Peguei este livro de Verissimo para ler, na biblioteca, depois de ter me divertido com as crônicas de Antônio Prata. Eu quis me manter na mesma sintonia – dos textos curtos, ácidos, bem-humorados, por vezes disparatados.
Mas a verdade é que, dessas dez histórias que formam “Os últimos quartetos de Beethoven e outros contos“, só achei duas realmente muito boas, e elas nem eram de humor.
O conto “A Mancha”, de 45 páginas, é o melhor do livro. Narra a história de Rogério, que foi torturado durante a ditadura militar, teve que se exilar e, no presente, já rico, acaba em um país artificial e em uma falsa paz, que o atormentam. Lembrar ou esquecer: o que é mais importante agora?
Qualquer semelhança com nosso Brasil de hoje não é mera coincidência. Ou melhor, duas décadas depois que o conto foi publicado (ele é de 2004), a verdade é que a paz do Brasil, falsa ou não, já foi para as cucuias há tempos. Pelo menos desde que o bolsonarismo se instaurou nos governos e nas famílias.
(Na época do livro quem defendia a ditadura ainda o fazia com certa vergonha ou cautela, dentro do armário. Hoje saem às ruas vestindo camisa escrito “Ustra vive” e balançam bandeiras ou faixas enormes defendendo o fechamento do Congresso, o fim do STF, a volta da tortura e outras aberrações. Em frente a quartéis.)
Outro conto bonito, bastante poético, é o que dá nome ao livro. Bem mais curtinho, fala sobre o reencontro de um homem com uma velha amiga, a Livia, que era a ídola da turma na adolescência. Aqui não temos falsa paz, mas falsa loucura. Ou falsa sanidade, dá no mesmo.
“Memórias” também é um bom conto. Um homem tendo um infarto, lutando para se lembrar de onde colocou o remédio, de onde colocou a chave do carro, e misturando todos os fragmentos de vida enjaulados no cérebro.
Como os outros, mostra o domínio excepcional que Verissimo tem da narrativa, sua capacidade de navegar pelos meandros difíceis do pensamento ou do diálogo, com naturalidade e fluidez, como se estivesse dentro da nossa cabeça. Para poucos.
E ainda temos “A mulher que caiu do céu” e “O Pôster”, que são contos leves, divertidos, engraçados.
Mas os demais são ruins, mesmo. “Bolero”, “Contículo”, “Obsessão” e “O expert” são bobos. Uma bobice que passa, ainda bem escrita, mas bobos. Já o conto “Lo” é terrível. Podem pular.
É como aquele livro “Tempo Aberto“, que resenhei há três meses: compensa ler por conta de dois ou três contos; se pular o pior, torna-se um bom livro. E, seja como for, a qualidade do texto de Verissimo salva: a gente percorre aquelas páginas todas, cheias de travessões, sem nem se dar conta.
Como diz a orelha, “mestre da narrativa curta”. Pena que nem sempre acerte no tema.
Os últimos quartetos de Beethoven
Luis Fernando Verissimo
Ed. Objetiva
162 páginas
R$ 20,90 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)
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Visitinha inútil de Biden https://alemdofato.uai.com.br/economia/visitinha-inutil-de-biden/ 11 de novembro de 2024 – 13:27 *
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