- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Bom, como prometi no post de ontem, hoje compartilho com vocês o conto que escrevi especialmente para participar do concurso literário promovido pela Bula no ano passado. Dos quase 2 mil contos inscritos, ele ficou entre os 100 finalistas, então acho que não foi tão mal 😉
Mas o mais importante é que eu gostei muito dele ❤ Fazia um tempinho que eu não escrevia um conto de ficção, e fiquei feliz com este resultado meio distópico (e levemente inspirado em experiências reais). Espero que gostem também! 😀
Sacrifícios
– Cristina Moreno de Castro
No caminho para casa, quando ninguém estava mais olhando, ela desatou a chorar. Eram muitas as lágrimas se misturando ao ranho e aos soluços, e ela teve que se esforçar para lembrar de manter os olhos abertos, desembaçados, e a concentração necessária para continuar dirigindo aquele carro em segurança.
Era seu décimo nono dia no emprego novo, na Empresa, e ela só conseguia se perguntar quanto tempo mais aguentaria.
Talvez o que mais a impressionou, nessas primeiras semanas, tenha sido a constatação de que todos pareciam muito felizes lá dentro. Era o emprego dos sonhos. Gente do país inteiro tentava uma vaga naquele lugar – qualquer vaga. Nada parecia incomodá-los.
Na verdade, estavam dispostos a tudo para assegurar que jamais sairiam de lá, a menos que mortos ou aposentados. Aliás, se pudessem continuar depois de aposentados, melhor ainda. Sair da Empresa apenas em um caixão, este era o sonho dos novos colegas dela.
Logo nos primeiros dias, foi apresentada à salinha discreta, perto da lanchonete, em que poderia fazer a doação de sangue. Não era preciso tirar aquela bolsa enorme, de 450 ml: bastava encher um tubo pequeno, daqueles de exame de laboratório, porque o mais importante para a Empresa não era a quantidade, mas a frequência. Se fosse possível tirar um pouco de sangue todos os dias, melhor ainda.
Não que houvesse qualquer tipo de recompensa por isso. Aliás, ela não conseguiu entender muito bem o que a Empresa fazia com todo aquele sangue retirado de seus funcionários. Não parecia haver um banco de doações ou qualquer outra utilidade vital. Era mais como uma expectativa: espera-se que os funcionários estejam dispostos a dar parte de si para a Empresa, sem ganharem nada em troca.
Todos faziam isso de bom grado. Saíam da salinha sorridentes, conversando, e iam almoçar. Havia também aqueles que doavam partes mais significativas de si. Com a passagem das semanas e meses trabalhando na Empresa, com suas salas de teto baixo e luz artificial, sufocante com todas as janelas fechadas, ela foi ouvindo relatos orgulhosos de colegas que tinham doado um rim ou um pulmão. Praticamente todas as mulheres do seu setor já tinham entregado o útero. Corria até o boato de que algumas, funcionárias lá da Sede, tinham doado o próprio filho. Nunca mais o viam, nem sabiam o que tinha acontecido a ele. Mas talvez fosse só uma lenda, pensou, incerta.
Lá pelo sétimo mês, um colega que se sentava na mesma bancada chegou, vaidoso, com uma orelha decepada. Ele parecia exultante por sua coragem a criatividade em nome da Empresa. Ao ver a cena, ela correu até o banheiro – seu refúgio mais corriqueiro – e vomitou.
Era ali no banheiro que ela costumava chorar com mais frequência, além do caminho de carro até a própria casa, sempre algumas horas depois do fim oficial de seu expediente. Parecia um esconderijo seguro. Quando o Chefe começou a perguntar quantas doações ela já tinha feito para a Empresa e se ainda mantinha o útero em seu corpo, cogitou oferecer tubos cheios de lágrimas no lugar. Será que aceitariam? As suas provavelmente encheriam baldes inteiros.

Apesar de só ter feito algumas doações esparsas de seu sangue, e das perguntas do Chefe, ninguém havia ameaçado demiti-la. O problema é que todos olhavam para ela como se estivesse dando menos de si, trabalhando menos do que deveria. Mesmo fazendo inúmeras horas extras, plantões, trazendo resultados inéditos em seu setor, olhavam para ela como se estivesse sendo uma ingrata, como se não tivesse entendido a bênção e a sorte de estar trabalhando ali na Empresa.
Ela não só não entendia mesmo, como se perguntava o tempo todo se era louca ou se todos os outros é que eram desvairados. A probabilidade maior era de que ela fosse o problema, não centenas de pessoas – sempre se dizia. E tentava entender por que ela não via a Empresa como um bom lugar para se trabalhar, e por que não se submetia aos mesmos sacrifícios dos outros para agradecer pela oportunidade maravilhosa de ter sido contratada.
Ou fazia isso ou ela deveria pedir demissão, claro. Ela já tinha se demitido de outros empregos no passado, mas nenhum deles era na Empresa. Parecia errado pedir para sair dali, por livre e espontânea vontade. Uma espécie de crime, ou até pecado. Os outros pareciam dispostos a até mesmo dar a vida por um crachá, como ela poderia viver com o arrependimento depois?

