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A morte e a morte de João Camilo Penna

Texto escrito por José de Souza Castro:

Foto: Acervo fotográfico da Coleção Memória da ALMG

A imprensa deixou passar quase em branco a morte, aos 95 anos, na última sexta-feira, de João Camilo Penna, um mineiro de Corinto que se formou em engenharia pela UFMG em 1949 e que, por mais de meio século, exerceu vários cargos importantes. Entre eles, secretário da Fazenda de Minas, ministro das Minas e Energia, e presidente da Cemig e de Furnas. Tive a oportunidade de entrevistá-lo em todos esses cargos, como repórter do Jornal do Brasil.

Era uma fonte valiosa. Engenheiro refinado, administrador atento, fazia questão de pontuar seus discursos com citações de Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade ou qualquer outro romancista ou poeta mineiro importante. Teria sido um deles, se tivesse tempo para escrever livros. Preferia ler.

Sic transit gloria mundi – uma frase em latim que a gente aprendia nos cursos Ginasial e Clássico até meados do Século XX, e que terá servido de consolo a pessoas que experimentaram momentos de glória e os deixaram passar enquanto a velhice as relegava ao esquecimento. E à morte.

Eu não me esqueci do poderoso ministro das Minas e Energia no último governo da ditadura militar de 1964. Camilo Penna, que tinha uma casa a meio quarteirão da Praça da Liberdade, aproveitava sábados e domingos sem compromisso oficial para ir caminhando sozinho, em mangas de camisa, até a Livraria Itatiaia, na Rua da Bahia, para encontrar velhos amigos ou simplesmente folhear livros. Depois subia até o Edifício Maletta, para tomar um chopp no bar Pelicano, e continuar sua caminhada.

Descobri por acaso esse hábito dele e, quando estava de plantão, ia até lá na esperança de encontrar Camilo Penna. Com sorte, eu saía dali com uma boa entrevista. Sempre procurando não abusar da boa vontade do ministro, para não perder tão valiosa fonte.

Os mais jovens que nunca ouviram falar de João Camilo Penna podem conhecer um pouco de sua biografia neste arquivo da Fundação Getúlio Vargas.

Descendente de famílias tradicionais na política mineira – entre os quais se destacam o presidente Afonso Pena (1906-1909) e o primeiro governador mineiro na República, Cesário Alvim – Camilo Penna preferia manter-se longe da política nos anos da ditadura, mas não era fácil. Um dos líderes do golpe de 1964 em Minas, Aureliano Chaves, era seu amigo e influenciou na sua nomeação para a Cemig e o Ministério das Minas e Energia. Já no governo Sarney, Camilo Penna foi nomeado presidente de Furnas.

Nunca o ouvi fazendo apologia da “Revolução de 1964”, ao contrário de Aureliano Chaves e tantos outros. Pode ser que o fizesse entre amigos, mas não publicamente. Seria uma escorregadela imperdoável para um admirador de Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade…

Da citada biografia publicada pelo Centro de Documentação da FGV:

“Em agosto de 1984, renunciou à função de ministro. Alheio à sucessão presidencial que se iniciava, recusou-se a manifestar apoio ao candidato governista, Paulo Maluf, o que tornou inviável a sua permanência no cargo. Na carta de demissão que entregou a Figueiredo, afirmou que jamais em sua vida pública tomara parte em questões político-partidárias e que não via “razões suficientemente sólidas para mudar o [seu] modo de ser e de agir”. Substituído por Murilo Badaró em abril de 1985, já no governo de José Sarney, foi nomeado para a presidência de Furnas Centrais Elétricas.”

Quando escrevi uma biografia de Stefan Bogdan Salej, Camilo Penna se prontificou a fazer breve apresentação do livro, pois era amigo do ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg). E quando recebi exemplares da editora, levei um deles a Camilo Penna, que já então, com mais de 90 anos, morava num prédio de bairro tradicional de Belo Horizonte. Foi a última vez que conversei com ele. Mas não o esqueci.

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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