A noite em que vi o Brasil ganhar seu primeiro Oscar

Walter Salles e Fernanda Torres com a estatueta do Oscar pelo filme Ainda Estou Aqui.
Walter Salles e Fernanda Torres com a estatueta do Oscar pelo filme Ainda Estou Aqui.

Como já falei aqui no blog mil vezes, neste ano consegui ver 17 filmes indicados ao Oscar, teve muuuuuito filme bom, distribuí notas 9 a torto e a direito, mas só um deles recebeu nota 10 com louvor: “Ainda Estou Aqui“.

E não acho um filme automaticamente bom só por ser brasileiro. “O Menino e o Mundo“, por exemplo, indicado ao Oscar em 2016, recebeu minha nota 6.

Mas não é o caso de “Ainda Estou Aqui”. Este filme me arrebatou de verdade, como só os filmes nota 10 fazem. Saí do cinema impressionada com a história, as atuações (principalmente das duas Fernandas), o ritmo da narrativa, com tudo. O filme é tecnicamente perfeito. E é perfeito por colocar o dedo em uma ferida dos brasileiros, que vinha sendo escondida atrás de Band-Aids velhos há décadas.

Fernanda Torres na cena do filme "Ainda Estou Aqui" (2024). Na foto da direita, a Eunice Paiva de verdade, em 1996, aliviada por ter finalmente obtido o atestado de óbito de Rubens Paiva, assassinado durante a ditadura militar, em 1971.
Fernanda Torres na cena do filme “Ainda Estou Aqui” (2024). Na foto da direita, a Eunice Paiva de verdade, em 1996, aliviada por ter finalmente obtido o atestado de óbito de Rubens Paiva, assassinado durante a ditadura militar, em 1971.

Sim, ocorreu uma ditadura militar brutal no Brasil. Sim, este regime autoritário destruiu famílias inteiras. Sim, Rubens Paiva foi torturado, morto e seu corpo foi escondido para que sua família nunca pudesse enterrá-lo. E, sim, existiu uma mulher extraordinária chamada Eunice Paiva, que, como bem disse Walter Salles em seu discurso de vitória, decidiu não se dobrar e resistir.

“Ainda Estou Aqui” não deixa a gente esquecer esta história tão recente, e que os bolsonaristas querem que volte a vigorar no país, clamando por novos golpes de Estado e novas ditaduras militares. E escancara essa história para o mundo. Foi escolhido como um dos dez melhores filmes do ano e agora venceu o maior prêmio do cinema mundial como melhor filme internacional, batendo produções da França, Dinamarca, Letônia e do Irã.

Por tudo isso, fiquei imensamente feliz com o primeiro Oscar do Brasil. Não só por ter sido o primeiro Oscar do Brasil, mas por ter sido merecidíssimo, por ter sido para o melhor filme dos 17 candidatos ao Oscar que vi neste ano, por ter sido “Ainda Estou Aqui”.

Como diz o bordão de Fernanda Torres: “A vida presta“. Não deixemos que os fascistas nos façam esquecer disso.

Assista ao trailer do filme “Ainda Estou Aqui”

***

Metade das minhas torcidas levaram o prêmio do Oscar

Registrada minha felicidade pela vitória no Oscar, deixo agora registrado aqui o resultado do meu tradicional bolão do Oscar.

Como expliquei ontem, neste ano resolvi não apostar naqueles que eu achava que iam vencer em cada categoria, mas sim nos que levavam minha torcida. Por isso, é claro, coloquei “Ainda Estou Aqui” nas três categorias a que concorria, e coloquei também “Sing Sing” em duas, mesmo sabendo que tinham menos chances, pela lógica própria do prêmio.

Mas foi bom assistir ao Oscar como torcedora, e não como jornalista, pela primeira vez em tantos anos. Não levei o computador pra sala, fiquei feliz por metade da minha torcida ter levado os prêmios, lamentei os que perderam, mas não vi nenhuma grande injustiça nas escolhas. O maior vencedor da noite, que foi “Anora“, também é um filmaço nota 9.

Só lamentei a escolha de “Flow” como melhor animação (Robô Selvagem era bem melhor) e por Um Completo Desconhecido ter sido completamente deixado de fora.

Filmes com mais Oscars em 2025
Filme Estatuetas
Anora 5
O Brutalista 3
Wicked 2
Emilia Pérez 2
Duna: parte 2 2
Ainda estou aqui 1
A verdadeira dor 1
Conclave 1
A Substância 1
Flow 1

A lista de vencedores do Oscar 2025

Vejam, a seguir, meus acertos e meus erros neste ano em que preferi torcer do que realmente apostar (lembrando que deixei de fora cinco categorias em que eu não tinha visto parte dos concorrentes, como efeitos visuais, curtas e documentários):

Categoria Torci para Vencedor
Melhor ator Timothée Chalamet Adrien Brody
Ator coadjuvante Kieran Culkin Kieran Culkin
Atriz principal Fernanda Torres Mikey Madison
Atriz coadjuvante Zoe Saldaña Zoe Saldaña
Animação Robô Selvagem Flow
Fotografia O Brutalista O Brutalista
Direção Sean Baker (Anora) Sean Baker (Anora)
Montagem Conclave Anora
Melhor filme internacional Ainda Estou Aqui Ainda Estou Aqui
Maquiagem e cabelo A Substância A Substância
Trilha Sonora Conclave O Brutalista
Canção original Sing Sing Emilia Pérez
Direção de arte Wicked Wicked
Figurino Wicked Wicked
Som Um Completo Desconhecido Duna: parte 2
Roteiro Adaptado Sing Sing Conclave (que era minha opção antes de ver Sing Sing)
Roteiro Original Anora Anora
Melhor filme do ano Ainda Estou Aqui Anora
Melhor filme do ano In the Shadow of the Cypress
Documentário de Curta-Metragem The Only Girl in the Orchestra
Documentário No Other Land
Efeitos visuais Duna: parte 2
Curta-Metragem em Live-Action I’m not a Robot

Assista ao trailer do filme Anora:

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

5 comments

  1. A impressão que tenho é que o cinema brasileiro é isso, o saber contar uma história. Sem estardalhaços, explorando personagens. Glauber fazia isso, Cacá fazia isso…Não atoa gostamos tanto de crônicas na literatura. Tomara agora outras grandes histórias de personagens nacionais sejam tão bem contadas no cinema.

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  2. A impressão que tenho é que o cinema brasileiro é isso, o saber contar uma história. Sem estardalhaços, explorando personagens. Glauber fazia isso, Cacá fazia isso…Não atoa gostamos tanto de crônicas na literatura. Tomara agora outras grandes histórias de personagens nacionais sejam tão bem contadas no cinema.

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