião (me permitindo entrar pela primeira vez nesta discussão), não há certos e errados neste debate, apenas modos de ver as coisas diferentes (obviamente “parciais” e com “vieses”, já que tratam-se de análises opinativas). A minha visão coincide com a do meu pai, que acho que está em boas companhias. Mas, é claro, todos têm o direito de terem suas visões divergentes, e isso é o mais bacana de sermos seres pensantes, né 😉


Paulo Paredes é analista de sistemas atuando na área financeira, com licenciatura em Física pela UFMG, tem 61 anos e também mora em Belo Horizonte. Vamos à contribuição dele:

Reprodução

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“No artigo “Financial Times assiste no Brasil a um filme de terror”, o jornalista José de Souza Castro faz inicialmente referência à crítica de Alberto Dines, no “Observatório da Imprensa”, de que houve baixa repercussão na imprensa brasileira do editorial do “Financial Times”: “Recessão e corrupção: a podridão crescente no Brasil”. Em seguida ele acrescenta que a mesma baixa repercussão ocorreu na adesão aos comentários sobre o editorial no site do FT. O jornalista alega quanto a isso que o editorial, que estaria ao gosto dos oposicionistas de Dilma, recebeu poucos comentários destes, talvez pela dificuldade deles com o inglês.

Assim mostra ele inicialmente sua parcialidade, pois não cita que o editorial da mesma forma poderia (ou deveria) ser alvo dos defensores de Dilma (que, semelhantemente, fizeram poucos comentários), talvez também pela dificuldade com a língua. Além disso, o articulista não cita que, dos 63 comentários existentes, a maioria é de brasileiros (com bom conhecimento da língua) e contra Dilma Rousseff. Havia lá um único rígido defensor dela que se denominou A_Reader, auto intitulado Ph.D., que não admitiu que a política do PT é a culpada da atual situação econômica brasileira. A alegação dele, grosso modo, foi: se é culpa da política econômica de Dilma, então os EUA, pelo mesmo motivo, têm que prender os banqueiros americanos causadores da crise ocorrida naquele país! Ou seja, quis o comentarista levar a crer que se nos EUA os banqueiros não foram culpados nem punidos, então, aqui no Brasil, Dilma e o PT também não podem ser! – Não questionarei aqui o óbvio sofisma do comentarista A_Reader).

Do artigo de Dines, o articulista pinça a defesa feita pelo ministro Jacques Wagner de que o FT “nunca olhou para o Brasil com bons olhos” e que o Brasil vive um filme de superação e não um “filme de terror sem fim” no qual, “tempos piores ainda podem estar por vir”. Em sequência José de Souza Castro novamente mostra seu viés ao apoiar a afirmação do ministro, justificando seu apoio com a citação de uma notícia veiculada pelo Grupo Globo (o G1), a qual destacou uma publicação do “Financial Times” feita “com base em dados divulgados pelo BC” na qual este jornal afirmava que o Brasil “queridinho dos investidores há apenas quatro anos” tornara-se para muitos um “pária”. E, além disso, que “Pelos cálculos desse jornal muito lido por banqueiros no mundo todo, os investidores perderam quase US$ 285 bilhões no Brasil nos últimos três anos”.

Como o articulista mostrou seu viés? Mostrou ao citar apenas reportagens que apontam para situações negativas e concluir com isso que o FT não olha com bons olhos o Brasil. Citarei mais adiante exemplos de que isso não é verdade, apontando outras reportagens em que o FT olha o Brasil “com bons olhos”.

José de Souza Castro também pergunta e em seguida afirma: “Onde terá o jornal britânico tirado esse prejuízo dos investidores? São números que veem e vão ao bel-prazer, como este do editorial que afirma que o Brasil é “the world’s eighth biggest economy”. E eu que pensava que éramos a sétima maior economia do mundo! ”.

Pois bem, o articulista aqui se engana duas vezes.

