Contribuição de leitor: ‘O inferno NÃO são os outros’

Ninguém melhor que o professor de filosofia Douglas Garcia, já apresentado aqui no blog, para contextualizar para a gente uma frase de Sartre que sempre é tirada de seu contexto — inclusive por culpa da falta de criatividade dos redatores de jornais e revistas. Ele nos explica os conceitos de “empatia” e de “cuidado com o outro”, que aparecem na mesma peça de Sartre, mas são bem menos lembrados nesses tempos de “guerra de todos contra todos” em que vivemos.

Mais uma vez, seremos brindados com um pouco de filosofia aqui no blog! 😀 Vamos ao texto de Douglas Garcia:

sartre“Jean-Paul Sartre escreveu e levou ao palco em 1945 a peça “Entre quatro paredes”. Nela três personagens se encontram após a morte. Nenhum deles conhecera os outros em vida. Eles estão aparentemente presos em uma grande sala. Não há suplícios físicos, entidades demoníacas assustadoras, nada que se pareça com os castigos de um inferno. Cada personagem, contudo, sente-se profundamente incomodado com o olhar do outro, instância capaz de julgar, condenar, convidar à fusão ou impor a submissão. Dessa situação de fechamento e conflito surge a fala de um personagem que se tornou a mais famosa de todo o teatro de Sartre: “o inferno são os outros”.

Aqueles que apreciam o teatro, todavia, sabem que ele é a arte do conflito, na qual nenhuma posição parcial detém a verdade do todo levado à cena. Seria falso, assim, fazer do dito “o inferno são os outros” a síntese do teatro de Sartre. O mesmo personagem que o diz, diz também: “Nenhum de nós pode se salvar sozinho; ou nos perdemos de uma vez juntos, ou nos salvamos juntos”. É certo que essa frase não tem o mesmo impacto de “o inferno são os outros”, que parece reforçar uma disposição de espírito de nossa época. Valorizar o drama sartreano é pensar a peça na tensão entre a afirmação do ‘eu’ contra os outros e a descoberta de uma intersubjetividade originária que torna possível até mesmo a afirmação do ‘eu’.

A peça de Sartre lida com uma questão fundamental da filosofia, a da alteridade, isto é, com a modalidade de ser dos outros e sua relação com o ‘eu’. A esse respeito, vale a pena lembrar um texto de Leandro Konder: “Ninguém tem de si mesmo uma visão espontânea e maduramente crítica. São os outros que nos chamam decisivamente a atenção para nossas deficiências e nos obrigam a superar nossas automistificações. Precisamos aprender a digerir, no diálogo, eventualmente na discussão, na controvérsia, as observações que o interlocutor faz a nosso respeito e que nos desagradam, nos perturbam, mas podem estar nos ajudando a promover nossa difícil auto-renovação” (em Walter Benjamin: o marxismo da melancolia). Nesse sentido, o ‘eu’ precisa dos outros para poder realizar-se. Com quanto mais ‘outros’ o ‘eu’ entrar em diálogo, tanto mais virá a tornar-se individualidade diferenciada.

Qual é a razão para que a frase “o inferno são os outros” seja mais lembrada do que “nenhum de nós pode se salvar sozinho”? Um dos motivos é a voga ideológica do “darwinismo social”, a saber, de uma concepção da sociedade humana baseada em uma “guerra de todos contra todos” que supostamente seria a lei última e única vigente na natureza. A biologia contemporânea tratou de desmentir esta tese. Ela mostrou que as espécies animais que obtiveram maior sucesso evolutivo foram aquelas cujos membros desenvolveram um sentido aguçado para identificar as necessidades dos outros e agir cooperativamente para saná-las. A esse respeito, vale a pena ler “A era da empatia”, do primatólogo Frans de Waal.

Outro motivo para o “sucesso” do mote “o inferno são os outros” é a dificuldade real que envolve o ato de enxergar a si mesmo no “outro”. A ciência da biologia evolutiva mostra que os seres humanos são equipados com capacidades cognitivas de “leitura da mente” e ação cooperativa, bem como sentimentos de afinidade emocional e motivação para o cuidado dirigido a nossos semelhantes. O desenvolvimento dessas capacidades, contudo, é extremamente complexo e mesmo frágil, pois depende dos contextos de interação nos quais a representação da separação e diferença entre o “nós” do grupo e o “eles” de fora do grupo é construída e mantida. Quanto mais a distinção daqueles que não pertencem a um grupo é representada como diferença absoluta, menor a chance de um envolvimento racional e emocional dos indivíduos deste grupo com os indivíduos que não pertencem a ele. No limite, aqueles que são “de fora” passam a ser representados como não-humanos.

Há certa tendência na filosofia moral contemporânea em pensar em continuidade, não em conflito, entre os sentimentos que nos inclinam à cooperação e a nossa capacidade racional de agir com base em princípios de razão. Em outras palavras, “o inferno são os outros” não representa um destino, mas uma disposição restrita, surgida a partir de uma rede mais originária de interdependência e cuidado, que possibilitou a formação da espécie humana e o seu caminho histórico que incluiu a construção de instituições guiadas idealmente por imperativos de universalização de normas. Empatia e razão se completam. Parafraseando Kant, “empatia sem razão é cega, razão sem empatia é vazia”.

O critério moral da empatia surge a partir do reconhecimento de capacidades reais, mostradas na experiência prática. A psicóloga americana Carol Gilligan teve um importante papel no reconhecimento do cuidado com o outro concreto, individual e insubstituível como um motivo e princípio moral consistente. Seus estudos reunidos no livro “Uma voz diferente” mostram a ação do cuidado com o outro como critério moral presente na prática da resolução de dilemas morais em crianças e adolescentes. A partir do trabalho pioneiro de Gilligan, a filosofia moral contemporânea passou a reavaliar o primado dos princípios universais abstratos, como os de conflitos de direitos, para a compreensão dos problemas morais em toda a sua complexidade. A perspectiva do cuidado aparece como mais sensível à gênese dos conflitos, às necessidades individuais das pessoas envolvidas e ao propósito de manter as relações, favorecendo os aspectos de cuidado já presentes.

Ao cabo, “ou nos perdemos de uma vez juntos, ou nos salvamos juntos” é uma fala que representa bem melhor o espírito da filosofia de Sartre. E também a realidade da evolução da espécie humana.”

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