A notícia mais triste do dia 02.02.2013

Em homenagem a Aloísio Gonçalves, de 71 anos, morto após cair no trote do falso sequestro, conforme li AQUI, AQUI e AQUI. O texto abaixo é um conto ficcional baseado na notícia.

***

Aloísio era doido com a filha.

Por isso, ficou doido quando recebeu uma ligação, dizendo que estavam com ela.

No outro lado da linha, uma voz de mulher gritava: “Papai! Papai! Me salve!”

“É minha Ana Paula?”

“Sim, ela própria. Se quiser ter sua filha de volta, viva, anota bem aí a conta que vou te passar e deposita R$ 10 mil.”

Aloísio, 71 anos, mãos tremendo muito mais que o normal, anota no verso do missal do dia. Lembra que havia rezado pela filha naquele sábado de manhã. Chora, mas sem soluçar, para o bandido não perceber.

Suando muito, sai de casa em direção ao banco, para depositar o dinheiro pedido. Vai ter que fazer um empréstimo. Seguindo orientação recebida pelo telefone, não entra em contato com a polícia nem avisa a ninguém, pensando em salvar sua Ana Paula.

É começo de tarde, está quente pra diabo. Mas o céu está escuro, anunciando a chuva. Aloísio é supersticioso, pressente que o céu escuro também pode ser mau agouro. Faz o sinal da cruz.

De repente, lembra de sua Ana Paula quando criança e do quanto é uma filha especial. O coração não para de bater. Forte, rápido, como se estivesse ocupando todo o tórax, como se tivesse esparramando para os pulmões, para o sistema digestivo, estivesse subindo, entalado, na garganta. Ele é todo coração.

As pessoas ao redor o olham, assustado. “Quer ajuda, senhor?” “Não, preciso depositar, preciso depositar, tenho que salvar minha filha.” O coração saindo pela boca. Tum. Tum. Tum. E para.

Seu Aloízio morreu de amor pela Ana Paula, morreu de preocupação, mas nunca lhe passou pela cabeça que aquela voz não era da filha, que ela estava bem, assistindo a uma sessão do cinema, que ele fora apenas vítima de um trote.

Estava demorando para que esse trote estúpido matasse alguém de susto e de pavor.

***

Atenção, caros leitores: esse trote já acontece há anos, mas ainda pega muita gente, justamente porque os bandidos se aproveitam do estado de choque em que deixam as vítimas, agravado pela confusão que os gritos despertam. Eles são espertos e colhem as informações na internet ou com a própria pessoa. Mas seguem sempre um mesmo padrão. A melhor maneira de agir é desligar o telefone na cara da pessoa. Em seguida, telefonar para o parente para tranquilizar o coração. Se não atender, não se desespere: pode estar com o celular desligado, no cinema, no banheiro. Ligue para outros que possam estar junto da pessoa. E registre, sempre, na polícia. Os golpes são subnotificados porque suas vítimas têm vergonha de registrar B.O. quando são alvo de estelionatários. Se seu telefone tiver gravador, você também pode gravar um trecho da conversa antes de desligar, para facilitar a identificação futura. E, se tiver bina, passa a ser valiosíssimo para ajudar a população a se proteger dessas pessoas estúpidas, que matam com o susto de seus trotes.

Leia também:

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Por Cristina Moreno de Castro (@kikacastro)

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Redes sociais: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro e www.instagram.com/arvoresdascidades.

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