‘Inacreditável’: uma minissérie sobre como perder a fé no ser humano e como recuperá-la

Vale a pena ver na Netflix: INACREDITÁVEL (Unbelievable)
Nota 9

Fazia um tempo que eu não via uma minissérie tão boa como esta “Inacreditável“.

Fã de “Law & Order SVU“, série que assisti ainda na era pré-Netflix, há uns dez anos, encontrei nesta minissérie o mesmo misto de suspense, drama e de reflexões sobre um assunto tão sério quanto a violência sexual contra as mulheres.

A personagem principal da trama é a jovem Marie, interpretada brilhantemente por Kaitlyn Dever, que chegou a ser indicada ao Globo de Ouro pelo papel. Ela sofre um abuso violento de seu estuprador, mas depois sofre muitos outros abusos, de incontáveis pessoas, inclusive daquelas que deveriam protegê-la.

As outras personagens principais são as detetives Karen Duvall (Merritt Wever) e Grace Rasmussen (a experiente Toni Collette). Ambas são como a Liv de Law & Order: corajosas, duronas, obstinadas com o trabalho, mas extremamente sensíveis com o que viveram as vítimas, empáticas com a situação delas, compreensivas. Bom seria se existissem mais detetives assim no mundo.

As histórias são contadas em oito capítulos, cada um com quase uma hora de duração, e alternam a experiência da vítima, Marie, com os trabalhos investigativos das detetives, que não estão apurando o crime sofrido por Marie, mas sim por outras mulheres. Ficamos toda a minissérie na expectativa de que, em algum momento, essas duas histórias se entrelacem.

O roteiro é maravilhoso. Fiquei tensa em vários momentos, pensativa em outros, chorei em alguns. As cenas mais brutais não são mostradas, somos poupados da sordidez, que apenas podemos imaginar. Em compensação, a provação passada por Marie logo após ser estuprada é mostrada em detalhes infinitesimais, clínicos mesmo, para nos fazer sentir, pelo menos em parte, o desconforto vivido pelas vítimas nessa jornada de terem que provar que foram mesmo vítimas, na esperança de que alguém seja punido.

Mas o que esta minissérie mais explicita é o quanto é fácil desacreditar uma mulher vítima de estupro. Como é fácil. O nome dessa minissérie, “Inacreditável”, é sobre isso, mas também sobre tantas outras coisas mostradas ali que são inacreditáveis. Mesmo sendo todas verossímeis, quando não verdadeiras. Neste texto de “Veja”, é possível ver que vários dos fatos contados na série aconteceram de verdade, com a Marie Adler da vida real. Inacreditável.

Também é sobre outro sentido da palavra “acreditar”. Em alguns momentos da série, as personagens falam de fé. Uma das detetives é bastante religiosa, enquanto a outra é descrente de tudo. E tem a fé no ser humano, na bondade das pessoas, no mundo — que tem que existir, ainda que minimamente, para que alguém queira continuar vivo depois de passar por um trauma desses.

Em última instância, esta é uma minissérie sobre como perder a fé no ser humano e como recuperá-la.

 

Assista ao trailer da minissérie:

 

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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