Primeiro, o Brasil já foi a sétima economia mundial, mas, graças ao governo petista, vem perdendo sua posição e já é considerado em 2015 a oitava economia do mundo (talvez até o fim do ano seja a nona). Comprova-se, por exemplo AQUI ou AQUI e ainda AQUI.

E, segundo, o próprio texto de O Globo citado pelo jornalista diz que se trata de “notícia publicada naquele dia pelo “Financial Times” com base em dados divulgados pelo BC”! Isso responde à questão “de onde o FT tirou o valor? ”.

Isso pode ser constatado AQUI, onde se diz: “Os investidores perderam quase US$ 285 bilhões no Brasil nos últimos três anos, segundo as contas do jornal “Financial Times” com base em dados do Banco Central, apresentadas em texto publicado nesta quinta-feira (23).” E AQUI, em que afirma: “Nos últimos três anos, quase US$ 285 bilhões em investimentos estrangeiros “evaporaram” entre janeiro de 2011 e novembro de 2013, informou o jornal “Financial Times” (FT), numa análise crítica, citando números do Banco Central”.

Então, se há números que veem e vão, são números do Banco do Brasil e não do Financial Times!

Com relação à “má vontade do jornal britânico” com o Brasil e sua presidente”, cita o jornalista um novo “ataque” (comentarei sobre a “má vontade adiante”):

“Incompetência, arrogância e corrupção abalaram a magia do Brasil. Combinado com o fim do boom das commodities, tudo isso tem levado a oitava maior economia do mundo para uma recessão profunda. O escândalo de corrupção na Petrobras só agrava a podridão. Mais de 50 políticos e dezenas de empresários estão sob investigação por terem levado US$ 2,1 bilhões em propinas. Luiz Inácio Lula da Silva foi indiciado sob a acusação de tráfico de influência. Há cada vez mais rumores de que a presidente Dilma Rousseff, no sétimo mês do segundo mandato, pode ser cassada. Isso ainda parece improvável, mas a probabilidade cresce a cada dia.”

Há neste trecho um erro de tradução, que não ocorreu naquela feita pelo Valor Econômico na versão atualmente disponível no site dele e que diz: “Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente do Brasil, será investigado sob acusações de tráfico de influência. Cresce o debate sobre se a presidente Dilma Rousseff, com sete meses de seu segundo mandato, pode sofrer impeachment.” Esse erro de tradução pode ter levado o jornalista a uma conclusão errada que o fez afirmar: “Se isso não é “wishful thinking”, o que será? ”

O suposto “wishful thinking” é na realidade o simples relato feito pelo FT de fatos que estão hoje ocorrendo no Brasil! Lulla não foi indiciado (tradução errada), ele está sendo investigado (tradução correta e realidade)! Não há rumores de que Dillma será cassada (tradução errada), há debates sobre se ela pode sofrer o impedimento (tradução correta e realidade)!

O jornalista também (um “wishful thinking”?) pensa que isso possa ser, “Talvez, um recado claro de que Dilma só se salvará se não mudar os rumos perseguidos por seu novo ministro da Fazenda, um ex-funcionário do Bradesco. Afirma o jornal: “To her credit, she has backtracked from the failed, state-led ‘new economic matrix’ of her first term. Interest rates have risen to beat inflation. Her hawkish finance minister has sought to cut spending. These necessary but painful correctives have cut real wages, hurt jobs and slashed business confidence”.  Na tradução do Valor Econômico: “A seu favor, ela recuou da fracassada ‘nova matriz econômica’, conduzida pelo Estado, do seu primeiro mandato. As taxas de juros subiram para combater a inflação. Seu rígido ministro da Fazenda procura cortar gastos. Essas correções necessárias, mas doloridas, cortaram os salários reais, afetaram o emprego e reduziram a confiança dos empresários”.

Um recado? Absolutamente não! É uma questão de tradução, pura e simples, e não de interpretação segundo o “wishful thinking” do tradutor. O FT está atribuindo um crédito a ela por ter dado ouvidos ao bom senso (sabe-se lá de quem e em consonância com o pensamento do FT e da comunidade financeira internacional) e retrocedido em sua política econômica, conhecidamente ultrapassada e que resultou em fracasso. Isso é fato, não recado nem desejo!

