Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus: leia minha resenha do livro

Ilustração de Vinicius Rossignol Felipe no miolo do livro 'Quarto de Despejo', de Carolina Maria de Jesus (editora Ática, 2014). Foto: CMC / blog da kikacastro
Ilustração de Vinicius Rossignol Felipe no miolo do livro 'Quarto de Despejo', de Carolina Maria de Jesus (editora Ática, 2014). Foto: CMC / blog da kikacastro

Muitas coisas me passaram pela cabeça enquanto eu conhecia Carolina Maria de Jesus por meio de sua obra mais famosa: “Quarto de despejo: diário de uma favelada”.

Publicada originalmente em 1960, a partir dos diários escritos entre 1955 e 1960 sobre sua vida na favela do Canindé, em São Paulo, este livro se mantém (infelizmente) atual até hoje. Mãe solo de três crianças pequenas, Carolina era catadora de papel.

A primeira coisa que chama nossa atenção é a linguagem, já desde a nota dos editores, que avisa:

“Esta edição respeita fielmente a linguagem da autora, que muitas vezes contraria a gramática, incluindo a grafia e a acentuação das palavras, mas que por isso mesmo traduz com realismo a forma de o povo enxergar e expressar seu mundo”.

Apesar de a autora não escrever conforme a forma erudita da Língua Portuguesa, já que só cursou até o segundo ano do ensino fundamental, sua mensagem é forte, e ela se expressa bem, por isso, logo nos acostumamos.

Desde o começo fica claro que Carolina sentia uma grande necessidade de escrever, de se expressar pelas palavras. Me lembrou a personagem de “Caderno Proibido”, de Alba de Céspedes, que encontrou a mesma válvula de escape. O que mostra que a escrita pode ser importante para forjar a identidade de qualquer pessoa, independente de sua nacionalidade, idade, formação ou classe social.

A escritora Carolina Maria de Jesus. Foto: Acervo Instituto Moreira Salles
A escritora Carolina Maria de Jesus. Foto: Acervo Instituto Moreira Salles

Em vários momentos, Carolina conta que acordou de madrugada para escrever ou que passou um raro momento de descanso cuidando de seus diários. Ela sempre alimentou a esperança de ser publicada e, assim, poder denunciar os problemas da vida na favela – incluindo aqueles provocados por seus vizinhos. Como mostra este trecho:

“E depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode passar sem ler. E que levanta para escrever. E que deita com lapis e papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver só para o meu ideal.” (página 49)

Ela também gostava muito de ler e era bem informada sobre vários assuntos, com muitas opiniões críticas sobre a política da época. (Ela odiava Juscelino Kubitschek, por exemplo – nome que todos sabem falar, mas ninguém sabe escrever – e também outros peixes pequenos, da política e da igreja, que só queriam lucrar às custas dos miseráveis).

O principal tema de seus relatos é a vida na favela, que ela chamava, em vários momentos, de “quarto de despejo”. Por exemplo neste trecho:

“Os visinhos ricos de alvenaria dizem que nós somos protegidos pelos politicos. É engano. Os politicos só aparece aqui no quarto de despejo, nas epocas eleitorais.” (página 45)

Ela odeia viver na favela. Aliás, ela sente que ninguém gosta de morar lá. E o livro deixa claro todos os perrengues da favela naquela época, sem nenhum espaço para romantização. Chega a ser repetitivo o ciclo de fome, doenças, violência, brigas entre os vizinhos, lama, cheiro ruim, comida achada no lixo, vermes, alcoolismo, roubos.

Separei alguns trechos para ilustrar esse sentimento da autora sobre a favela:

“O unico perfume que exala na favela é a lama podre, os excrementos e a pinga” (página 47)

“Isto aqui é lugar para os porcos. Mas se puzessem os porcos aqui, haviam de protestar e fazer greve. Eu sempre ouvi falar na favela, mas não pensava que era um lugar tão asqueroso assim. Só mesmo Deus para ter dó de nós.” (p. 48)

“Os favelados todos os anos fazem fogueiras. Mas em vez de arranjar lenha rouba uns dos outros. Entram nos quintaes e carregam as madeiras de outros favelados. (…) Não sei porque é que os favelados são tão nocivos.” (p. 71)

“Quando eu vou na cidade tenho a impressão que estou no paraizo. Acho sublime ver aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas. Tão diferentes da favela. As casas com seus vasos de flores e cores variadas. Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da America do Sul está enferma. Com as suas ulceras. As favelas.” (p. 85)

