O poeta Raimundo e a fada madrinha tardia

Raimundo Arruda Sobrinho, o poeta que viveu 35 anos nas ruas
Raimundo Arruda Sobrinho, o poeta que viveu 35 anos nas ruas até ser resgatado pela família em Goiás.

Em algum momento de 2011 ou 2012, conheci Raimundo. Fui lá para seu lugar sagrado, no Alto de Pinheiros, após receber a informação de que ele tinha sido tirado de lá. Mas, chegando na “ilha”, o encontrei no mesmo lugar de sempre, escrevendo sem parar. Calhamaços de páginas, todas preenchidas, ao redor dele. Lápis pequeno, já gasto até perto da ponta de borracha. Cabelos e barbas longas, sacos de plástico no lugar de roupas apropriadas, ele me estendeu um pedaço de papel com um verso.

Era este, como sempre, assinado “O Condicionado”:

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Perguntei se ele venderia seus poemas, mas ele se recusou a receber qualquer quantia por eles. Então, guardei o verso presenteado, e está comigo até hoje.

Naquele dia, Raimundo não estava para muita conversa. Eu lhe perguntava várias coisas, e ele só respondia com monossílabos. Quando fui embora, fiquei me perguntando como alguém pode morar em um canteiro de um bairro de classe alta durante 18 anos e ninguém fazer nada para ajudá-lo. Dezoito anos!

Pouco depois, o repórter Guilherme Genestreti foi ao local e descobriu algumas informações importantes. Naquele dia, efetivamente, o poeta-mendigo havia “sumido”. Mas por boas razões: finalmente uma fada madrinha havia conseguido quebrar o gelo dele. Ao criar uma comunidade do Facebook a seu respeito, conseguiu ainda atrair o irmão, que veio de Goiás para procurar Raimundo. A reportagem pode ser lida AQUI.

Foi a última vez que li qualquer coisa a respeito de Raimundo na “Folha” – ou em qualquer outro jornal [na verdade, chegou a sair uma matéria em 2013, mas não me lembro de tê-la visto]. Até que, nos últimos dias, quase dois anos depois da reportagem do Guilherme, percebi que um vídeo produzido pelo próprio Facebook estava circulando pela rede social. Ali é contado o fim da história de Raimundo: a volta para Goiás, os sacos sendo substituídos por roupas, os cabelos e barba cortados. O vídeo ficou muito legal e merece ser visto e compartilhado:

Diz o vídeo que Raimundo está tentando publicar seu livro. Fui até a página do Facebook criada por Shalla para ver se o livro, afinal, estava pronto. Descobri que ainda não. Ela promete atualizar os quase 100 mil fãs de Raimundo assim que houver novidades. (Curti, para ficar também atualizada.)

Histórias como a de Raimundo me fazem pensar em um monte de coisas. Dezoito anos, pô! Dezoito anos até que uma Shalla aparecesse para oferecer uma vida normal para o homem que se acreditava “condicionado”. Será que ele é o louco ou todos os que tinham conhecimento de sua existência – assim como a de tantos outros moradores de rua – e deram de ombros, como se estivessem vendo um cactus no deserto? Nunca saberei…

O poeta Raimundo Arruda Sobrinho e sua fada-madrinha Shalla
O poeta Raimundo Arruda Sobrinho e sua fada-madrinha Shalla, que o ajudou a sair das ruas

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

6 comments

  1. Os moradores de rua são uma parte do nosso povo que vive em uma condição mendicante, reflexo do afastamento forçado, da exclusão social a que são sujeitos pelas mais variadas razões. Muitos deles dormem na rua, simplesmente porque não têm possibilidade de voltar ao seu domicílio, devido aos modestos ganhos no seu dia a dia. Esta situação seria resolvida facilmente com a compra de um passe mensal, por parte do governo, para viajarem gratuitamente no transporte público. Existe solução para tudo, mas o que mais falta faz é a vontade política dos nossos governantes.
    Estou a recordar-me que os gestores deste país ainda não conseguiram até esta data, criar um plano sério para fazer uma verdadeira reforma agrária, a qual resolveria os problemas de muitos brasileiros sem-teto e aumentaria a sustentabilidade desta Nação.

    Excelente tema.

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  2. Oi, Kika! Fiquei emocionada com esta publicação. Você tem uma preciosidade em mãos, o poema do Raimundo, que ganhou ainda mais brilho aqui. Ao ler seu texto, eu me lembrei que tinha lido uma matéria no jornal O Popular, daqui de Goiânia, sobre um escritor ex-morador de rua. Fiz uma rápida pesquisa no Google e eis que é o próprio Raimundo! Foi publicada no dia 6 de abril deste ano e o link é este http://www.opopular.com.br/editorias/cidades/o-vasto-mundo-de-raimundo-1.515612. É possível visualizar a matéria acessando-a com sua conta do Facebook, mas vou enviar também a cópia em PDF pra você pelo e-mail aqui do blog.
    Um abraço!
    Regina

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    1. Obrigadíssima pelo envio, Regina! A matéria d’O Popular ficou muito legal!
      Espero que o livro saia, porque vou comprar! Mas ter um poema dele me parece, realmente, quase o mesmo que guardar um pequeno tesouro 🙂 bjos

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