Em um raro fim de semana em que se viu de folga, em casa, resolveu procurar ajuda especializada. Um terapeuta, quem sabe, poderia dar uma luz sobre o que fazer. Afinal, todos que ela ouvia eram funcionários da Empresa. Talvez um olhar de fora pudesse até mesmo elucidar se ela ainda estava raciocinando bem.
Encontrou um profissional que atendia por seu plano de saúde (o melhor plano do mercado, óbvio, como tudo o que a Empresa oferecia a seus funcionários) e, milagrosamente, estava disponível para uma consulta on-line naquele mesmo sábado. Em meio a toda a crise sanitária e econômica em que o mundo estava afundado, parecia realmente um milagre que qualquer psicanalista tivesse ainda algum horário livre na agenda.
Mas lá estava ele. Curiosamente, parecia vestir um uniforme com a logomarca da Empresa. Seria funcionário também? Pela câmera não dava para enxergar direito – devo estar louca, pensou, não tinha nada no site do plano dizendo que ele era vinculado à Empresa.
Quando ela explicou suas angústias e choros dos últimos 11 meses, e as dúvidas sobre o quanto deveria se entregar para a Empresa, ele ouviu atentamente, anotando tudo, e, ao final, mostrou a ela, calma e racionalmente, como ela deveria estar vivendo algum desequilíbrio mental decorrente das crises, porque só isso explicaria tamanha ingratidão com um emprego daqueles, justo na Empresa. Você não percebe?!, perguntou o analista.
Ela terminou a consulta completamente destroçada. Minha incapacidade de compreensão e minha insistência em comparar aquela experiência com outros trabalhos que tive antes só pode ser algum tipo de loucura mesmo, pensou. E concluiu: claramente o problema sou eu. Ou tomo uma decisão mais drástica, ou continuarei chorando no banheiro e no caminho de casa até o dia em que sair da Empresa num caixão.
Coincidentemente, na segunda-feira, o Chefe convocou uma reunião extraordinária para dizer que a Empresa estava testando um novo tipo de doação, para ter certeza do comprometimento de seus funcionários. Ele próprio estava propenso a fazer, lógico, mas antes queria ver se alguém em sua equipe queria ter a honra de ser o primeiro ou primeira a se submeter àquele procedimento. Talvez até mesmo houvesse uma condecoração para compensar tamanha prova de lealdade.
Diante da perspectiva de uma inédita recompensa por seus esforços, houve um burburinho generalizado, com todos comentando a novidade, ansiosos para saber que doação seria aquela, e dizendo é claro que vou me candidatar, serei o primeiro, serei a primeira, quanta honra.
O Chefe pigarreou, esperou o ruído se silenciar aos poucos, e finalmente contou os detalhes do novo procedimento, e todas as condições que seriam exigidas pela Empresa a quem quisesse participar.
Todos se entreolharam, surpresos. Dava para ver que não esperavam por aquilo. O Chefe perguntou, impaciente, e aí, ninguém vai se candidatar? As pessoas engoliam em seco, ela nunca havia visto rostos tão angustiados e desolados naquele auditório. Pensou: é agora ou nunca. Talvez seja a chance que eu precisava de resolver meu problema e finalmente abraçar este emprego como a Empresa merece. Um pouco tímida, levantou a mão.

Eram audíveis os Ohs e Heins ao redor, mas ela não recuou. O Chefe arregalou os olhos ao ver o rosto dono daquela mão estendida, mas logo deu uma tossezinha e encerrou rapidamente a reunião, que bom, que bom, já temos uma candidata, acho que será a primeira do país, vamos voltar ao trabalho que tenho uma papelada para organizar agora.
Ele a chamou até sua sala, uma sala cheia de monitores ligados, com cadeiras de estofado muito novo, como se tivessem sido compradas naquele mesmo dia, e um leve cheiro de produto de limpeza no ar. Ela nunca tinha entrado ali, evidentemente. Tem certeza de que entendeu todas as condições?, ele perguntou, cauteloso. Sim, tenho sim, Chefe. Bom, então vamos logo com isso. Quero garantir que nossa filial tenha a honra de ser a primeira a oferecer alguém para uma experiência tão… tão sofisticada. Disse a última palavra bem baixinho, como se ela estivesse entalada na garganta.
Estendeu um contrato para ela, com vários espaços para sua assinatura, e um monte de X. Ela leu tudo, apressadamente – não pense muito, você não tem escolha –, e assinou em todas as vias. O Chefe parecia um pouco ofegante, as têmporas suadas. Deu um telefonema para avisar que tinha conseguido uma candidata.
Dois dias depois, uma equipe vinda da Sede esvaziou e trancou a salinha para que ela fizesse o procedimento, que levou, no máximo, oito minutos. E foi assim que ela doou a própria alma para a Empresa.
***
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