Quando o cinema fabricava nossos sonhos

Para ver no cinema: A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (Hugo)

Nota 9

Quando o filme terminou, aconteceu uma rara cena: todo o cinema começou a aplaudir.

Tudo bem que isso é inócuo e até meio brega, quando não é uma pré-estreia e nenhum dos produtores do filme está presente para receber aquele reconhecimento. É quase como aplaudir o Hino Nacional, que aprendemos, desde criança, que é uma “gafe”, mesmo sem entender direito por quê.

Mas, todo modo, ver o cinema aplaudindo um filme é ver diversas pessoas, de idades variadas, libertando seu entusiasmo de forma incontida. (O que, diga-se de passagem, é mais raro ainda em São Paulo).

Pois lá estava eu, no fim da tarde de ontem, no cinema de um shopping metido de São Paulo, ouvindo todos aqueles aplausos, em uma sala cheia de crianças, de adultos e de vovôs.

Não é pouco.

“A Invenção de Hugo Cabret” é, realmente, um filme tocante, que merece aplausos. A princípio com cara de infantil, mas, aos poucos, mostra-se o filme de todos os cinéfilos, de todas as idades. O filme-homenagem de um grande diretor (Scorsese) para um gênio desta sétima arte (Méliès). Interpretado pelo garoto com os olhos mais azuis do planeta, e imensos, que não é uma maravilha em termos de interpretação, mas é lindo de ver, de todo jeito. E ele está apoiado por personagens incríveis e propositalmente caricatos, como o inspetor da estação de trem (Sacha Baron Cohen — sim, o próprio Borat), que dá a pitada de humor ao filme, o livreiro (Christopher Lee) e o próprio Georges (Ben Kingsley) — só ator peso-pesado.

O que vemos diante de nós é uma aventura como a dos livros de Dickens, num tempo já perdido, em que as fábulas são permitidas, o cinema é uma fábrica de sonhos e seus astros são apenas pessoas se divertindo bastante.

Pena que esse tempo foi enterrado com a 1ª Guerra, mas viva Scorsese por ressuscitá-lo brevemente para nossos tempos insossos de poucos aplausos.

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