Conclui o articulista que: “Enfim, um novo roteiro de filme de terror. Mas isso não vem ao caso para o jornal britânico (ainda) e para seus leitores preferenciais: os banqueiros do mundo inteiro.”

Ora! Não se trata de um novo roteiro. Isso é uma continuidade do roteiro de terror produzido por Dilma Rousseff e o PT, como afirmou primeiramente o Senador Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado em 19/07/2015, quando disse: “Estamos na escuridão, assistindo a um filme de terror sem fim. E precisamos de uma luz indicando que o horror terá fim. O país pede isso todos os dias”.

E que foi ecoado pelo Financial Times em 22/07/2015: “No wonder that Brazil today has been likened to a horror movie with no end. ”

Este é um filme de terror em que o assassinado volta para se vingar do assassino e quem está na companhia deste paga também pelo crime que não cometeu!

Quanto a demonstrações de má vontade do jornal Financial Times, essa não é uma atitude que coaduna com um jornal considerado “a leitura de negócios mais importante”, de acordo com a Global Capital Markets Survey, a qual mede hábitos de leitores entre a maioria dos tomadores de decisão financeira seniores nas maiores instituições financeiras do mundo. Note-se também que o FT foi considerado como a publicação de maior credibilidade na comunicação de assuntos financeiros e econômicos entre o público da “Worldwide Professional Investment Community”. Informação essa proveniente das seguintes fontes: “Global Capital Markets Survey 2011” e “Worldwide Professional Investment Community Study 2010“.

Quem tem tanta credibilidade não pode se valer de má vontade com este ou aquele meio de investimento. É necessário que se valha de realismo. E tanto se vê que não é uma questão de má vontade, e sim de realismo, que na mesma época, em 2009, em que o “The Economist” em sua capa dizia “Brazil takes off”, o Financial Times afirmava que se o Brasil era a estrela do momento, o nordeste brasileiro era o melhor lugar do país para se investir. Infelizmente não tenho acesso às informações antigas do Financial Times, mas a ratificação dessa informação pode ser feita em vários sites na internet, por exemplo AQUI.

A mudança de conjuntura nos anos seguintes fez com que, em 2011, os analistas do FT mudassem sua opinião e dissessem que o Brasil estava na verdade tendo um “vôo de galinha”. Esta informação, bem conhecida, também se encontra exposta em vários sites, como por exemplo AQUI.

Note-se ainda, numa demonstração de que não se trata de má vontade, que o mesmo FT, ainda em 2009, elogiou Lula e sua posição pragmática (informação disponível em vários sites, por exemplo AQUI.

Concluindo. Basicamente o que o jornalista fez foi:

1)      Apoiar o ministro petista, acusando de má vontade um órgão de imprensa que vive de credibilidade e não de sensacionalismo.

2)      Afirmar que o ministro Levy está nos proporcionando um novo filme de terror com o qual não se importam o Financial Times e os banqueiros do mundo, o que não é verdade, pois vivemos apenas um novo episódio em um seriado de terror, do qual nem o FT nem os banqueiros internacionais tem culpa, pois o roteiro foi criado pelos petistas (principalmente Lulla, Dillma e Guido Mantega) e patrocinado por nós, classe média brasileira.

Comentários sobre o artigo “Nesse filme de terror, quem são os culpados?”:

Referindo-me agora ao segundo artigo do blog da Kika Castro, peço desculpas por não ter colocado em meu comentário sobre o primeiro texto o link indicando o artigo de Samuel Pessôa a que me referi. Citar o motivo de não o ter colocado seria fútil.

Ao comentar, minha intenção era mostrar que a análise feita pelo ilustre jornalista José de Souza Castro sobre o artigo do Financial Times atribuía culpa por estarmos vivendo um “filme de terror sem fim” a entes errados, por isso não me estenderei na análise dos artigos assinados por Samuel Pessôa – isso tornaria longo demais esse texto, pois necessitaria explicar os motivos dos altos e baixos ocorridos de 1991 em diante, em governos petistas e não petistas.

