Os bons contos sem humor de Luis Fernando Verissimo

Luis Fernando Verissimo em clique no 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo (28/06/2018). Foto: Alice Vergueiro/Abraji
Luis Fernando Verissimo em clique no 13º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo (28/06/2018). Foto: Alice Vergueiro/Abraji

Peguei este livro de Verissimo para ler, na biblioteca, depois de ter me divertido com as crônicas de Antônio Prata. Eu quis me manter na mesma sintonia – dos textos curtos, ácidos, bem-humorados, por vezes disparatados.

Mas a verdade é que, dessas dez histórias que formam “Os últimos quartetos de Beethoven e outros contos“, só achei duas realmente muito boas, e elas nem eram de humor.

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O conto “A Mancha”, de 45 páginas, é o melhor do livro. Narra a história de Rogério, que foi torturado durante a ditadura militar, teve que se exilar e, no presente, já rico, acaba em um país artificial e em uma falsa paz, que o atormentam. Lembrar ou esquecer: o que é mais importante agora?

Qualquer semelhança com nosso Brasil de hoje não é mera coincidência. Ou melhor, duas décadas depois que o conto foi publicado (ele é de 2004), a verdade é que a paz do Brasil, falsa ou não, já foi para as cucuias há tempos. Pelo menos desde que o bolsonarismo se instaurou nos governos e nas famílias.

(Na época do livro quem defendia a ditadura ainda o fazia com certa vergonha ou cautela, dentro do armário. Hoje saem às ruas vestindo camisa escrito “Ustra vive” e balançam bandeiras ou faixas enormes defendendo o fechamento do Congresso, o fim do STF, a volta da tortura e outras aberrações. Em frente a quartéis.)

Outro conto bonito, bastante poético, é o que dá nome ao livro. Bem mais curtinho, fala sobre o reencontro de um homem com uma velha amiga, a Livia, que era a ídola da turma na adolescência. Aqui não temos falsa paz, mas falsa loucura. Ou falsa sanidade, dá no mesmo.

“Memórias” também é um bom conto. Um homem tendo um infarto, lutando para se lembrar de onde colocou o remédio, de onde colocou a chave do carro, e misturando todos os fragmentos de vida enjaulados no cérebro.

Como os outros, mostra o domínio excepcional que Verissimo tem da narrativa, sua capacidade de navegar pelos meandros difíceis do pensamento ou do diálogo, com naturalidade e fluidez, como se estivesse dentro da nossa cabeça. Para poucos.

E ainda temos “A mulher que caiu do céu” e “O Pôster”, que são contos leves, divertidos, engraçados.

Mas os demais são ruins, mesmo. “Bolero”, “Contículo”, “Obsessão” e “O expert” são bobos. Uma bobice que passa, ainda bem escrita, mas bobos. Já o conto “Lo” é terrível. Podem pular.

É como aquele livro “Tempo Aberto“, que resenhei há três meses: compensa ler por conta de dois ou três contos; se pular o pior, torna-se um bom livro. E, seja como for, a qualidade do texto de Verissimo salva: a gente percorre aquelas páginas todas, cheias de travessões, sem nem se dar conta.

Como diz a orelha, “mestre da narrativa curta”. Pena que nem sempre acerte no tema.

Capa do livro Os Últimos Quartetos de Beethoven, de Luis Fernando Verissimo.Os últimos quartetos de Beethoven
Luis Fernando Verissimo
Ed. Objetiva
162 páginas
R$ 20,90 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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