Água fresca para as flores: uma história contada em camadas

A obra de arte 'This Feeling of Mine', de Brunna Mancuso, que ilustra a capa da edição brasileira do livro 'Água Fresca Para as Flores'.
A obra de arte 'This Feeling of Mine', de Brunna Mancuso, que ilustra a capa da edição brasileira do livro 'Água Fresca Para as Flores'.

Eu não achei que gostaria de um livro cujo principal cenário é um cemitério. Mas foi impossível não me cativar pela narrativa da protagonista, Violette, que é a zeladora dos túmulos e quem oferece o ombro e os ouvidos aos enlutados que vão bater na porta de sua casa.

Quem forma sua família são os colegas coveiros, os agentes funerários e o padre – além dos gatos e cães. Aos poucos, vamos entendendo sua história e como ela foi parar em uma vida tão solitária. Um personagem fundamental nessa saga é seu marido, Philippe Toussaint. Logo nas primeiras páginas, descobrimos que ele a abandonou.

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A história, no entanto, não é entregue de uma tacada só, muito menos em ordem cronológica. A autora Valérie Perrin parece gostar de escrever em camadas. É como se estivéssemos sentados na cozinha de Violette, tomando um de seus vinhos do Porto, e escutando suas memórias, que se dividem em capítulos curtos.

Ela conta um pouquinho de um passado remoto, nos anos 80. Quando estamos começando a entender aquela parte da camada, ela volta para o presente, em 2017. Depois recua mais um pouco, para os anos 90. E assim vai, em um movimento de ondas, se abrindo aos pouquinhos, como quem quer se preservar, mesclando o passado e o presente – e prendendo os leitores com o suspense gerado pela espera da continuação daquela história.

Para tornar o suspense ainda maior, em dado momento a história de Violette é intercalada pela história de um casal, Irène e Gabriel, que tem relação direta com outro personagem que irrompe na história, o delegado Julien. Desta vez, a narradora passa a ser Irène, através de seu diário.

Em outros momentos, o narrador é do tipo onipresente, mas trazendo a perspectiva de Philippe. O livro enriquece, ao dar voz e versão a um personagem que, até então, só conhecíamos pela lente de Violette.

Outra camada é inserida (ou desferida, como um soco bem duro) já num ponto bem avançado da história, quando descobrimos o real motivo da clausura de Violette, a dor suprema que atravessou sua vida.

Fui lendo e digerindo todas essas histórias em camadas bem devagarinho, sem antes ter lido muito a respeito do livro, e assim preferi, porque fui preservada de qualquer revelação que estragaria o ritmo da história. Por isso, peço perdão aos leitores por esta resenha tão vaga: quero manter para vocês o mesmo sentimento que eu tive, a mesma sensação de estarem na cozinha de Violette, ouvindo sua história dia após dia.

O que posso dizer é que este é um livro diferente de todos os que eu já tinha lido. Uma mescla de três ou quatro histórias diferentes, que se passam em tempos diferentes, e que transmitem emoções também opostas, da tristeza ao encantamento, da raiva à admiração.

A própria personagem Violette é de uma sabedoria e uma lucidez e uma doçura impressionantes, que explicam sua capacidade de manter-se viva, e de usufruir dos pequenos prazeres da vida, mesmo tendo sofrido tantas agruras e estando cercada de tanta morte.

Saímos da leitura com a sensação de que o ser humano pode sobreviver a tudo, e se reencontrar e se reerguer a qualquer momento da vida. Como uma lufada de ar fresco (ou um jorro de água fresca para as flores), nos animando a seguir em frente, mesmo diante dos piores cenários.

***

P.S. Agradeço à professora do meu filho Luiz, a Taís, pela indicação de leitura e empréstimo do livro. Bons professores são assim: inspiram tanto os alunos quanto todos ao redor deles. Feliz mês dos professores, Taís! 😘

Capa do livro Água Fresca para as FloresÁgua Fresca Para as Flores
Valérie Perrin
Ed. Intrínseca
479 páginas
R$ 60,72 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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