Cuba, Obama e a audácia da esperança

Obama e Raul Castro fizeram anúncio simultaneamente. Fotos: AFP

Obama e Raul Castro fizeram anúncio simultaneamente. Fotos: AFP

Texto escrito por José de Souza Castro:

Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos em novembro de 2008. Dois anos antes, foi lançado pela Crown Publishers, de Nova York, seu livro “The Audacity of Hope” (no Brasil, “A Audácia da Esperança”), para lastrear a campanha eleitoral do então senador democrata pelo Estado de Illinois que sonhava ser o primeiro negro a presidir seu país. Em suas quase 400 páginas, o livro trata de muitos problemas, mas nada fala sobre Cuba, uma ilha do Caribe com 11 milhões de habitantes, castigada pelos Estados Unidos desde a revolução vitoriosa liderada por Fidel Castro em 1959.

Uma revolução contra um cruel regime ditatorial de Fulgêncio Batista. Não tinha inspiração comunista, mas foi lançada nos braços da União Soviética, em plena Guerra Fria, para que os cubanos que não haviam fugido para Miami pudessem sobreviver, vítimas de um cruel embargo econômico imposto pela nação mais poderosa da terra. E que já dura 53 anos.

Na quarta-feira, Obama surpreendeu o mundo ao anunciar substanciais mudanças para normalizar as relações com Cuba, uma ação audaciosa para pôr fim a um dos mais mal orientados (“misguided”) capítulos na política exterior americana, como reconhece o “New York Times” em editorial.

Misguided? É pouco, tendo em vista o que escreveu Janio de Freitas, em sua coluna das quintas-feiras na “Folha de S. Paulo”: “Os 53 anos do bloqueio americano a Cuba não foram ao regime comunista cubano. Foram a milhões de crianças, e a milhões de mulheres, e a milhões de homens, que compuseram na infância, na juventude, como adultos e como velhos as sucessivas gerações submetidas a mais de meio século do flagelo inútil de carências terríveis”. Íntegra AQUI.

Eu era um jovem universitário quando li, entre outros livros de Sartre, “Furacão sobre Cuba”, publicado no Brasil pela Editora do Autor. É um relato entusiasmado do que o filósofo francês e sua mulher Simone de Beauvoir viram na ilha, entre fevereiro e março de 1960. O livro publica também depoimentos de Rubem Braga e Fernando Sabino sobre suas próprias viagens a Cuba.

O livro era um contraponto interessante a tudo que se lia em revistas e jornais brasileiros sobre Cuba. Todos esquecidos dos horrores da ditadura Fulgêncio Batista, derrubada pela revolução. Nesse meio século, pouco mudou do que se lê por aqui, com raros interregnos, como a série de reportagens feitas por Fernando Morais em 1975 que deu origem ao livro “A Ilha”. Entrevistado no mesmo dia do anúncio de Obama pelo jornal paulista, Morais comemorou: “Não é só uma frase de efeito, mas a Guerra Fria acabou hoje”. Em 2011, ele havia publicado novo livro sobre Cuba, intitulado “Os Últimos Soldados da Guerra Fria” – uma referência aos cinco cubanos que estavam presos nos EUA sob a acusação de espionagem.

Em seu editorial, o NYT afirma que, como parte das negociações secretas que se desenvolveram nos últimos meses entre Cuba e EUA, o governo cubano libertou um espião norte-americano que estava preso havia quase 20 anos e um empresário norte-americano, Alan Gross, preso em Havana em 2009. Já o governo Obama libertou três espiões cubanos que ficaram presos por mais de 13 anos. O que terá acontecido com os outros dois?

De qualquer forma, a troca de prisioneiros pavimentou o caminho para uma revisão política que poderia se tornar o principal legado da política externa de Obama, afirma o editorial do mais importante jornal norte-americano. Que adverte, no entanto, que o Congresso provavelmente não dará, tão cedo, passos complementares rumo a uma relação mais saudável com Cuba.

Como se sabe, o Partido Democrata, de Obama, perdeu o controle das duas casas do Congresso dos Estados Unidos, para o Partido Republicano, historicamente inimigo de Cuba, desde que seus dirigentes desapropriaram propriedades agrícolas de norte-americanos e fecharam os cassinos, boates e prostíbulos pertencentes à Máfia dos Estados Unidos, doadora da campanha eleitoral de John Kennedy. Que só não derrubou Fidel Castro por causa do fracasso da invasão na Baía dos Porcos, em abril de 1961.

