Pra inglês ver (e chorar, como nosotros)

sherlok

Que os SACs das empresas no Brasil, especialmente de telefonia, não funcionam, isso a gente já sabe bem. Já tratei de novelas e sagas pessoais neste blog que, juntas, renderiam uma Odisséia (os links estão no pé deste post).

Engraçado é ter um dejá vù ao ler as experiências que uma inglesa passou aqui no Brasil, ao tentar cancelar sua conta na TIM. E não é uma inglesa qualquer: é a chefe da “The Economist” no país, Helen Joyce.

O relato inteiro pode ser lido, em inglês, AQUI. Traduzi livremente alguns trechos, para democratizar o acesso a um relato tão completo:

“Há um ano meu celular brasileiro parou de funcionar direito. O problema não era no aparelho, mas na operadora. Mesmo quando mostrava que o sinal estava pegando bem, as chamadas iam parar na caixa postal – e a mensagem de voz só chegaria em minha caixa de entrada várias horas depois. Emails chegavam apenas esporadicamente. Frequentemente eu mesma não conseguia fazer ligações. Quando eu finalmente conseguia completar uma chamada, mal podia ouvir a pessoa do outro lado da linha. Ligações eram interrompidas abruptamente.
Sondei com meus amigos brasileiros e descobri que muitos deles que tinham a mesma operadora, a TIM, estavam tendo os mesmos problemas que eu. Um deles foi a uma loja reclamar. “Oh, vendemos muitos contratos neste ano”, disse uma vendedora alegremente, “e agora a rede está sempre saturada”. Ela estimou que levariam “alguns anos” para a infraestrutura da operadora dar conta do abarrotamento de novos clientes.
Uma vez que eu não poderia esperar por tanto tempo – e estava pagando caro pelo serviço – decidi mudar meus três números de telefone (o meu, do meu assistente e o reservado para colegas visitantes) para a Vivo, considerada mais confiável (embora ainda mais cara que a TIM). Este foi o começo do que eu chamo de minha Saga com as Teles Brasileiras. E ela ainda não acabou.  (…)
Estimo já ter anotado pelo menos 20 protocolos desde a primeira vez que tentei mudar minha operadora. Não sei pra quê: na vez seguinte em que ligamos, os protocolos anotados não servem para nada. Meu assistente e eu já gastamos cerca de 15 horas em lojas da TIM. Emails pararam de chegar há quase um mês. Desde que os números foram mudados para a Vivo, eu já recebi outros seis boletos de cobrança da TIM. Depois que recebi o último boleto, ameacei entrar na Justiça. A atendente do call-center – que a esta altura da conversa já estava gritando – respondeu: “Faça o que quiser.”
A cada boleto de cobrança, eu decidia pagar a conta, acreditando, erroneamente, que aquela seria a última vez. (…)
Algumas cobranças diziam respeito a um dos meus números que, não se sabe como, permaneceu como um fantasma no sistema da TIM, mesmo depois de ter sido mudado para a Vivo. Por três meses, as duas companhias me cobraram por aquela linha; cada uma dizendo que ela estava ativa em seu sistema e que a cobrança errada era um problema da outra operadora. Isso só parou quando cancelei a linha da TIM, correndo o risco de perder o número definitivamente (ela continuou funcionando, o que mostra que era a TIM a errada da história).
No final de março, cinco meses depois de eu ter pensado estar livre da TIM, surgiu outro boleto de cobrança para aquele mesmo número. Meu assistente ligou e (depois de várias horas na espera e com a ligação interrompida várias vezes) foi informado que a linha ainda estava ativa, nunca tinha sido cancelada, a TIM nunca tinha parado de me cobrar por ela e eu nunca tinha parado de pagar a conta. (…)
Este relato pode ser chocante para estrangeiros. Mas, para os brasileiros, é tristemente familiar. (…)”

O texto de Helen termina contando sobre a ação da Anatel junto às operadoras. Mas achei melhor terminar com essa conclusão desanimadora. O fato é: quem nunca passou por todas essas situações que ela descreve, tão tenazmente, com a vantagem da observação fresca e atenta que os novatos sempre têm diante dos calejados? Quem nunca?

O desrespeito não para nas operadoras de telefonia, é claro, mas são elas as que oferecem o prato mais amargo do despreparo. A Anatel tem batido nas empresas, cobrando multas milionárias, mas não vai muito além – e, afinal, qual a eficácia dessas multas, que nunca são pagas?

Como brasileiro é um tipo que dá mais valor ao que é de fora do que ao próprio país* (a tal síndrome do vira-lata), quem sabe agora, com essa vergonha diante da jornalista britânica, alguém com algum poder real não resolva tomar uma atitude definitiva?

Enquanto isso, desliguemos nossos celulares e bora curtir o sabadão 😀

***

Leia também:

* Vide o caso da turista estrangeira que, ao ser estuprada em uma van, teve seu caso resolvido em menos de 24 horas, prisão dos bandidos, suspensão do direito de as vans circularem pela zona sul (apenas pela zona sul…) da cidade e tratamento digno num caso grave como este. No entanto, uma brasileira de Niterói que havia sofrido o mesmo estupro na mesma van uma semana antes não tinha tido sua denúncia apurada em nenhum milímetro após todos aqueles longos sete dias de sofrimento, além de ter sido humilhada ao esperar por quatro horas, com o corpo sujo do sêmen dos agressores, para fazer exame de corpo delito no IML.
Pobres brasileiras, tão pior tratadas do que as turistas…
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