Parece que estou tendo muita sorte com os livros deste ano. Enquanto escrevo este post, já foram 12 lidos, e todos bons ou muito bons. Este “Clube de Leitura dos Corações Solitários” se enquadra entre os melhores, e suas 351 páginas foram devidamente devoradas em exatos três dias – de domingo a terça-feira.
Sabe aquele livro que é gostoso de ler, que você aproveita qualquer tempinho de pausa ou folga para curtir com calma, deitada na rede? Pois é. É este tipo de livro.
A história gira em torno de um grupo de personagens bastante aleatório:
- Sloane, uma jovem bibliotecária doce e que parece viver “no automático”;
- Arthur, um professor universitário aposentado de uns 80 anos de idade que tem a língua mais ferina do mundo e não se incomoda em disparar farpas e machucar todos os redor com ela;
- Maisey, uma vidente simpática, mãe de adolescente, que adora tagarelar e cozinhar;
- Mateo, um jovem, também bibliotecário, filho de uma cantora famosa da região, que já teve outras mil profissões e nunca se fixou em nenhuma delas;
- e Greg, um homem imenso, que parece um brutamontes, mas na verdade é a gentileza e educação em pessoa.
Esse grupo, contra todas as expectativas, acaba formando um clube da leitura. E, mais que isso: formando um círculo de amizade.
O que eles têm em comum? Não se pode dizer nem que seja o amor pelos livros, uma vez que pelo menos dois desses personagens não têm lá grande interesse no assunto. O que os une é uma situação improvável: o estado de saúde delicado de Arthur, que é (pelo menos vagamente) conhecido de todos. E o que torna os cuidados em torno desse homem idoso improváveis? O fato de que ele é INSUPORTÁVEL com todos.
Enfim, dá pra notar que não estamos diante de um enredo super complexo, nem nada do tipo. É uma história perfeitamente linear de como esse grupo vai se aproximando e se conhecendo cada vez mais. Costurada por breves lembranças do passado de cada um deles, que dão sentido a suas personalidades atuais, e pelas leituras que eles fazem em seu clube do livro.
A autora, Lucy Gilmore, tem uma escrita simples, fluida, gostosa de ler. Não é à toa que entramos de cabeça no livro e nas vidas de seus personagens com tanta facilidade. E ela torna a narrativa ainda mais interessante ao dividir o livro em seis partes, sendo que, em cada uma delas, o narrador em primeira pessoa é um personagem diferente.
Assim, até a página 75, quem conta a história pra gente é Sloane, a bibliotecária. Na parte seguinte, é Maisey, a vidente. Depois dela é Mateo, o outro bibliotecário. Em seguida, Greg, o grandalhão. Depois vem Arthur, o velho rabugento. E, por fim, fechamos o ciclo com as 20 últimas páginas de novo contadas na perspectiva de Sloane.
Essa forma de criar um rodízio de vozes e perspectivas entre os narradores, que está longe de ser inédita na literatura, é muito bem conduzida pela autora, e ajuda a construir um certo suspense, que nos prende, ao mesmo tempo em que demonstra que nem tudo é “preto no branco”: as visões diferentes de cada um ajudam a nos mostrar as nuances de suas personalidades, e a entendê-los melhor.
Como o título do livro já indica, o principal tema da história é a solidão. De certa forma, todos os personagens são solitários, uns mais do que outros, o que explica terem se aglutinado apesar de serem tão diferentes. Com esse tema, vêm outros laterais, como o luto, a busca pela felicidade, o medo de encarar as múltiplas possibilidades da vida, a amizade. Mas eu diria que o segundo mote mais forte de “Clube de Leitura dos Corações Solidários” é a relação entre pais e filhos.
Temos desde a mãe que ama e protege demais, sufocando o filho, até os pais que se preocupam mais em se odiar e brigar do que em lembrar que têm uma filha, até o filho que ama a mãe, que já morreu, ou o pai que não soube demonstrar o amor pela filha depois que se viu sozinho no mundo com ela. Cada uma dessas histórias ajuda a moldar a experiência e a personalidade – e também a perspectiva – dos personagens que compõem o livro.
Enfim, fico com medo de dizer mais e estragar a leitura, se é que já não fiz isso. Evito ao máximo dar spoilers em minhas resenhas, mas às vezes eu me empolgo, rs.
Eu não conhecia Lucy Gilmore e nunca tinha ouvido falar neste livro, mas foi uma surpresa deliciosa mergulhar nesta história e nos outros livros que ela discute por meio do clube. Por sinal, das três obras que foram lidas pelo clube, eu já tinha uma, o ótimo “Os Vestígios do Dia“, e acabei comprando as outras duas em um sebo, de tão curiosa que fiquei, e imaginando que Lucy Gilmore teria bom gosto. Em breve espero contar sobre elas por aqui também 😉
***
P.S. Sabem como descobri este saboroso livro sobre bibliotecários e literatura? Ele estava entre os indicados pela biblioteca que frequento (a melhor de BH :))! Que, por sinal, tem também um clube de leitura mensal muito legal, que comecei a frequentar, como já contei aqui 😀
“Clube de Leitura dos Corações Solitários”
Lucy Gilmore
Buzz Editora
351 páginas
R$ 41,90 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
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