‘Dor e Glória’: o filme da vida de Almodóvar, literalmente

Vale a pena ver no cinema: DOR E GLÓRIA (Dolor y Gloria)
Nota 9

Não foram tantos filmes assim que vi de Pedro Almodóvar, ainda mais para alguém que se define como cinéfila. A Pele que Habito (2011), Abraços Partidos (2009), Fale com Ela (2002), Tudo Sobre Minha Mãe (1999), Carne Trêmula (1997), e acho que só. Mas uma coisa todos eles tiveram em comum: são ótimos.

Este “Dor e Glória”, no entanto, me tocou de um jeito que poucos já tinham me tocado antes. Talvez a sensibilidade seja por conta de tratar-se, como só fui descobrir depois, de uma espécie de filme de memórias de Almodóvar. É como o “Roma” do mexicano Alfonso Cuarón: um filme feito com a nostalgia afetuosa apenas dedicada às nossas memórias mais antigas, às da infância, às da vida em família, às das primeiras descobertas importantes.

Em pelo menos duas cenas, chorei tanto, mas tanto, que fiquei com medo de soluçar e fazer barulho na sala do cinema Belas Artes. Assim, fiquei alguns segundos simplesmente retendo ar, com dificuldade de respirar, nas lágrimas mais mudas que pude. (Para quem já tiver visto: foi na cena do desenho encontrado e do ovo de herança).

Antonio Banderas está maravilhoso!

E por que tanta comoção? Porque é um filme belíssimo sobre muitas coisas, que envolvem o amor materno, o amor sexual, a identidade, a paixão pelo trabalho, as dores que imobilizam (inclusive as psicológicas), a capacidade de perdoar, a passagem do tempo, o reencontro com o passado, o vício, a dependência, a redenção. Em menos de duas horas, Almodóvar consegue tocar em todas essas questões, com delicadeza, profundidade, graça, muitas cor e numa narrativa que mescla presente e passado com grande desenvoltura. O filme corre tão bem que nem a colocação de um monólogo teatral bem no meio interfere em sua fluidez.

Não se enganem, porém, ao achar que trata-se de um dramalhão. Que é um filme apenas triste. A linguagem de Almodóvar, como aconteceu nos outros longas dele que vi, comporta muitos momentos de humor e leveza, que são sua marca registrada. E, sobretudo, de grande beleza.

Penélope Cruz faz um papel importante, embora pequeno.

Entre os atores que compõem um elenco enxuto, mas de muito peso, estão os sempre maravilhosos Antonio Banderas (que levou o prêmio de Cannes por este papel de alter-ego de Almodóvar) e Penélope Cruz. Os outros que se destacam são Asier Etxeandia (Alberto Crespo), Leonardo Sbaraglia (Federico Delgado) e Nora Navas (Mercedes). Mas o filme gira quase o tempo todo em torno de Banderas, em atuação impecável em todos os momentos. Podia ser um monólogo com ele, e talvez desse certo do mesmo jeito.

O outro prêmio importante que o filme levou em Cannes foi pela trilha sonora de Alberto Iglesias, que já foi indicado a três Oscars em sua carreira, por O Espião Que Sabia Demais (2011), O Caçador de Pipas (2007) e O Jardineiro Fiel (2005), que também lhe rendeu um Cannes.

A quem tiver curiosidade, a trilha impactante já está no Youtube:

Acho que os prêmios não vão parar por aí.

“Dor e Glória”, assim como Almodóvar, que é a mais pura definição desses substantivos, merecem arrebatar muitas audiências vindouras. Que venha o Oscar 2020!

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

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Um filme superlativo

Para ver no cinema: RELATOS SELVAGENS (Relatos Selvajes)

Nota 9

relatosselvajes

Pare o que estiver fazendo e vá logo ver este filme!

É um dos filmes mais divertidos, criativos, surpreendentes, tensos e malucos que vi nos últimos tempos. É drama, thriller, terror, suspense, amor e comédia, tudo ao mesmo tempo. E, se fosse literatura, estaria na estante dos contos: são seis contos — os relatos –, que nada têm a ver entre si, afora a selvageria mesmo.