De todo modo, como concluiu o jornalista após análise dos dois artigos, não sei se de forma irônica: “Enfim, a culpa é de muitos, mas não dos bancos”. (Ao que acrescento: e sem má vontade do Financial Times). Além disso, de forma piedosa o articulista ao final nos defende novamente dizendo: “E acaba, mais uma vez, sobrando para os pobres e a classe média o encargo maior da tentativa de resolver a crise. Baixar juros? Nem pensar!”

Em seu modo de ver (ou ler, como quer o jornalista) os dois artigos de Pessôa blindam “os banqueiros que exercem indiscutível influência nas decisões dos governos – e não só no Brasil”.

Novamente aí vemos o viés do jornalista contra essa poderosa entidade: “os banqueiros internacionais”. Não questionarei aqui que, maior influência sobre o governo que os banqueiros exercem os donos de empresas de engenharia!

José de Souza Castro não pesa, no entanto, que quem determina os juros que comandam a economia não são os banqueiros. Estes só se aproveitam da determinação. Quem estabelece os juros são os governos, que, ao tomar dinheiro emprestado informam a taxa de juros que estão dispostos a pagar para obtê-lo, com a finalidade de executar seus programas de governo nas diversas áreas: transporte, saúde, educação, segurança, etc, já que o recurso que é recolhido na forma de impostos não é suficiente para isso.

Falando-se de juros, mais especificamente é a Taxa SELIC a taxa básica de juros da economia brasileira que é utilizada como referência para o cálculo das demais taxas de juros cobradas pelo mercado e para definição da política monetária praticada pelo Governo Federal do Brasil. Ela reflete o custo do dinheiro para empréstimos bancários, com base na remuneração dos títulos públicos.

Através da fixação dessa taxa o governo busca em sua política monetária o controle inflacionário. Faz isso na suposição de que aumentando as taxas de juros o consumo será reduzido, pois os consumidores evitarão empréstimos para efetuar suas compras, o que provocará queda na demanda que obrigará os fornecedores a baixarem seus preços para continuarem vendendo, o que consequentemente reduziria a inflação.

Com isso em mente, vemos que não havia, portanto, no texto de domingo, motivo para que Pessôa falasse sobre os juros, já que no período a que ele se referia esses juros haviam sido baixados à força para incentivar o consumo, o que foi uma das intervenções desastradas do governo. (E creio que nesse momento, na visão de José de Souza Castro, mantendo os juros baixos o governo estava acertando).

O jornalista cita também que o aumento dos juros beneficiaria os rentistas. Ora! Isso seria verdade se o aumento da taxa de juros não visasse reduzir o número de empréstimos e com isso, consequentemente, o ganho dos rentistas! Além disso essa redução no número de empréstimos ocorre não apenas no setor privado, mas também no público, pois para reduzir despesas ele é obrigado a diminuir de seus investimentos em saúde, educação, segurança, etc! Como se vê, portanto, o interesse do banqueiro não é um aumento na taxa de juros e sim um aumento no número de empréstimos! O interesse do banqueiro é pegar dinheiro pagando menos por ele do que o que receberá emprestando esse dinheiro. É nessa diferença de taxas que ele ganha e não na alta da taxa de juros!

Portanto, meu prezado jornalista, não é necessário que você se desculpe, mas realmente você não fez a “leitura correta de nenhum dos dois artigos”. Você se ateve ao que leu usando seu viés contra banqueiros internacionais e o Financial Times. E isso não traz benefício a seus leitores, que receberam informações parciais e foram privados nessa leitura de evoluir pessoalmente ao avaliarem diferentes aspectos que lhes poderiam ser antepostos.

Enfim, meu prezado José, “a culpa é de muitos, mas” (neste caso) “não dos bancos.” (nem do descaso do Financial Times) “E acaba,” (você tem razão) “mais uma vez, sobrando para os pobres e a classe média o encargo maior da tentativa de resolver a crise”.”

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