
Já que minha mãe foi uma das personagens do post que escrevi ontem, o que me obrigou mais tarde a descrevê-la melhor em um comentário gigante no mesmo post, pensei em hoje trazer para cá um poema que escrevi em 2007, em que consegui juntar algumas das características que minha mãe possui.
Foi a forma de homenageá-la, sem, no entanto, esconder seus defeitos:
Minha mãe guarda em si toda a ternura do mundo.
A vida a fez nervosa, rápida, impaciente
Impaciente com as horas que não passam
(já olhou muito relógio pra bater ponto
em dois expedientes)
impaciente com os dentes que não mastigam
(O almoço é corrido, o banho é corrido, o sono é corrido).
Ela antecipa os minutos, na pressa de vive-los logo.
Mas isso é só a vontade de abraçar a vida toda
(ou a faceta de robô a que o trabalho nos condena).
Tanta pressa e tanto nervo às vezes a deixam
Irritada (hormônios também).
Abalam o humor.
Um brinco sumido e já são muitos capetas gritados.
Minha mãe fala palavrão.
Mas canta versos felizes e doces
Com o violão ou no coral.
Ela é cheia de valores que quer nos passar.
E de casos pra contar (e piadas pra explicar).
Minha mãe acompanha o tempo.
Fala no celular, conversa pela internet,
Lê revista de cult, adora ler!
Mas o cinema que apetece é de comédia romântica.
Minha mãe me abraça por horas
E faz cafuné se estou chorando.
Me consola sem pedir nada em troca.
E ela parece tão pequena e magra e frágil
de repente.
E tão bonita!
Minha mãe não acompanha a própria idade.
Sempre terá 45: na pele macia e no coração.
Ela não sabe conversar direito, não escuta.
Mas sei conversar com ela, nem que por cartas.
E ela lê as cartas e nos entendemos.
Minha mãe é sozinha de tantas amigas
Às vezes se perde em pensamentos
Tem seus momentos de depressão
Em que o olhar é o mais triste do mundo
e fico querendo chorar (mas convido pro cinema).
E enquanto estou aqui na sala
com meus olhos tristes próprios
Ouço minha mãe dedilhando no quarto
e já sinto saudades de sua forte presença.
Quero vê-la bem velhinha
(aos 45 anos…)
com a pele de mexerica.
Ainda guardando, junto a outras coisas,
toda a ternura do mundo.
(07/07/2007)
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Obrigada pela homenagem que você me faz nesse seu bonito poema ( e também no comentário anterior). Eu não sabia que você via em mim tantas qualidades… Aliás, acho que a vida corrida desses tempos modernos nos deixa muito mais oportunidades para as críticas ácidas do que para as palavras doces… Valeu. Te amo. Beijo.
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A vida corrida destrói a própria vida.
beijo,
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Amei. Tenho que confessar que chorei.
Parabéns Cris, vc soube retratar muito bem.
Sua mãe é uma mulher de muitos valores. Ela é como uma mãe pra mim.
Beijos,
Ju
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É difícil até de retratar, né? bjos
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