Gigante desconhecido toma posse das águas minerais de Caxambu e Cambuquira

Parque das Águas de Caxambu

Texto escrito por José de Souza Castro:

O mundo dá voltas e vai deixando Minas Gerais um Estado cada vez mais pobre e sedento, sem a posse sequer de suas águas minerais. Numa de suas voltas, em setembro de 1979, seis meses depois da posse de Francelino Pereira no governo de Minas – o último nomeado pela ditadura – o presidente da Hidrominas, estatal dona das principais fontes minerais mineiras, foi à Europa para vender a de São Lourenço para a Perrier. Hoje Fernando Pimentel, de um partido que nasceu do combate à ditadura, transfere as estâncias de Caxambu e Cambuquira para uma empresa que nem é do setor e cujo capital social era de apenas cem mil reais.

É um negócio que deve engrossar a folha corrida de Pimentel na Justiça, tantas as irregularidades já apontadas e que, estranhamente, passa despercebida à imprensa mineira. Só soube lendo nesta semana o Segundo Blog do Ricardo. Pesquisei no Google e encontrei boa reportagem no Blog do Lana, mas quase nada mais [nota da Kika: o Intercept, em reportagem de Joana Suarez, e o Beltrano, portal de notícias de Minas, também noticiaram o negócio obscuro].

Lembrei-me da privatização feita no governo Francelino Pereira e fui atrás. Encontrei nota na Coluna do Zózimo, publicada pelo “Jornal do Brasil” no dia 25 de setembro de 1979, com o título “Gigante x gigante”. Dizia que se esboça “uma nova guerra de gigantes no mercado consumidor nacional, desta vez tendo como cenário o setor de águas minerais”. O governo de Minas estaria preocupado com o fato das águas de suas estâncias hidrominerais estarem desaparecendo pouco a pouco do mercado e, por isso, mandou à Europa o presidente da Hidrominas, Orlando Vaz Filho, com a missão de propor “que a Perrier passe a distribuir todas as águas minerais mineiras, única forma de enfrentar em igualdade de condição a Nestlé, que ameaça dominar o mercado com a Minalba”.

Outras voltas do mundo e a Nestlé adquiriu em 1992 a Perrier, então proprietária da Companhia de Águas de São Lourenço, e tornou-se também a responsável pelo parque. E no dia 28 de março último, anunciou a venda de sua divisão de águas no Brasil à Indaiá Minalba, do Grupo Edson Queiroz.

Qual terá sido o gigante que tomou posse agora das águas minerais e dos parques de Caxambu e Cambuquira? Ainda não se sabe. Parece evidente que o gigante utilizou uma empresa minúscula de Contagem como testa de ferro.

Recorro agora ao blog do Fernando Lana, que foi repórter da “Folha de S.Paulo” e editor do “Diário do Comércio”. Diz ele que, contrariando moradores de Caxambu e Cambuquira, o presidente da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), Marco Antônio Castelo Branco, homologou, “mesmo sob risco de incorrer em crime de improbidade administrativa, o pregão nº 7/17, declarando vencedora a empresa Maximus Prestação de Serviços, que ficará assim autorizada a explorar as fontes de água mineral naqueles municípios”. E acrescenta:

“A Maximus é uma empresa de pequeno porte envolvida em uma série de irregularidades trabalhistas onde tem atuado, incluindo, por exemplo, atrasos de pagamentos de salários a pessoal contratado para prestar serviços em hospital universitário de Mato Grosso do Sul.

Ela tem como única sócia uma mulher identificada como Silvana Torres Fernandes, que ingressou nos quadros da empresa em 29 de setembro de 2015, portanto há pouco mais de dois anos, em substituição a Adriano de Souza Louzada, que se retirou da sociedade nesta mesma data.

Por um desses caprichos do destino, desde o dia 30 de outubro daquele ano, um mês após o ingresso de Silvana Torres Fernandes, a empresa vem sendo administrada por Elton Sales, segundo instrumento de procuração pública. Elton é tido como diretor ou dono da Maximus, segundo se percebe mediante uma pesquisa simples na internet.

Curiosamente, ao mesmo tempo, não é possível encontrar na internet qualquer referência à sócia Silvana que, aparentemente, serve apenas como ‘laranja’ da Maximus para ocultar seus verdadeiros donos. Vale dizer, ainda, para alimentar ainda mais o mistério, que em todo o processo do pregão a Maximus foi representada por Elton Sales perante a Codemig, uma estatal que se supõe séria e acima de qualquer suspeita, considerada importante braço desenvolvimentista do governo mineiro.

Elton Sales é também o único sócio da empresa EMBRASER SERVIÇOS EIRELI – EPP, que possui dois registros no Cadastro Nacional de Empresas Inidôneas e Suspensas, estando impedido de participar de licitações e contratar com a administração pública até 16/01/2019, por descumprimento de contratos com a Infraero e a Cemig.

Diante de tantas áreas de sombras, cabe indagar como frente a uma situação onde o único sócio de uma empresa individual considerada inidônea pode atuar livremente em licitação de uma estatal como a Codemig, representando outra empresa individual, cujo sócio declarado oficialmente não atua de fato como na administração dessa segunda empresa. Há registros de várias ações trabalhistas envolvendo a Maximus, a Embraser e empresas de pessoas ligadas aos mesmos, a família Louzada.”

Meu amigo, que comentou alguns de meus artigos aqui, dá várias outras informações, mas já abusei muito do texto dele e convido o leitor a ler tudo no próprio Blog do Lana. E também, claro, no blog do professor Ricardo Faria, já citado, que vem se destacando, ultimamente, na defesa da vida na Terra.

Só para completar, o capital social da Maximus foi aumentado de R$ 100 mil para R$ 1,5 milhão, no dia 6 de fevereiro último. Mas sua sede social continuou na Rua Padre Rossini Cândido, 96, sala 416, no Centro de Contagem.

Começa a aparecer o dedo do gigante, que continua na sombra. Mas que poderá vir a assombrar, com as voltas que o mundo dá, o ainda governador Fernando Pimentel. Lembrando que a Codemig, responsável pela Cidade Administrativa que sujou mais um pouco a biografia de Aécio Neves, é a mesma que trabalha pela do atual governador. Ao que parece, só mudou a diretoria…

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