É cedo para comemorar o anúncio de Obama, que teria as bênçãos do Papa Francisco.

Lembre-se que em janeiro de 1998 o papa João Paulo II, que muito havia contribuído para o fim do comunismo na Rússia e da União Soviética, visitou Cuba e se encontrou com Fidel Castro. Bill Clinton, do Partido Democrata, presidia os Estados Unidos. E muito se falou, na época, do fim do embargo e do reatamento das relações diplomáticas com Havana, como agora. Em editorial, no dia 16 de fevereiro de 1998, a “Folha de S. Paulo” citou o chanceler britânico Robin Cook, que havia condenado o bloqueio econômico imposto à ilha, e concluiu: “A nova política de Fidel Castro começa a dar frutos e, se incrementada, pode representar a única oportunidade do líder cubano de dar uma sobrevida ao seu regime exausto.”

Quase 16 anos se passaram. Fidel Castro ainda não morreu, seu irmão Raúl assumiu o poder, e o bloqueio econômico por parte dos Estados Unidos permaneceu. E o livro de Obama, oito anos após sua publicação, mal serve como citação para os futuros historiadores, malsucedidas que têm sido aquelas suas audazes esperanças de fazer com que seu país pudesse ainda tornar o mundo menos injusto e belicoso.

De qualquer modo, vale torcer para que, desta vez, Obama tenha êxito. Para felicidade de Obama e da Construtora Odebrecht, que conseguiu do governo brasileiro, a partir de 2009, que o BNDES desembolsasse muito dinheiro, concedendo crédito para o governo cubano comprar de fornecedores brasileiros de bens e serviços. Cito mais uma vez a “Folha de S. Paulo”:

“O maior símbolo da aposta é o porto de Mariel, a 45 km de Havana. Inaugurado em janeiro, foi um projeto da Odebrecht e recebeu financiamento de US$ 800 milhões. Mas Mariel é apenas a parte mais vistosa da investida do Brasil. São mais de 300 as empresas brasileiras que têm negócios ou se fixaram em Cuba. Grande parte usa recursos do Banco do Brasil ou BNDES. Muitas são fornecedoras do porto. Em Cuba, a Odebrecht também trabalha na ampliação do aeroporto Jose Martí, em Havana, e tem um projeto no setor sucroalcooleiro.”

É quase um consenso entre analistas (leia AQUI, AQUI e AQUI) que o Brasil será um grande beneficiado por esta reaproximação entre Cuba e Estados Unidos justamente por causa do porto de Mariel, tão duramente criticado pela campanha tucana durante as eleições deste ano. Esqueça-se o comunismo. Como disse o marqueteiro político norte-americano James Carville, durante a campanha de Bill Clinton à presidência dos Estados Unidos, em 1992: “É a economia, estúpido!”

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Um comentário sobre “Cuba, Obama e a audácia da esperança

  1. A melhor análise que li até agora sobre o reatamento diplomático Cuba/Estados Unidos está na Carta Maior, assinada por Saul Leblon, cuja íntegra pode ser lida aqui: http://cartamaior.com.br/?/Editorial/Cuba-ainda-tem-algo-a-dizer-ao-Brasil/32491

    Em agosto deste ano, diz Leblon, “a revista New Left Review arrolou dados interessantes sobre a resiliência da frágil sociedade cubana diante da dupla adversidade imposta pelo embargo americano e o fim do apoio russo, após o esfarelamento do bloco comunista”. Leblon destaca os seguintes tópicos sobre o momento mais crítico dessa caminhada e das lições atuais que ela consagrou:

    “1. (ao perder o apoio russo nos anos 90) e diante da ‘teimosa recusa’ em embarcar em um processo de liberalização e privatização, a “hora final” de Fidel Castro parecia, finalmente, ter chegado;

    2.Cuba enfrentou o pior choque exógeno de qualquer um dos membros do bloco soviético, agravado pelo saldo do longo embargo comercial norte-americano;

    3.A dramática recessão iniciada em 1990 exigiria uma década para restaurar a renda real per capita anterior à derrocada do mundo comunista;

    4. Sugestivamente, porém, Cuba saiu-se melhor em termos de resultados sociais, comparada às economias do bloco comunistas atingidas pela mesma borrasca, mas ancoradas em uma base econômica menos vulnerável;

    5. A taxa de mortalidade infantil em Cuba, em 1990, foi de 11 por mil, já muito melhor do que a média no leste europeu; em 2000 ficaria ainda abaixo disso, apenas 6 por mil, uma melhora mais rápida do que a verificada em muitos países da Europa Central que haviam aderido à União Europeia;

    6.Hoje, a taxa de mortalidade infantil em Cuba é de 5 por mil ; um desempenho superior ao dos EUA, segundo a ONU, e muito acima da média latino-americana.

