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‘Coringa’: um filme que nos deixa com duas perguntas atravessadas na garganta

Vale a pena assistir: CORINGA (Joker)
Nota 9

Hoje finalmente consegui assistir ao filme “Coringa”, forte candidato à principal estatueta do Oscar de 2020. Depois de ver o longa, reli o texto que o professor Douglas Garcia escreveu sobre ele aqui no blog. Eu não poderia traduzir melhor o que é essa experiência de ver “Coringa”, essa construção empática com um personagem tão tortuoso. Por isso, antes de mais nada, recomendo muitíssimo a leitura do post de Garcia, que foi a melhor resenha que li até o momento sobre “Coringa”.

Vou destacar um trecho:

“nós não observamos de longe um “vilão”, e sim entramos na casa e como que assimilamos algo do que é estar no corpo e na mente de uma pessoa/personagem frágil que busca integração. Talvez seja por isso que “Coringa” esteja provocando polêmica por onde passa. Não vou entrar nelas. A questão que se põe é: estamos preparados para sintonizar empaticamente com alguém como Arthur? Alguém que não sabe como se comunicar, que tem poucos recursos materiais, sociais e simbólicos?

Arthur tenta fazer rir, mas só consegue que os outros riam dele. O primeiro processo é ativo e integrador, o segundo é passivo e desintegrador. Arthur, assim, é visto pela maioria dos outros que o cercam como “Fleck”, mancha pequena e sem importância. Ele é assimilado aos montes de sacos de lixo e aos vagões sujos de trens que habitam a tela.”

Douglas Garcia não escreveu sobre o vilão de Batman, mas exclusivamente sobre o filme em questão. Não sei até que ponto ele é familiarizado com a história dos quadrinhos (ele poderá nos responder isso aqui nos comentários!), mas eu posso dizer a vocês que eu não sou nada familiarizada. Não sei nada sobre o Batman, o Coringa, as nuances de cada personagem. Por isso, assisti ao filme com olhos virgens e abertos apenas para o que o filme podia proporcionar.

E o que o filme proporcionou foi isso que Douglas destacou, essa empatia aparentemente impossível com um anti-herói. Porque ali só vamos reconhecer vagamente um vilão já imortalizado na pele de Jack Nicholson bem no fim do filme. Antes disso, o que temos é o personagem Arthur Fleck, um sujeito com graves problemas psiquiátricos, que luta para conseguir se sustentar e que precisa cuidar da mãe. Um homem, antes de mais nada, muito triste e muito solitário.

O filme é sobre esta construção do Coringa, esta existência anterior. E a tal empatia só pôde ser criada porque o intérprete desse personagem foi um sujeito brilhante como Joaquin Phoenix. Se o Oscar não for dele no ano que vem, desisto de escrever sobre filmes aqui no blog.

Senti falta de apenas dois aspectos do filme que não foram citados por Garcia em sua resenha. O da saúde mental, que, para mim, é fundamental para a história, especialmente em sua primeira metade. E a questão política, dos excluídos e empobrecidos fazendo motins pela cidade, a partir de uma provocação simplória que apareceu num discurso de um candidato. Quem não se lembra dos 20 centavos? Em tempos de América Latina em chamas, ver um filme como este nos faz, no mínimo, pensar: até quando os caras vão aguentar ficar percorrendo milhares de retrovisores por dia, colocando balinhas à venda por R$ 2 nas janelas – fechadas – dos carrões? Até quando os tantos outros vão aguentar fazer entregas descalços, em bicicletas raquéticas, em troca de algumas moedas por dia oferecidas pelos concorridos aplicativos?

Os excluídos, os que se confundem com sacos de lixo (como, de novo, escreveu o professor), os Flecks do mundo, invariavelmente, e pelos motivos mais simples, acabam perdendo a paciência e fazendo rebeliões e revoluções. E isso não é coisa de cinema: está na História, e com frequência maior do que gostaríamos de admitir.

Por fim, e aí talvez esteja contida toda a polêmica gerada pelo filme de Todd Phillips, deixo vocês com duas perguntinhas:

  1. Quantos milhares de Flecks existem por aí, nas ruas, sem acesso a um tratamento digno para seus problemas psiquiátricos, sem medicamentos, sem lugares onde possam ser mais bem cuidados, sem sequer serem devidamente notados e incluídos (até que seja tarde demais…)?
  2. Quão diferentes são nossas cidades da Gotham City retratada no filme, com suas greves, sujeiras, tensões, exclusões e violências, latentes ou não, e com suas populações marginalizadas, cada dia mais sufocadas pela retirada de direitos absolutamente básicos?

Você tem respostas para elas?

Assista ao trailer legendado do filme:

Leia também:

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

2 comentários em “‘Coringa’: um filme que nos deixa com duas perguntas atravessadas na garganta Deixe um comentário

  1. Oi Kika,
    Agradeço, antes de tudo, pelas suas palavras gentis sobre o meu texto. Eu não sou habituado ao universo dos quadrinhos, portanto, não sabia de detalhes da história do Coringa. Depois de ter escrito o texto, fiquei sabendo que uma das várias versões do personagem para os quadrinhos traz a história de Arthur Fleck, um aspirante à humorista. Fiquei curioso, mas não tive acesso ainda. Eu me identifiquei com os aspectos que você apontou agora no seu texto. Pensei até que podemos escrever alguma coisa em conjunto, sobre um filme (ainda não visto) que chamar a atenção dos dois, que tal? De todo modo, um aspecto do filme que me impressionou bastante e que eu não consegui inserir no meu texto foi a homenagem que ele faz aos filmes americanos dos anos setenta. Isso é muito bonito porque traz uma época do cinema em que são feitos filmes que lançam uma luz cheia de afeto e compaixão aos “perdedores” do sistema. Penso em filmes como “Harry e seu amigo tonto”, “Perdidos na noite”, e até mesmo “Os embalos de sábado à noite”. Enfim, é isso, um abraço do Douglas

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