  • História 1: começa com uma mulher embarcando em um avião e não conseguindo computar as milhas em seu nome, porque a passagem foi comprada pela empresa.
  • História 2: começa com um cara entrando num restaurante de beira de estrada e dando uma patada na garçonete que abre a porta para ele.
  • História 3: começa com um playboy dirigindo velozmente um carrão na estrada até ser fechado por um carro caindo aos pedaços, que estava a 40 km/h à sua frente.
  • História 4: começa com um cara armando explosivos para implodir um prédio e dizendo que não vai se atrasar para o aniversário da filha.
  • História 5: começa com um garoto sacudindo os pais na cama, para lhes dar uma notícia terrível.
  • História 6: começa com uma festa de casamento, alegríssima, cheia de música, os noivos sorrindo de uma orelha à outra.

O que posso dizer sobre essas historietas?

Em resumo: que a forma como elas começam importa, muito. Mas não tanto quanto a forma como terminam. Porque o enredo delas é conciso, amarradíssimo, tem início, meio e fim, é encadeado, e uma ação vai levando à outra rapidamente, sem fôlego para nada, com reviravoltas a cada minuto, mas mantendo muito sentido. Algumas histórias são maiores que outras (eu acho), mas estamos falando de relatos com 20 minutos, em média. Em míseros 20 minutos, esses começos se transformam em um final totalmente imprevisível! E, no meio do caminho, despertam em nós sentimentos fortes, como angústia e ódio, compaixão e expectativa, alívio e tensão (imagine uma valsa de festa de casamento sendo tensa?!) — e violência.

Não é à toa que o filme remete imediatamente a Tarantino (vem sendo chamado de “Pulp Fiction argentino“) e a Almodóvar (um dos produtores do longa). Mas o diretor é Damián Szifrón, desconhecido pra mim. Ah sim, e o protagonista de uma das historietas é Ricardo Darín, que dispensa apresentações.

O filme tem essa violência e esse exagero próprios dos dois diretores, sem falar do bom humor e do cinismo que permeia até os momentos mais sombrios. E cada relato é uma espécie de fábula, com direito a uma certa “moral da história”, mas, por mais absurdo, surreal ou extraordinário que pareça, também tem um quê de realidade, uma marca de “bem que isso deve acontecer de vez em quando”. É o lado mais animal, mais bruto e selvagem dos seres humanos, mas ele existe.

(Quem nunca teve seu dia de fúria após ser irritado pelo sistema burocrático do funcionalismo público vários dias seguidos? E que tipo de selvageria pode ser estimulada por uma traição, uma trapaça ou uma necessidade de vingança? Tudo isso é retratado, essas vísceras do lado cruel dos seres humanos.)

Relatos selvagens” é a diversão meio sádica que funciona como válvula de escape para nossos desejos mais tétricos. É como liberar a fúria de um soco num saco de pancadas de lutador de boxe. E a gente sai da sessão do cinema pensando em como o mundo é um lugar maluco e os seres humanos são espantosos e complexos, por todos esses sentimentos que carregam dentro de si, tão ambíguos.

Faltam adjetivos para esses 122 minutos. É o filme dos adjetivos. Os superlativos.

Veja o trailer:

Leia também:

Depois do fim, ainda imagina-se toda uma sequência de filmes (como só os melhores conseguem)

Para ver no cinema: A PELE QUE HABITO (La piel que habito)

Nota 9


Sabe aquele filme que tem uma história louca atrás da outra, que te choca, que tem pecinhas de quebra-cabeças que formam um todo ainda mais insano, que mistura drama com suspense com ficção científica e, ao final, ainda te faz imaginar todo um segundo filme em sequência, tamanhas as possibilidades criadas pelo enredo até ali?

“A Pele Que Habito”, novo filme de Almodóvar, é tudo isso.

Não vou filosofar a respeito, como fiz AQUI, nem divagar, como AQUI, nem falar do roteiro, como AQUI.

Há filmes em que é melhor saber o mínimo possível, para não estragar as surpresas.

Pois saibam que Antonio Banderas e Marisa Paredes estão demais e que você não vai se esquecer de tudo o que viu neste filme e que você se surpreenderá em vários momentos com o limite e o potencial da imaginação humana.