
Eu sempre achei que minha memória fosse ruim, mas nada se compara à memória coletiva.
As pessoas se esqueceram das acusações que pesaram sobre Collor, ele logo foi se elegendo de novo e hoje é senador por Alagoas. Com Demóstenes, não demorará a acontecer o mesmo. Lula se esqueceu que ficou do fim dos anos 70 aos anos 90 do lado radicalmente oposto ao de Paulo Maluf, e correu atrás de seu apoio político por Dilma e agora por Fernando Haddad. Maluf conta tanto com a desmemória coletiva que até faz piada: “Perto de Lula, sou comunista”. Talvez não seja tão engraçado assim, já que Lula, antes, se juntara ao próprio Collor, a Renan Calheiros, ACM e José Sarney. Rá!
Eu poderia ficar o resto da vida dando exemplos de como a memória das pessoas é ainda mais seletiva quando se trata de política. Não são só os políticos que, sem muito esforço, esquecem antigas rivalidades em nome de alianças e tempos de televisão. Os eleitores também esquecem canalhices passadas e votam de novo no mesmo.
Mas pior ainda é quando, além de esquecerem, invertem tudo. O nazista fanático se torna um herói da resistência antinazista, como no filme. Ou o defensor ferrenho da ditadura militar brasileira vira um protetor de jovens torturados, um defensor “da liberdade e dos direitos individuais”. Um sujeito tão santo que fez com que o próprio Espírito Santo, travestido de pomba, pousasse em seu túmulo, na falta de lugar melhor para se refugir da multidão e das bravatas.
Sim, estou falando de dom Eugênio Sales. Quando ele morreu, muita gente se pôs a escrever sobre como ele tinha sido um senhor incrível, um protetor dos jovens perseguidos pela ditadura e o escambau. Eu nem estava nascida na época da ditadura militar. Dependo da memória de pessoas que não se submetem à amnésia coletiva, como a do meu pai, para saber que, na verdade, dom Eugênio não só apoiava a ditadura militar, como declarava abertamente seu apoio, por meio de artigos nos dois jornais mais influentes da época, JB e O Globo.
Ao menos um escreveu para fazer um justo obituário, que certamente não desagradou ao espírito do religioso. Vale ler até o fim, AQUI.





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