Como seria se o mundo fosse assim?

Para ver no cinema: O DOADOR DE MEMÓRIAS (The Giver)
Nota 7

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O mais legal deste filme é a premissa. Trata-se de uma ficção científica caprichada, com elementos de “1984” e de romances do Philip K. Dick. O que me fez querer saber imediatamente quem foi responsável pelo roteiro do filme.

Descobri só agora que é baseado no livro da havaiana Lois Lowry, com roteiro do experiente Robert B. Weide e do novato Michael Mitnick. Fiquei na mesma: não conheço nenhum dos três. Já o diretor, Phillip Noyce, eu conheço pelos bons filmes “O Americano Tranquilo” e “O Colecionador de Ossos“.

O fato é que, mesmo contando com dois atores brilhantes — Meryl Streep e Jeff Bridges –, não é a atuação de ninguém que torna este filme bom. Os protagonistas são jovens atores desconhecidos, que fazem só o arroz com feijão, sem provocar grandes emoções no expectador. E mesmo o roteiro peca pela solução final encontrada para o problema (que, obviamente, não vou revelar aqui), que é digna de Sessão da Tarde.

Ficamos, então, com a premissa, esta sim, excelente. Trata-se de um mundo muito diferente, que foi criado por “anciãos”, e é totalmente blindado. Esse mundo é pautado pela mesmice completa, pela igualdade absoluta, com o nobre objetivo de evitar conflitos. Assim, não há cores — para que não se notem diferenças entre negros e brancos –, não há emoções — para evitar aquelas negativas, como a inveja ou a raiva, que culminam em atos de violência –, tudo é vigiado e hermético para que as regras sejam cumpridas e não haja possibilidade de atos de rebeldia. Os bebês são entregues a núcleos familiares aleatórios, os velhos são “mandados para outro lugar” (não há o conceito de morte), os bebês fracos ou doentes são também “mandados para outro lugar”. Não há dor, nem sofrimento, mas tampouco conceitos como amor, lar, beijo. E toda essa bolha é protegida por tecnologias de altíssimo nível.

A partir dessa premissa, milhares de filmes poderiam ser desenvolvidos, mas nasceu este, que é bom, tem emoção, aventura, um toque de poesia, belas fotografias, e faz pensar, mesmo não sendo esta sua principal pretensão. No mínimo, temos 97 minutos de vivência em um mundo incrível — no bom e no mau sentido –, que nos faz perguntar a todo momento: “Imagina se fosse assim? Seria melhor ou pior do que a vida como ela é, com todas as guerras, injustiças, dores, sofrimentos, e também festas, amores, paixões arrebatadoras, competições…?”

Assista e decida-se 😉

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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