As decisões e o inferno de Dante

Porta do Inferno de Dante (Rodin)

Porta do Inferno de Dante (Rodin)

Texto escrito por José de Souza Castro:

Fosse Proust, eu poderia dizer que uma madeleine fez-me sair em busca dos tempos perdidos em Lagoa da Prata, onde aprendi a ler, aos nove anos, e para onde regressei, antes de completar 15 anos, para concluir o curso ginasial, depois de passar cinco anos em três internatos religiosos, sendo preparado para me tornar um sacerdote da Igreja Católica.

Minha madeleine não foi um saboroso bolinho francês, mas um jornal desta cidade do Oeste mineiro intitulado “Você Aqui!”.

Numa época em que se discute se jornalismo em papel vai acabar, Heleno Nunes, um talentoso pintor e desenhista de Lagoa da Prata, me envia um jornal em papel couchê de no mínimo 150 g, repleto de desenhos dele coloridos, mas escasso em textos. A edição de setembro, a de número quatro do primeiro ano do jornal, tem como jornalista responsável Elizabete Lacerda Pedrosa, que não conheço.

Conheci Heleno Nunes, o China, mais pelas referências que me fazia dele meu irmão Homero, que morreu na década de 1990 quando, major aviador, pilotava um avião da FAB que sofreu pane e se chocou contra um morro no Rio de Janeiro, logo após a decolagem. Homero era amigo e admirador das pinturas do China. Por muito tempo, Heleno fez tirinhas para o caderno infantil do jornal “Estado de Minas”, na capital.

Nesse número, o “Você Aqui!”, rico em pontos de exclamação e em personagens de Lagoa da Prata, quase não me lembrei de ninguém. O que é compreensível. Quando ali morei, a cidade tinha pouco mais de quatro mil moradores, da primeira vez, e não mais que 15 mil da segunda. Hoje são mais de 40 mil.

Mas não me esqueci de um deles, o padre José Pires.

Ele já era vigário quando me aceitou como coroinha, aos nove anos. Três meses antes de fazer 15 anos, decidi que não voltaria mais para o seminário. Uma decisão firme, apesar de, durante quatro anos, padre Afonso, o diretor, ter-me aterrorizado com o inferno, destino certo de quem fora escolhido para ser representante de Deus na terra e perdera a vocação. Alemão e admirador de Hitler, era ele um padre que falava português sem sotaque e sabia criar imagens vividamente infernais nas cabeças dos alunos. Uma descrição do inferno de fazer inveja a Dante, que li escondido aos 14 anos. Na época, já em Manhumirim, no último ano desses internatos, livrara-me da lavagem cerebral afonsina.

Pois minha mãe me levou ao José Pires, para ele me aconselhar. E foi com surpresa que ela ouviu dele que, se eu não queria ser padre, era melhor sair agora do que mais tarde. Outros dois filhos dela, mais espertos, já haviam desistido da vocação, ao contrário de dois irmãos de minha mãe – o Olavo, que no ano seguinte se ordenou e morreu padre com mais de 70 anos; e o Homero, que saiu do seminário um ano depois de mim e não demorou a se casar.

Minha mãe ficou decepcionada com o aconselhamento do padre, mas se conformou. E fui estudar em Lagoa da Prata, no Ginásio Monsenhor Otaviano, fundado por José Pires, primeiro diretor, e pelo meu tio José Vital, homem endinheirado e político influente. Foi lá que li a coleção completa de Voltaire e resolvi que ninguém – padre ou político –, nunca mais teria o poder de ser dono da minha cabeça.

Poucos meses depois de dar tão sábio conselho, o padre José Pires pegou o carro que havia ganhado de presente dos fiéis, e viajou acompanhado de uma prima minha, sem dar qualquer explicação. Meu tio e outros parentes puseram-se em busca dos dois e acabaram descobrindo-os, felizes, numa cidade do Triângulo Mineiro.

Deixou-os lá, para viverem a própria vida.

“A decisão de deixar a batina”, descreve o jornal de Heleno Nunes, pegou a cidade de surpresa e em lágrimas. “Muita gente deixou de rezar”, acrescenta. Mas 35 anos depois, José Pires, que havia se tornado um bem-sucedido advogado casado com minha prima, foi homenageado pelo Ginásio Monsenhor Otaviano, hoje Colégio Nossa Senhora de Guadalupe.

Muitos anos antes, os lagopratenses – e lamento não ser um deles, pois nasci numa fazenda de Luz, cidade vizinha – já haviam aprendido a conviver com várias religiões ou com a falta delas, e se tornara um refúgio predileto de padres que deixaram a batina para se casar.

Todos ajudaram muito a cidade a se desenvolver. Nenhum desses ex-padres está destinado, até onde sei, a padecer no fogo do inferno, onde Dante Alighieri descobriu uma rua pavimentada com coroas de padres, bispos e abades. Todos eles, quando morreram, se achavam ainda apegados às suas batinas e crenças que não os livraram da punição divina…


Nota da Cris: já votou? Bom voto! Lembre-se: nenhum político pode ser dono de sua cabeça. Vote de acordo com sua consciência! 😉

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