A depressão do copiloto não explica a queda do avião

Foto: AFP
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O avião caiu, 150 pessoas morreram e, rapidamente, já se sabia a causa do acidente, ao contrário de outros mais recentes que terminaram em mistério. Pelo que mostraram as gravações da caixa-preta, o copiloto aproveitou uma saída do piloto, se trancou dentro da cabine e acelerou o avião em queda, enquanto todos gritavam em pânico, lá fora — inclusive o piloto, que esmurrava a porta e implorava para que fosse aberta.

Beleza, ao que tudo indica, o copiloto Andreas Lubitz, de 27 anos, deliberadamente matou todo mundo e ele próprio.

Mas passei a ficar incomodada quando tentaram encontrar algo na cabeça de Lubitz que justificasse um ato tão bárbaro. Descartado que ele fosse um terrorista, alguém ligado ao Estado Islâmico, por exemplo, o que sobrava? Era um lunático.

Daí porque não bate a informação de que seu único problema fosse a depressão — uma doença que atinge 15% da população mundial. Já ouvi falar de pessoas em depressão quererem se fazerem algum mal, mas daí a quererem explodir um avião com 150 pessoas dentro?!

Mas, bem, eu não sou psiquiatra. Não sou psicóloga. Não entendo nada do assunto, só podia sentir meu incômodo calada.

Até  que recebi um email da assessora de comunicação da Universidade Metodista de São Paulo que corroborou minhas impressões. Segundo ela, “a coordenadora do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Saúde estava inconformada por ver notícias mencionando a depressão como uma das possíveis motivações para o copiloto ter causado o acidente com o avião da Germanwings. De acordo com ela, era nosso dever falar sobre o assunto porque há muitas pessoas que sofrem com a doença e podem ficar com uma visão equivocada a respeito”.

A jornalista ouviu o professor Antônio de Pádua Serafim, que também é do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Saúde da universidade e é mestre em Neurociências e Comportamento. Diz ele: “No caso do copiloto, não temos elementos suficientes para estabelecer um nexo de causalidade entre a condição psicológica e a conduta dele”.

E mais: “Geralmente, pessoas deprimidas graves cometem suicídio. Não é comum indivíduos com depressão cometerem homicídio dessa forma”.

O professor esclarece que a depressão é um transtorno do humor que afeta a qualidade de vida do indivíduo, caracterizando-se por uma tristeza profunda, insuportável, pensamentos negativos, desmotivação, sentimento de incapacidade, alterações do ciclo do sono, do apetite, dos cuidados pessoais. “Ao se configurar com esse quadro, a depressão leva, muitas vezes, a pessoa a ter a ideia de que não vai suportar essa condição, sendo a morte a solução”.

Por fim, e mais importante: “A depressão é um quadro passível de tratamento, tanto médico quanto psicológico, que gera melhoras”.

Ou seja, se Andreas teve depressão, como dizia um atestado médico encontrado após a tragédia, ele podia ter se tratado e estar bem de novo. Ou não. Seja como for, a depressão, por si só, não explica um homicídio em massa como o que ele cometeu. Que busquem outras razões. Que nunca seja explicado o mistério que passava pelo cérebro de Andreas, e só dele. Mas, por favor, não estigmatizemos uma doença que atinge 400 milhões de pessoas que jamais sequer cogitariam cometer um ato tão cruel.

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

8 comments

  1. Concordo plenamente com você. No dia do acidente, um especialista falou na Globonews que não havia interesse da França em atribuir o acidente a falhas mecânicas, pois a Anac deles (não sei o nome) não é imparcial e está ligada às companhias aéreas. Aí pensei, ixi, vão colocar um bode na sala. E não é que no dia seguinte ele estava berrando como nunca!

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  2. Você leu o artigo do Contardo Calligaris da última quinta na FSP? É sobre esse assunto e muito interessante, vale a pena ler.

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