“Aqui nesta favela a gente vê coisa de arrepiar os cabelos. A favela é uma cidade esquisita e o prefeito daqui é o Diabo. E os pinguços que durante o dia estão oculto a noite aparecem para atentar. Percebo que todas as pessoas que residem na favela, não aprecia o lugar.” (p. 91)

“as favelas não formam carater. A favela é o quarto de despejo. E as autoridades ignoram que tem o quarto de despejo.” (p. 107)

Ilustração no miolo do livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Crédito: Vinicius Rossignol Felipe
Ilustração no miolo do livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Crédito: Vinicius Rossignol Felipe

Carolina trabalha todos os dias, menos quando chove ou está doente. Não raro sai bem cedo pra catar papel, ferro, carvão (qualquer coisa que possa ser vendida) ou tentar encontrar comida, e depois volta às ruas outras vezes, à tarde e à noite. Chega a carregar 100 kg nas costas, e às vezes leva também os filhos junto.

Está sempre exausta e sempre contando os trocados. Tudo o que ganha vai para pagar a comida do mesmo dia, ou algum item essencial, como sabão. Às vezes não consegue o suficiente nem para isso, e apela para o lixo, para tentar encontrar algo que ainda não esteja podre, ou para o frigorífico, atrás de ossos.

As favelas melhoraram muito desde os anos 1950, da realidade de Carolina, até hoje. Em vários lugares, ganharam saneamento básico, luz elétrica. Mas a fome se tornou um problema de novo durante a pandemia, no governo de Jair Bolsonaro. Quando li as várias passagens do livro de Carolina sobre as sopas de ossos que ela fazia para os três filhos, me lembrei imediatamente das notícias que acompanhamos sobre açougues vendendo ossos em 2021. Saiu no Fantástico (e aqui), no g1, e em vários outros portais de notícias, na época.

Felizmente, o Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU pela segunda vez durante o governo Lula. Mas, apesar das quedas, ainda são 2,5 milhões de domicílios em insegurança alimentar grave, segundo dados do IBGE divulgados em outubro de 2025.

A fome é um dos principais temas abordados por Carolina, pois sentida na pele por ela e seus três filhos pequenos. É comum ela escrever, por exemplo, que não conseguiu dormir, porque “quem deita com fome não dorme” (p. 107). Destaquei este trecho que achei bem forte:

“Percebi que no Frigorifico jogam creolina no lixo, para o favelado não catar a carne para comer. Não tomei café, ia andando meio tonta. A tontura da fome é pior do que a do alcool. A tontura do alcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrivel ter só ar dentro do estomago.

Comecei a sentir a boca amarga. Pensei: já não basta as amarguras da vida? Parece que quando eu nasci o destino marcou-me para passar fome. (…)

Resolvi tomar uma media e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as arvores, as aves tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.

A comida no estomago é como o combustivel nas maquinas. Passei a trabalhar mais depressa. O meu corpo deixou de pesar. (…) Comecei sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetaculo. E haverá espetaculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida.” (P. 44 e 45)

Ilustração no miolo do livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Crédito: Vinicius Rossignol Felipe
Ilustração no miolo do livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Crédito: Vinicius Rossignol Felipe

Tanto a questão da fome quanto do trabalho precário com o lixo quanto as brigas entre os vizinhos, a violência em suas várias facetas, a questão do esgoto, da falta de água, da lama, do fedor, das doenças, tudo isso me lembrou o livro que li recentemente, que também se passa numa favela, mas na Índia: “Em busca de um final feliz”, de Katherine Boo.

Quando escrevi sobre ele, eu disse que nenhuma miséria de outros livros que eu já tinha lido se comparava à da favela de Annawadi. Mas eu estava enganada. A extinta favela do Canindé, que deu lugar à Marginal do Tietê, se compara. E, então, é muito provável que várias outras se comparem também. Inclusive no desejo de seus moradores de um dia terem um “final feliz”, ou pelo menos uma vida mais digna.

Como pode haver tantos miseráveis no mundo, em situações praticamente idênticas, mesmo em países tão distantes? Como pode essa situação perdurar desde os anos 1950 até hoje, quase inalterada?

O livro de Carolina Maria de Jesus faz esse registro histórico e social tão importante, inclusive para nos ajudar a conhecer melhor essas realidades de miséria que um dia já existiram, e ainda existem em vários lugares (até dentro da maior e mais rica cidade do país!). Às vezes os relatos são repetitivos ou um pouco confusos, porque os personagens não são devidamente aprofundados. Mas não importa. São sinceros. São a vida de uma favelada, naquele dia após o outro, no meio da sinuca de bico, em primeira pessoa, no meio do caos.

