Texto escrito por José de Souza Castro:
Antônio Delfim Netto morreu nesta-segunda-feira (12) em São Paulo, aos 96 anos, com a fama de ter sido o mais poderoso ministro da Fazenda da República brasileira. Foi o responsável pelo chamado “Milagre Econômico” da ditadura de 1964 e um dos signatários do AI-5, que endureceu ainda mais o regime militar.
- Leia também: Meu testemunho sobre o golpe militar, 60 anos
Sentia-se tão poderoso que, com seu corpanzil de gordo, ousou pisar em calos de graúdos generais que não o perdoaram. Para sobreviver politicamente, tornou-se também um dos maiores bajuladores da República.
Um dos generais que não gostavam de Delfim era o presidente da Sunab (Superintendência Nacional de Abastecimento), que tabelava os preços. Para tentar que a carne reaparecesse nos supermercados e açougues, o general Glauco Carvalho publicou portaria liberando seus preços, sem falar com o ministro antes. Vinte e quatro horas depois, a portaria foi anulada e o general, exonerado. Delfim tentava segurar a inflação em 12% ao ano em 1973.

Outro que trombou com o ministro foi o presidente da Petrobras, general Ernesto Geisel, que viria a ser presidente da República. Delfim tentou segurar os preços da estatal e perdeu o cargo. Teve que bajular Geisel, para conseguir um cargo de consolação, o de embaixador do Brasil em Paris.
Foi nessa época que fiquei sabendo de um dos efeitos da ação de Delfim Netto para manter a imprensa sob seu domínio. No começo da década de 1980, o correspondente do jornal “O Globo” na França era o jornalista Flamínio Fantini, meu contemporâneo na faculdade de jornalismo da UFMG. Eu conto no livro “Sucursal das Incertezas” que ele foi demitido por culpa de uma saborosa reportagem, em que contava detalhes do repasto do ministro Delfim Netto com alguns amigos e assessores, os delfim-boys, num dos mais caros restaurantes parisienses.
“Além de brindar os leitores com o cardápio selecionado por sua excelência, o repórter informou o preço de cada item consumido e o total da conta. O ministro pediu, e a cabeça de Flamínio foi-lhe oferecida numa bandeja”, escrevi.
Enquanto Delfim se esbaldava em Paris, o Brasil entrava de cabeça – à custa do estômago dos mais pobres – na grave crise econômica desencadeada pelos países exportadores de petróleo e pelos projetos megalomaníacos dos regimes militares, que endividaram fortemente o governo.

Aos economistas que criticavam as estatísticas do governo que “demonstravam” que tudo ia bem, Delfim Netto tinha uma resposta pronta para menosprezar os argumentos. Dizia, irônico: “Se colocar uma pessoa com a cabeça no forno com 72 graus centígrados e os pés na geladeira, com zero grau, essa pessoa terá temperatura média excelente”.
De tortura, ele entendia.

Paro por aqui, recomendando aos leitores que leiam o artigo que escreveu hoje no site “Folha de S.Paulo” o jornalista Elio Gaspari, autor de vários livros sobre a ditadura brasileira. Título do artigo: “Delfim Netto foi ministro da Fazenda mais poderoso da história republicana“.
São instrutivos também os comentários dos leitores, muitos que, como eu, viveram naquela época.

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