    7.Não só. A expectativa de vida da população cubana aumentou de 74 para 78 anos na década de 90, mesmo com a ligeira alta das taxas de mortalidade entre grupos vulneráveis nos anos mais difíceis.

    8.Hoje, após 53 nos de embargo e 24 de fim do apoio russo, a ilha ostenta uma das expectativas de vida mais altas do antigo bloco soviético e de toda a América Latina.

    9.Não se subestime as terríveis privações, o custo humano, econômico e político cumulativos. A solitária busca de uma luz em um túnel claustrofóbico, década após década, teve um preço alto.

    10. A superlativa dependência da economia cubana em relação às exportações de açúcar para a Rússia era proporcional ao estrangulamento da estrutura produtiva cubana decorrente do bloqueio norte-americano.

    11. A conta só fechava graças a uma cotação preferencial paga pelo Kremlin: uma libra de açúcar enviada à Rússia gerava US$ 0,42 em receitas a Havana; cinco vezes a cotação mundial do produto (US$ 0,09);

    12. Até a derrocada do bloco comunista, as importações cubanas equivaliam a 40% do PIB; delas dependiam 50% do abastecimento alimentar da população e mais de 90% do petróleo consumido;

    13. Mesmo com o permanente racionamento de tudo, de papel higiênico à energia elétrica, o déficit comercial de US $ 3 bilhões tinha que ser refinanciado generosamente pela União Soviética;

    14. Essa rede de segurança se rompeu abruptamente em janeiro de 1990 e sumiu por completo há 23 anos. As receitas propiciadas pelo açúcar cairiam em 79%: de US $ 5,4 bilhões para US $ 1,2 bilhão. As fontes de financiamento externo que mitigavam o embargo americano evaporaram.

    15.Washington viu aí a oportunidade de bater o último prego no caixão de Havana. As sanções e represálias comerciais e financeiras contra países e instituições que facilitassem o acesso de Cuba ao crédito comercial foram acirradas. Deu certo: enquanto nos países do leste europeu, a transição pós-Muro (1991-1996) amparou-se em um fluxo de crédito externo da ordem de US$ 112 dólares per capita/ano, em Cuba esse valor foi de US$ 26 dólares per capita/ano.

    16. O resultado foi um dramático cavalo de pau no comércio exterior: Cuba caiu de uma das taxas de importações mais altas do bloco comunista (de 40% do PIB), para uma das mais baixas (15% do PIB). Todas as tentativas de Havana de diversificar e ampliar seu leque de exportações foram inviabilizadas pelo embargo norte-americano.

    Alguma surpresa pela gratidão emocionada de Fidel em relação a Chávez, que por anos a fio garantiu um fluxo de petróleo à ilha, na base do escambo, em troca de serviços médicos e sociais?

    17. Ainda assim, a penúria foi de tal ordem, que o manejo puro e simples do racionamento não explica a sobrevivência do regime até a última quarta-feira (17/12) quando Obama e Raúl Castro anunciaram o reatamento das relações diplomáticas.

    18. Quando o ferramental econômico já não respondia mais e patinava em círculos, Havana viu-se diante de duas escolhas: render-se ao lacto purga ortodoxo e rifar a ilha numa apoteótica rendição capitalista, ou apostar no seu derradeiro trunfo: a resposta coletiva liderada pelo Estado, ancorada em uma longa tradição de planejamento, mobilizações de massa, debate popular e participação das bases nas tarefas nacionais.

    19. A opção escolhida instalou uma rotina de prontidão na ilha, como se a população vivesse permanentemente na antessala de uma catástrofe natural em marcha.

    20. Cortes deliberados em serviços essenciais treinavam a sociedade para a defesa civil em mobilizações coordenadas envolvendo fábricas, escritórios, residências, escolas, hospitais.

    21. A segurança alimentar básica foi planejada com disciplina férrea e mantida em condições de escassez extrema.

    Cuba soçobrou, acumulou recuos.

    O regime recorreu às forças extremas de sua organização política e social para enfrentar restrições equivalentes às de uma guerra, que se estendeu por meio século, a mais longa de que se tem notícia no mundo moderno.

    A sociedade cubana não se desmanchou, nem se rendeu.

    É o que nos mostram as pinceladas rápidas extraídas da New Left”.

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