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‘Morte na Mesopotâmia’, de Agatha Christie, lido 85 anos depois

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ilustração na capa do livro ‘Morte na Mesopotâmia’, de Agatha Christie.

 

Enquanto a Luisiana, nos Estados Unidos, se prepara para mais um furacão, e somos ameaçados por um perigoso 7 de Setembro, resolvi escrever sobre “Morte na Mesopotâmia”. Um livro de Agatha Christie, publicado pela primeira vez em 1936, quando o mundo nem podia ainda imaginar o que seria um holocausto perpetrado por Hitler ao longo da 2ª Guerra Mundial, que só se iniciaria em 1939. Dezesseis anos antes do nascimento de Jair Bolsonaro, hoje um esforçado aluno do mestre nazista.

Talvez seja impróprio comparar o presidente brasileiro com o ditador alemão, em número de mortes. Por enquanto… Nesse livro de ficção policial morreram duas pessoas. E o assassino foi descoberto por Hercule Poirot. Acho que, no nosso caso, o detetive belga seria dispensável. Muitos podem nomeá-lo agora mesmo, sem esperar o fim da história.

Um fim surpreendente… No livro.

“Morte na Mesopotâmia” é o melhor livro que li dessa ilustre mestra do suspense. Truque usado por um dos precursores dos modernos livros policiais, Wilkie Collins, em “Pedra da Lua”, a autora fictícia de Agatha Christie chama-se Amy Leatheran, uma enfermeira londrina recém chegada a Bagdá.

Cidade que descreveu, em carta a uma amiga inglesa:

“A imundície e a bagunça de Bagdá, você precisaria ver para crer – sem a menor sombra do romantismo que a gente imagina depois das Mil e Uma Noites! Claro que à beira-rio é bonito, mas a cidade em si é simplesmente horrenda – não há nenhuma loja que se aproveite.”

Os preconceitos dessa enfermeira de 32 anos vão sendo despejados em pílulas, goela abaixo do leitor. Para ela, os nativos da antiga e orgulhosa capital da Mesopotâmia são indígenas. Parágrafo inesquecível:

“Há momentos em que, francamente, não sei aonde foram parar os bons princípios rígidos com que titia me educou. Era uma mulher profundamente religiosa, e muito exigente. Não havia nenhum de nossos vizinhos cujos defeitos ela não soubesse de cor e salteado”.

Isso em 1936. Lembra alguma coisa hoje? Apesar dos preconceitos, a enfermeira é muito divertida, ao contrário dos “profundamente religiosos” de hoje, como André Mendonça. Diverte também lembrar que toda aquela arrogância do colonizador britânico não demora a passar.

Impérios caem, como vai aprendendo no Afeganistão o colonizador americano. Sim, tudo passa. O tempo é o melhor dos mestres. Como constatou a enfermeira, já no fim do livro: “À medida que envelheço e vejo uma quantidade sempre maior de pessoas, tristezas, doenças e tudo o mais, fico cada vez com mais dó de todo mundo”.

Eu também, com mais do dobro da idade dela.

 

Morte na Mesopotâmia
Agatha Christie
L&PM, 2011
272 páginas
R$ 19,33

 

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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