O dia entre o mau humor e a felicidade simples

Um cachorro encontrado na rua. (Foto: CMC)

Estamos doando as roupas da minha avó, recém-morta, mas eu não parecia ter 11 anos, e sim algo próximo dos atuais 26. Encho sacolas e sacolas, como sempre faço quando separo minhas roupas para doação, e estou com a minha mãe, que não cria objeções.

Num sítio.

E aparece um cachorro, acho que alguém deu de presente a outro alguém. É grande, forte. Brinca comigo, lambe meu pescoço, pula até minha orelha.

De repente, do nada, morde minha mão. Com força, muita força. Nada que eu faça consegue tirar minha mão dali e vejo que estou perdendo ela. E se ele tivesse mordido assim meu pescoço, logo antes, eu já estaria morta… Grito, pedindo ajuda, mas meu cunhado, que está próximo, olha paralisado de pavor para o cachorro e a mão. Já não a sinto mais.

Acordo com as batidas aceleradíssimas do meu coração. Ainda são 7h30, em dia de folga. Dorme mais, Cris, tá cedo, hoje você pode dormir bem mais.

O cachorro não me sai da cabeça. Não é a primeira vez que sonho com ataques de cachorros, mas em todos os outros sonhos eu pego o bicho com as duas mãos, abrindo a boca em um V larguíssimo, e espatifo sua cabeça ao meio, com um estalido seco, como se estivesse quebrando um tronco. Nunca entendi porque tenho esses sonhos cruéis com cães, já que os adoro, não tenho medo de cachorro e já tive vários em casa. Mistérios dos sonhos.

Quando consigo voltar a dormir, logo sou interrompida pelo bate-estaca de uma obra no apartamento de cima. Tum-tum-tum-tum. Desta vez não é meu coração, está alto demais.

Desisto, acordo, nariz escorrendo. Reparo, só agora, que minha garganta está bloqueada e arranhando. Ah não, gripada de novo? Ninguém merece.

Espio o dia na janela, o dia de folga. Cinza. Cinzíssima. Daqueles dias feios que me fez apelidar esta cidade de Terra Cinza. Já era a ideia de tomar um solzinho hoje.

Estou mal-humorada. É difícil eu estar mal-humorada, assim, do nada, mesmo de manhã, mas o mix pesadelo + obra + gripe + dia feio me deixou assim.

Perco um tempão no computador, fazendo coisas inúteis. Inúteis como olhar quanto é uma passagem para Buenos Aires, porque quero matar minha curiosidade. Mas o bate-volta mais barato que achei foi R$ 1.000. Fica pra próxima. Vai que um dia tenho um aumento? Lembro da crise mundial, dos passaralhos. Xá pra lá.

Também perco tempo lendo emails, facebookando (ô diabo de coisa que toma tempo!), postando no outro blog, atendendo ligações de trabalho, repassando emails de trabalho.

Acabo de ler o jornal, almoço um miojo vendo uma série de advogados na TV. Pela metade, mas deu pra entender. Chupo uma laranja antes de começar a guinada no dia.

E aí ela começa, com o metrô amarelo vazio-vazio, em direção ao cinema. O filme é o único com quatro estrelinhas que vi no jornal, ainda não assistido. “O Garoto da Bicicleta”. Sobre o mal que o abandono pode causar a uma criança. A uma pessoa, podemos ampliar. Fico pensando se meus amigos com depressão já passaram por algum momento de abandono na vida. Lembro do dia em que meu pai me esqueceu na porta da escola, porque, jornalista que era, atolou a cabeça em algum fechamento apertado, em alguma manchete do dia, e simplesmente esqueceu de mim. Mas não me senti abandonada, nem isso me causou qualquer trauma. Mas o abandono do garoto da bicicleta é cruel, me fez chorar. É um filme pesado, mas muito bom. Vale muito a pena ver.

Saio do cinema e ainda é dia, são 17h30, afinal (filme rápido!). Compro um pastel assado e uma long-neck, só porque posso tomar essa long-neck a essa hora da tarde, e isso é ótimo. Volto caminhando para casa, passando por mil lojinhas no caminho. Belo exercício, e adoro caminhar!

Quando chego em casa, já são 20h, mas ainda é dia. Minha alma está lavada. O dia cinza da manhã em algum momento virou sol e calor e nem tinha me dado conta disso. O cachorro sumiu. Vejo um carro do jornal e me assusto lembrando que não estou de férias ainda, amanhã tem trabalho. Mas logo esqueço de novo.

Acordei mal-humorada, confesso, mas vou dormir feliz.

Anúncios

2 comentários sobre “O dia entre o mau humor e a felicidade simples

Deixe aqui seu comentário! ;)

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s