Anora: leia minha resenha e veja o trailer do filme

Cena do filme Anora. Não se enganem, não é uma história de amor.
Cena do filme Anora. Não se enganem, não é uma história de amor.

Vale ver nos cinemas: Anora
2024 | 2h19 de duração | Classificação: 16 anos | nota 9

Anora” é um filme que pode ser dividido em três partes. Na primeira, é quase uma história de amor, um conto de fadas moderno, que remete a “Uma Linda Mulher”. A garota de programa que vive um romance com um jovem bilionário, se casa com ele, ganha muitos presentes, e as cenas que se sucedem rapidamente envolvem festas, música, drogas, sexo, mais festas, esbanjamento, aquele combo cheio de luzes e cores que significa, nos filmes americanos, “diversão”.

A segunda parte é quase uma comédia, em que os gângsteres russos remetem aos patetas dos pastelões, àqueles personagens mais atrapalhados, e o roteiro fica em aberto, em suspense, a gente querendo saber o que vai acontecer em seguida – que pode ser quase tudo. O filme pode dar muitas guinadas a partir de seu meio, e, com isso, as 2h19 de duração passam rapidamente.

E a parte final (pule este parágrafo se não quiser nenhum spoiler) é um drama puro. A ficha de Anora vai caindo. Não, ela não estava vivendo um conto de fadas. Não, a vida dela não mudou. Não, ela não se deu bem, não é a “garota de sorte”, não foi como em Pretty Woman. A última cena sacramenta essa noção de que este filme é, sem dúvida, um drama, e nos faz refletir muito tempo depois que ele já acabou.

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Para mim, esta é uma história sobre dignidade. Sobre uma mulher que, por ser profissional do sexo, é vista, por todos, como indigna de respeito. Mas que recolhe cada um de seus caquinhos em busca de sua dignidade.

O roteiro é excelente, assim como a rápida edição, que nos seguram na história do início ao fim. Ambos são mérito do diretor Sean Baker, que conseguiu a proeza, de pouquíssimos, de ser indicado a 4 Oscars de uma tacada só, pela direção, roteiro original, montagem e na categoria de melhor filme do ano – antes dele, só os irmãos Coen e Chloé Zhao já tinham conquistado esse feito, por “Onde os Fracos Não Têm Vez” e  Nomadland“. (Desta vez, portanto, Baker fez beeeeem melhor que em seu “Projeto Flórida“.)

“Anora” ainda concorre pela belíssima atuação de Mikey Madison, que vai disputar na categoria de melhor atriz com as também excelentes Fernanda Torres (vai, Nanda!) e Demi Moore. Aliás, sobre a atuação de Madison, Fernanda disse o seguinte, em seu já famoso vídeo da semana passada: “Quem viu Anora aqui? Tem que ver. Essa mulher tá INCRÍVEL! Incrível!”.

E há ainda a indicação a melhor ator coadjuvante para o russo Yura Borisov, que quase não diz nada no filme, mas se expressa maravilhosamente apenas com suas caras e bocas, com seu olhar cheio de empatia.

É um filme que funciona como uma espécie de fábula às avessas, um anti-conto de fadas, e que nos faz refletir sobre essas duas palavras que eu já trouxe ao texto: dignidade e empatia. Sobre, de um lado, um misto de sonhos, desejos e esperança e, de outro, a objetificação das mulheres, o poder irrefreável, a diversão tóxica.

Anora foi indicado a 6 Oscars em 2025:

E venceu estes 5 em destaque:

  1. melhor filme do ano
  2. melhor direção
  3. melhor atriz
  4. melhor ator coadjuvante
  5. melhor roteiro original
  6. melhor edição

Assista ao trailer do filme Anora:

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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