- Texto escrito por José de Souza Castro
Neste momento tem muita gente analisando o que acontece na Venezuela. Vivi neste país como turista, correspondente estrangeiro, empresário e diplomata. E com essa complexidade não tenho ousadia de analisar o futuro do país. Só conto alguns episódios.
É o que disse Stefan Salej no e-mail que me mandou no último dia 9, avisando que tinha publicado naquele dia um artigo com o título “Da Venezuela querida e complexa” no jornal mineiro Diário do Comércio.
Ele transcreve no e-mail o artigo publicado. O site do jornal, porém, só publica metade do texto, que começa assim:
“A primeira vez que esse país caribenho me chamou atenção foi quando um industrial esloveno radicado lá se casou com a estrela de cinema norte-americana e sonho da nossa juventude, Natalie Wood.”
Mas o ex-presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) só visitou a Venezuela muitos anos depois, quando a empresa que fundou, a Tecnowatt, instalou lá uma filial em parceria com a General Electric (GE).

Naquele tempo, a Venezuela atraía capital de vários países. Já era grande produtora de petróleo, cujo preço triplicara de valor após a criação de um cartel liderado por Hugo Chávez e formado pelos maiores produtores de petróleo do Oriente Médio
Ao desembarcar em Caracas, Salej se impressionou com a grande presença nas ruas de automóveis grandes, quando no Brasil predominava o Fusca. O preço da gasolina era menor que o da água mineral. A Hidrelétrica de Guri, uma das maiores do mundo, estava em construção pela brasileira Camargo Corrêa, uma das vítimas da Operação Lava Jato.
Essa empreiteira enfrentou problemas na Venezuela, assim como a Tecnowatt, castigadas pela burocracia estatal e pela corrupção. As coisas só andavam mediante propina. E o gerente da empresa de Salej roubava descaradamente.
Um pouco disso eu conto no livro “O enigma Salej“, uma biografia do empresário esloveno que vivia no Brasil desde os 16 anos de idade. O livro está disponível na Biblioteca do Blog.
“A Venezuela emprestava dinheiro, o custo de vida era alto, tudo importado, a democracia sempre ameaçada por golpes, e uma aliança firme com os EUA”, escreveu Salej em seu artigo.
Chegou um momento em que, depois de vender a Tecnowatt para um grupo espanhol, Salej resolveu aceitar o convite do presidente da Eslovênia, seu amigo Danilo Türk, também presidente na época da União Europeia, para ser embaixador do país para a América Latina.
Em 2008, um dos sonhos era formar uma aliança entre UE, América Latina e Caribe.
“Uma aliança que vai gerar maiores benefícios para as populações mais pobres das duas regiões”.
É o que se espera agora, imagino, com o prometido Acordo do Mercosul.
No seu artigo, Salej diz que várias reuniões foram feitas para discutir o projeto. A próxima seria em Lima com 60 chefes de estado e de governo, reunião coordenada por Salej.
“Diplomatas experientes me avisaram que Cuba e Venezuela seriam problemas”.
Já numa reunião de embaixadores em Lisboa, o representante português que presidiu a sessão perdeu a paciência com os venezuelanos. Depois foi o Rei da Espanha que mandou Chávez se calar numa reunião em Santiago do Chile.

Salej convenceu Danilo Türk a visitar Caracas. Chávez com seus ministros, inclusive Maduro, do Exterior, perguntou a Türk o que foi fazer na Venezuela. Ele preferiu que seu embaixador respondesse.
“Expliquei que era necessária a cooperação da Venezuela etc. Chávez: você quer que eu me cale como disse o Rei da Espanha? Não, pelo contrário. E aí fomos conversando amavelmente até ele dar ordem para que Maduro cumprisse o que o Embaixador pediu. E assim foi. Nenhum problema mais, e nem com seus aliados, como Bolívia e Cuba. No final da reunião em Lima, depois de um discurso inflamado, Chávez passou por mim dizendo: Cumpri como prometi, embajador? Muchas gracias, Comandante.”
Em seu artigo, Salej afirma que esteve atento ao que se passou depois da doença e morte de Chávez, a posse de Maduro, a tentativa da UE e dos EUA de colocar no governo Guaidó, e a miséria que o povo de lá viveu, uma espécie de maldição do petróleo. E conclui:
“Mas, também, o que o chavismo fez pelo país, como orquestras juvenis, das quais saiu um dos mais destacados regentes deste século, Gustavo Dudamel. Um contraste atrás dos contrastes de um país só de contrastes e suas complexidades”.
Leia também:
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