Brinquem, crianças

Crianças de todos os cantos da cidade brincam no Parque Ibirapuera, num domingo de sol. (Foto: CMC)

Após escrever o post de ontem, em que eu relembrava minhas brincadeiras solitárias quando criança, descobri um texto que eu havia escrito em 2009 e publicado na revista digital NovaE (essa revista premiada, do Manoel Fernandes, reproduziu os posts que eu e meu pai escrevíamos no Tamos com Raiva entre julho de 2007 e março de 2010*).

Nele, conto que passei uns dias com as crianças da periferia de São Paulo e aprendi, com elas, como são as brincadeiras de hoje — que muito me surpreenderam.

Acho que vale a pena dividir essa descoberta de novo:

As crianças dizem muito do tempo em que vivemos.
Estive durante algumas manhãs com crianças de 6 a 11 anos da periferia de São Paulo. Queria ouvi-las sobre um tema agradável: brincadeiras. Queria saber como gostam de brincar de todas aquelas invenções lúdicas que encheram minha própria infância: palmas, esconde-esconde, pega-pega, elástico, corda.
Mas elas contaram muito mais.
***
Quando eu era criança, adorava brincar de bater palmas. Era uma brincadeira sem perdedores, que só terminava quando a música acabava. A música era alguma coisa entre a incongruência e a inocência: “Ba-ba-lu, Babalu é Califórnia, Califórnia é Babalu…”. Nunca entendi essa letra.
As três meninas de 10 anos que batem palmas para eu ver como fazem, entoam, em vez disso, um funk. Entremeando as palmas, rebolam. A letra da música é uma versão de um clássico do folclore: “Se esta rua fosse minha (ai, mariquinha) eu mandava ladrilhar (re-bo-lar) com pedrinhas de brilhante (di-a-man-te) só pro meu amor passar (re-que-brar)”.
Antes do refrão, a letra remete à realidade das Casas Bahia: “Va-mos com-prar (disque-lá, disque-lá) na pres-ta-ção (cinco vezes no cartão)”. Acho que é uma letra muito mais inteligente que o Babalu e a Califórnia.
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Um dos meninos adora soltar pipas. “Só lá na laje, que não tem fio elétrico”. Ele mesmo monta os papagaios: cinco varetas, papel, cola, tinta, e cerol. Ele mesmo cozinha o cerol. “Na panela velha, senão a mãe bate”. A maior diversão é cortar a rabiola das pipas dos amigos e pegá-las para si. “Só não brinca com cerol quando a mãe é muito brava e não deixa”.
Mas isso deve ser a maior diversão de todas as crianças de todas as gerações de todas as regiões do mundo. Menos quando apanha da mãe.
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Muitas daquelas crianças moram com avós, tios, irmãos. Só com a mãe, só com o pai. Pergunto-me se é um retrato parecido com o das famílias de camadas mais ricas. Se não é, por quê.
“Ela apanha do pai, tia”, aponta uma menininha de nariz escorrendo. A que apanha não diz nada, mas não parece mais triste ou abatida. É como se a colega tivesse dito: “Ela não come verdura, tia”.
Muitas daquelas crianças trabalhavam nos semáforos recolhendo dinheiro para os “responsáveis”. Pode chegar a R$ 800 por mês, o que é uma renda extra que muita família não pode se dar ao luxo de perder. Mas as famílias daquelas centenas de crianças foram convencidas pela Casa do Zezinho a deixar que brinquem em vez de trabalhar, e estudem no resto do dia. Serão crianças muito melhores brincando do que pedindo esmola no farol, ouvem. Eu não discordo, e aposto que a linda menina que apanha do pai também não.
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E assim foram surgindo as brincadeiras, uma a uma, coincidindo com as que eu brincava na escola pública incrustada num bairro nobre de Belo Horizonte. Queimada, estátua (“duro ou mole”), corre-cotia, bolinha de gude, tapão, mãe da rua, escravos de Jó, amarelinha.
Já não há pião, Maria viola, bente-altas, rouba-bandeira e outras da geração do menino maluquinho. Mas a minha geração ainda está salva.
***
Até que chega polícia-e-ladrão. Eu adorava, brincava praticamente todos os dias na escola. Um grupo de umas dez crianças. Metade era polícia, metade era ladrão. Policiais corriam atrás dos ladrões, que fugiam. Se conseguissem pegá-los, metiam-nos numa prisão – da qual sempre podiam fugir, caso algum bandido camarada passasse a barreira da carceragem.
Eu sempre preferia ser o bandido, porque, como fora do faz-de-conta, fugir da cadeia era moleza. (Além disso, policiais nunca me inspiraram muita confiança.)
O menino de 9 anos que brinca de polícia e ladrão prefere ser a polícia. A polícia, nas regras dele, pode prender o ladrão e sentá-lo numa cadeira elétrica (qualquer banquinho serve). Assim, ladrão nenhum sai com vida da prisão – entrou, vira churrasquinho. Por outro lado, se o ladrão, munido de uma “bazuca, ou metralhadora” (bolinhas de papel), atirar na polícia antes, sua pele estará salva.
Peço um desenho da brincadeira e ele faz um menino atirando no outro, que cai, respingando sangue. Fico impressionada com a violência, nos dias de hoje, daquela minha brincadeira favorita: “Mas todo mundo brinca assim, ou você que inventou desse jeito?”. “Todo mundo, tia”. As crianças em volta acenam, confirmando. “É que no meu polícia-e-ladrão não tinha nem cadeira elétrica, nem bazuca”, defendo. Ele arregala os olhos: “Não tinha? Então como conseguiam brincar?!”
***
Quase todas as crianças, como em qualquer lugar do planeta, são lindas, alegres, vivazes, espertas. Um desses garotinhos lindos, de 7 anos, parece mais quieto que os colegas. Senta-se ao meu lado, tímido, e conta que gosta mesmo é de brincar de “pobres e ricos”, com seu irmão.
É assim, tia: “A gente sobe num barco (a cama), levando um moooonte de comidas (do faz-de-conta), e navega pelo mundo. Aí um dia a gente chega em uma cidade e fica rico”. “Mas fica rico como?” “Fica rico na cidade, tia (olha como se fosse a coisa mais óbvia do mundo).” “E depois?”. “Depois a gente volta pro barco e vira pobre de novo”.
Ele não diz isso com qualquer resquício de tristeza – mas tampouco de resignação, que não cabe naquele rostinho. Fala apenas com naturalidade. E ele adora brincar de ricos e pobres, porque, depois de navegar abarrotado de comidas, chega a uma cidade maravilhosa e, num passe de mágica, fica rico. Mesmo que o encanto dure pouco, e ele volte a ser pobre de novo, aquela é sua brincadeira favorita.
E eu queria ser uma fada madrinha.

 

* Escrevi outros textos de que gostei bastante, naqueles tempos de Tamos com Raiva, que foram reproduzidos pela NovaE. Ao todo, foram pelo menos 52. Alguns podem ser lidos AQUI (veja no pé do texto). O que deu mais repercussão foi sobre o então procurador geral de justiça de Minas. Também cobrimos um arrombamento que aconteceu no “Novo Jornal”. Demos vários detalhes do escândalo do Zeca do PT. E outros tantos sobre a gestão de Aécio Neves. Enfim, meu negócio nunca foi defender nenhum partido. Sempre fui e sempre serei apartidária. E esse foi um dos motivos que me levaram a deixar a NovaE, quando a revista passou a ficar lulista demais. Mas foi uma experiência importante na minha vida, que deixou muitos registros legais.


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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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