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‘A Vida Invisível’: o livro é infinitamente melhor que o filme (além de diferente)

Veja se estiver com tempo: A VIDA INVISÍVEL
Nota 5

Se você já tiver lido o livro de estreia de Martha Batalha, será absolutamente impossível ver “A Vida Invisível” e não querer compará-lo à obra na qual o filme se baseou. E muito provavelmente a comparação será frustrante.

O filme tem personagens com os mesmos nomes daquelas que constam no livro, mas com almas bastante diferentes. As histórias narradas lá e cá têm um ou outro ponto em comum, mas, de resto, são bem distintas. É normal uma adaptação cinematográfica retirar personagens e alterar algumas passagens pelo bem da fluidez ao longo de duas horas de cinema. Menos normal é mudarem completamente o começo, o meio e o fim de um livro que, diz-se, foi o ponto de partida para o roteiro.

Dois exemplos me incomodaram mais. O primeiro foi a própria alma empreendedora de Eurídice – sua sanha em encontrar um lugar no mundo, em trabalhar, em mostrar seu valor aos outros – ter sido reduzida apenas ao piano. O segundo foi que, consequentemente, o marido dela, Antenor, deixou de ser o sujeito tacanho, que sabotava todas as suas ideias e contribuía imensamente para sua invisibilização, e tornou-se apenas um bobão, na pele de Gregório Duvivier.

Por falar neste comediante, vale destacar que a linguagem do livro é leve e cheia de momentos de humor, ainda que as reflexões tragam dureza, tristeza e indignação. Já o filme não tem nem uma – nem uma sequer – cena com mais leveza, com mais humor. É só o drama, seco, arrastado, duríssimo, agravado por uma trilha sonora carregada de tensão.

O resultado disso é que lemos um livro e vemos outro filme. Sendo o primeiro absurdamente superior ao segundo. Mais rico, com histórias que se entrelaçam, personagens que surgem sem pedir licença. E com uma Eurídice infinitamente mais interessante, inteligente e cheia de potencialidades do que esta encarnada pela atriz Carol Duarte.

À esquerda, Julia Stockler, a Guida. Ao lado, Carol Duarte, a Eurídice. Ambas trintonas representando, nesta cena, duas adolescentes.

Aliás, um comentário sobre as atrizes. Na primeira metade do filme, elas despertam tão pouca empatia, que chega a ser sofrido transcorrer aqueles 70 minutos. Cheguei a consultar o relógio umas duas ou três vezes, coisa que nunca faço quando estou no cinema. E chega a ser meio ridículo ver as duas atrizes trintonas representando adolescentes. Aos poucos, a personagem de Guida vai gerando a simpatia/torcida que sentimos quando acompanhamos sua história no livro. Mérito da atriz Julia Stockler e da aparição da melhor personagem, a Filomena (que no livro ainda é, claro, mais rica que a interpretada pela atriz Bárbara Santos).

Já a Eurídice do filme, mais uma vez, vai só deixando a desejar perto do que sentimos por ela quando vai tentar virar cozinheira, costureira, escritora e tudo o mais que ela inventa, cheia de sangue nos olhos, na narrativa original de Martha Batalha. Acompanhada por um Antenor que simplesmente não faz sentido.

Já ouvi falar que quem não leu o livro está adorando o filme. Para mim, é impossível desvincular uma obra da outra, então não tenho como saber o que eu sentiria se tivesse visto o filme de Karim Aïnouz (“O Céu de Suely”) sem ter lido o livro de Martha Batalha antes. São histórias diferentes, apenas, sendo que uma põe a outra no chinelo.

O que segura a nota 5 do filme, para mim, é o final inventado, que acabou ficando pungente, emocionante, condizente com a história da Eurídice do livro, ainda que bem mais dramático do que o final escolhido por Batalha. E é Fernanda Montenegro interpretando ali, né, minha gente. Outro patamar.

Sinto muito que não tenha sido “Bacurau” a representar o cinema nacional no Oscar. Talvez o Brasil pudesse ter tido um representante na categoria de melhor filme estrangeiro, após um jejum de 20 anos. Com este filme, acabou ficando de fora da pré-seleção… Vida que segue. O que tenho a dizer a vocês é apenas isto: leiam o livro de Martha Batalha! Mas vejam o filme só se não tiverem lido o livro antes 😉

 

Assista ao trailer (ou não, porque ele tem MUITO spoiler):


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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

2 comentários em “‘A Vida Invisível’: o livro é infinitamente melhor que o filme (além de diferente) Deixe um comentário

  1. Oi Kika,
    Eu acabei de ver o filme e gostei bastante. Não li o livro, de todo modo. O filme tem umas lacunas, umas quebras, mas tem cenas muito bonitas, sobretudo no final.
    Fiquei com a sensação de tristeza e solidão, que foi o que o filme me passou… e achei bom isso, uma qualidade artística do filme.
    Obrigado pelo seu texto, me animou a ler o livro.

    Curtir

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