E, mesmo com tantas agruras, ela consegue nos trazer um pouco de ternura também. Como a que ela sente em relação aos filhos e às crianças em geral. Ela se preocupa com a fome que passam, com não terem sapato, com a violência que presenciam e sofrem, com o que veem, com os palavrões que escutam. Vizinhos jogam água quente ou bosta nelas quando as mães saem de casa para trabalhar. Batem nos pequenos com cinta, com correia.

Ilustração no miolo do livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Crédito: Vinicius Rossignol Felipe
Ilustração no miolo do livro Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus. Crédito: Vinicius Rossignol Felipe

Quando estão “enfeitiçados” pelo vício do álcool, a coisa fica ainda pior. Tem muita violência e pouca solidariedade dentro da comunidade em que Carolina viveu. O dia em que ela resolveu engordar e assar um porco simboliza esse sentimento, em várias camadas: o medo que ela sente de ser atacada pelos vizinhos famintos, a recusa dela em compartilhar a carne com eles.

Por fim, tem a questão dos vários preconceitos. No livro que se passa na Índia, havia grande ressentimento entre hindus e muçulmanos. Na favela paulistana, o preconceito de Carolina é dirigido contra os “nortistas” ou “baianos” – forma genérica para se referir a qualquer pessoa que tenha vindo do Nordeste. Sem falar na ojeriza aos ciganos:

“Olhei o local onde os ciganos acamparam. Eles ficaram só treis dias. Mas foi o bastante para nos aborrecer. Eles são nojentos. O local onde eles acamparam está sujo e exala mau cheiro. Um odor desconhecido.”

Como mulher negra, ela também sofre com o racismo, tanto o desferido por seus próprios vizinhos do Canindé, quanto o que vem das ruas e das casas “de alvenaria”. Ela não trata tanto do assunto, mas separei estes quatro trechos que achei muito fortes:

“Eu estava pagando o sapateiro e conversando com um preto que estava lendo um jornal. Ele estava revoltado com um guarda civil que espancou um preto e amarrou numa arvore. O guarda civil é branco. E há certos brancos que transforma preto em bode expiatorio. Quem sabe se guarda civil ignora que já foi extinta a escravidão e ainda estamos no regime da chibata?” (p. 108)

“Fico pensando: os norte-americanos são considerados os mais civilisados do mundo e ainda não convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol. O homem não pode lutar com os produtos da Natureza. Deus criou todas as raças na mesma epoca. Se criasse os negros depois dos brancos, aí os brancos podia revoltar-se.” (p. 122)

“O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também, A natureza não seleciona ninguem.” (p. 65)

E, na página anterior, um pouco de orgulho negro:

“Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rustico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco. Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. É indisciplinado. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta.”

Não é à toa que Carolina Maria de Jesus conseguiu tanto reconhecimento assim que teve sua obra descoberta e publicada. Pelos trechos acima, deu pra ver a força de sua narrativa e de suas reflexões, não deu? E isso expresso por um português rudimentar, de quem não teve oportunidade de se escolarizar. Mas as ideias estão lá: fortes e lúcidas.

Segundo a edição da Ática que eu li, de 2014, com belas ilustrações de Vinicius Rossignol Felipe, “Quarto de Despejo” foi traduzido para 13 idiomas, ultrapassou a marca de 100 mil exemplares vendidos, foi elogiado por nomes como Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira e ajudou a levar luz às discussões políticas e sociais sobre as favelas brasileiras.

Carolina conseguiu algum dinheiro, suficiente para realizar seu grande sonho de sair da favela. Mas morreu ainda pobre, num pequeno sítio na periferia de São Paulo.

A escritora Carolina Maria de Jesus (Foto: Reprodução)
A escritora Carolina Maria de Jesus (Foto: Reprodução)

Que suas ideias tão lúcidas não morram tão cedo, para compensar todas aquelas noites em que ela “despertava e escrevia” (p. 65) – pelo menos até que não exista mais nenhuma pessoa vivendo em uma favela com tamanha precariedade ou ninguém passando fome.

 

Capa do livro Quarto de despejo - Diário de uma favelada, de Carolina Maria de JesusQuarto de despejo: diário de uma favelada
Carolina Maria de Jesus
Ed. Ática
199 páginas
R$ 67 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)

 

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

2 comments

  1. Excelente resenha. Só senti falta de uma explicação do ódio de Carolina Maria de Jesus a JK. A intenção talvez seja a de levar os curiosos à leitura desse importante livro da autora que também odiava morar numa favela de São Paulo. Aliás, motivos para ódio é o que mais existe hoje.

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