(Con)vivências

Temos que ser Cirilos convivendo com Marias Joaquinas a todo momento.

Temos que ser Cirilos convivendo com Marias Joaquinas a todo momento.

Minha sobrinha de 6 anos acaba de ver um coleguinha da escola, passando ao longe, e comenta comigo.

— Ele é seu amigo?, pergunto.

— Não, é só meu colega. E ele é o chefe dos meninos.

— Como assim “chefe dos meninos”?

— É ele que decide quando vão jogar bola e quando vão brincar de pega-pega.

— Mas por que ele decide? Por que é o chefe?

— Porque sim.

— E quem é a chefe das meninas?

— É a fulana.

— Por que ela é a chefe?

— Porque todos os meninos querem se casar com ela. E ela conta as histórias de Carrossel e Chiquititas e todas as meninas gostam dela.

— Você também?

— Não. E eu não vejo Carrossel e Chiquititas.

— Não tem problema você não gostar da novelinha que as outras gostam, viu?

— Mas eu não sei se eu não gosto. Eu nunca assisti pra saber.

***

Duas senhoras, aparentando uns 90 anos, entram no banheiro, conversando.

— Mas você é alegre, cheia de gente na família! Tem filhos, netos, bisnetos…, tagarela uma delas.

— Você também tem netos, comenta a outra.

— E também vou ganhar um bisneto. Mas minha neta não fala comigo, então nem vou conhecê-lo. Minha neta é de uma metideza…! Outro dia ouvi uma conversa de que ela estava esperando um bebê, mas eu nem quis saber, então acho que vou ter um bisneto, mas não tenho certeza.

***

Estou atravessando a rua. É domingo, estou na Savassi, uma região com excesso de faixas de pedestre e de pedestres. É domingo, eu já disse, quando em tese as pessoas estão com menos pressa.

Paro numa faixa de pedestres, à espera do fim do eterno fluxo de carros ou da boa educação de um motorista — o que vier primeiro.

Uma motorista para e faz o sinal para que eu atravesse na faixa. Ela vai me esperar, sorri. Começo a atravessar, respondendo com um joinha.

Eis que o carro atrás dela, sem querer esperar pela minha travessia, desvia pela direita e acelera em minha direção, passando a centímetros de mim.

***

Dizem que viver é difícil, mas conviver é muito mais. Porque vivemos num mundo de chefes, de megeras e de espertalhões. Ou de panelinhas, de desentendimentos e de mal-educados. E, entre minha sobrinha de 6 anos e a senhora de 90, haverá muitas travessias perigosas.

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2 comentários sobre “(Con)vivências

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