‘Financial Times’ assiste no Brasil a um filme de terror

filmedeterror

Texto escrito por José de Souza Castro:

Teve pouca repercussão até a tarde de sábado, 25 de julho, o editorial do jornal londrino “Financial Times” publicado três dias antes, que pode ser lido AQUI no original ou AQUI, traduzido pelo “Valor Econômico”, com o título: “Recessão e corrupção: a podridão crescente no Brasil”.

Um prato cheio para quem gosta de comentar artigos na internet contra o governo Dilma Rousseff. Mas até a tarde de sábado, o site do “Financial Times” registrava apenas 63 comentários. Pouquíssimos de brasileiros, talvez pela dificuldade para escrever em inglês.

No “Observatório da Imprensa”, Alberto Dines  criticou em artigo na sexta-feira a falta de repercussão na imprensa brasileira. “Por solidariedade e/ou despeito, nossa mídia enfiou a viola no saco e saiu de fininho”, interpretou o velho jornalista.

Segundo Dines, era esperado que o governo não reagisse, mas o ministro da Defesa, Jacques Wagner, teria sido designado para responder. Disse o político baiano: “Esse jornal nunca olhou para o Brasil com bons olhos. A adjetivação deles eu prefiro que eles guardem com eles. Nós estamos num filme de superação e, como todo filme de superação, é um filme de dificuldade”, disse Wagner, referindo-se ao trecho do editorial, segundo o qual os recentes fatos levam o Brasil a ser comparado com um “filme de terror sem fim” e que, diante do risco de impeachment da presidente Dilma Rousseff, “tempos piores ainda podem estar por vir”.

O ministro da Defesa tem razão ao se referir à opinião do “Financial Times” sobre o Brasil. Para lembrar: no dia 24 de janeiro do ano passado, a presidente Dilma Rousseff estava em Davos, na Suíça, acompanhada do ministro da Fazenda e do presidente do Banco Central do Brasil, tentando convencer os investidores estrangeiros de que o país continua sendo um bom lugar para ganhar dinheiro.

Na véspera, o site de notícias do Grupo Globo (o G1), havia destacado notícia publicada naquele dia pelo “Financial Times” com base em dados divulgados pelo BC, começando por esta frase: “O Brasil era o queridinho dos investidores há apenas quatro anos, mas para muitos agora se tornou pária.” Pelos cálculos desse jornal muito lido por banqueiros no mundo todo, os investidores perderam quase US$ 285 bilhões no Brasil nos últimos três anos.

Onde terá o jornal britânico tirado esse prejuízo dos investidores? São números que veem e vão ao bel-prazer, como este do editorial que afirma que o Brasil é “the world’s eighth biggest economy”. E eu que pensava que éramos a sétima maior economia do mundo!

A má vontade do jornal britânico – que acaba de ser vendido para um grupo japonês – não é apenas com o Brasil. No dia 5 de maio do ano passado, em outro editorial, o “Financial Times” escreveu o seguinte (em inglês, claro): “A presidente do Brasil projeta a tediosa aura de eficiência de Angela Merkel, mas fala como se fosse os irmãos Marx”. Passados 14 meses, voltou ao ataque:

“Incompetência, arrogância e corrupção abalaram a magia do Brasil. Combinado com o fim do boom das commodities, tudo isso tem levado a oitava maior economia do mundo para uma recessão profunda. O escândalo de corrupção na Petrobras só agrava a podridão. Mais de 50 políticos e dezenas de empresários estão sob investigação por terem levado US$ 2,1 bilhões em propinas. Luiz Inácio Lula da Silva foi indiciado sob a acusação de tráfico de influência. Há cada vez mais rumores de que a presidente Dilma Rousseff, no sétimo mês do segundo mandato, pode ser cassada. Isso ainda parece improvável, mas a probabilidade cresce a cada dia.”

Se isso não é “wishful thinking”, o que será?

Talvez, um recado claro de que Dilma só se salvará se não mudar os rumos perseguidos por seu novo ministro da Fazenda, um ex-funcionário do Bradesco. Afirma o jornal: “To her credit, she has backtracked from the failed, state-led ‘new economic matrix’ of her first term. Interest rates have risen to beat inflation. Her hawkish finance minister has sought to cut spending. These necessary but painful correctives have cut real wages, hurt jobs and slashed business confidence”.  Tradução do Valor Econômico:

“A seu favor, ela recuou da fracassada ‘nova matriz econômica’, conduzida pelo Estado, do seu primeiro mandato. As taxas de juros subiram para combater a inflação. Seu rígido ministro da Fazenda procura cortar gastos. Essas correções necessárias, mas doloridas, cortaram os salários reais, afetaram o emprego e reduziram a confiança dos empresários”.

Enfim, um novo roteiro de filme de terror. Mas isso não vem ao caso para o jornal britânico (ainda) e para seus leitores preferenciais: os banqueiros do mundo inteiro.

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Um comentário sobre “‘Financial Times’ assiste no Brasil a um filme de terror

  1. Mauro Santayanna, jornalista mais antigo do que eu (entre outras coisas, ele foi correspondente do Jornal do Brasil na Europa na década de 1970 e chefiou a sucursal da “Folha de S. Paulo” em Minas no início da década seguinte) faz uma análise interessante do editorial comentado aqui, com foco na questão: quem é mais corrupto, Inglaterra ou Brasil? Íntegra do artigo do blog dele:
    http://www.maurosantayana.com/2015/07/os-nossos-yes-bwana-e-os-novos-hai.html

    Curtir

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