‘A Biblioteca da Meia-Noite’: a vida tem infinitas possibilidades

Placa com setas para os dois lados em meio a um deserto com montanhas. Foto: Pablo García Saldaña / Unsplash
Pra qual lado você vai? Foto: Pablo García Saldaña / Unsplash

Mais de seis milhões de exemplares vendidos no mundo. Comecei a ler “A Biblioteca da Meia-Noite” (a décima-sexta edição no Brasil, em apenas dois anos) já esperando estar diante de um fenômeno da literatura contemporânea.

Como é comum aos best-sellers, também esperei encontrar um livro de linguagem simples, fácil, direta, e com alguns clichês. Afinal, clichês agradam à maioria, são populares. E obras com linguagens muito complexas ou rebuscadas não costumam alcançar tantos milhões.

Mas o mais importante é que esperei encontrar uma boa história. E isso o livro do britânico Matt Haig com certeza traz. Só as boas histórias são capazes de mexer com multidões.

A sacada do autor é muito boa:

“Entre a vida e a morte, há uma biblioteca. (…) E, dentro dessa biblioteca, as prateleiras não têm fim. Cada livro oferece uma oportunidade de experimentar outra vida que você poderia ter vivido. De ver como as coisas seriam se tivesse feito outras escolhas… Você teria feito algo diferente, se houvesse a chance de desfazer tudo de que se arrepende?”

Nora se vê dentro desta biblioteca aos 35 anos de idade. Completamente atolada em arrependimentos. Achando a própria vida medíocre. Se perguntando:

– E se eu tivesse me casado com fulano, em vez de ter terminado com ele?

– E se eu tivesse continuado nadando, em vez de ter desistido dos treinos na adolescência?

– E se eu tivesse investido nos estudos de glaciologia?

– E se eu tivesse feito aquele mestrado em Cambridge?

– E se eu tivesse tirado um ano sabático depois da escola?

– E se eu tivesse me mudado para a Austrália com a minha amiga?

– E se eu não tivesse saído da banda, que estava prestes a estourar?

– E se eu tivesse impedido meu gatinho de sair de casa naquela noite?

E se? E se…?

Quantos de nós não somos atormentados, ao longo da vida, por essas duas minúsculas, e pesadíssimas, palavrinhas? “E se…

Nesta biblioteca mágica, Nora consegue abrir livros que mostram como seria sua vida se tivesse tomado uma determinada decisão diferente, se tivesse feito uma outra escolha em algum momento.

Tabuleiro de xadrez. Foto: JESHOOTS.COM / Unsplash
“No xadrez, existem 9 milhões de variações depois dos primeiros seis movimentos. Depois de oito, passam para 288 bilhões de posições diferentes. E essas possibilidades continuam a crescer. (…) No xadrez, como na vida, as possibilidades são a base de tudo.”

Mais do que ver essas vidas, ver como seriam, ela pode efetivamente viver cada uma delas. Experimentar o multiverso, em que várias versões de Nora vivem suas vidas de maneiras completamente diversas, paralelamente.

Como Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo, sabem?

E essa experiência fantástica vivida por Nora nos dá margem para refletir (e até filosofar) sobre a importância de valorizarmos a vida que temos – que é única, mas aberta a possibilidades e potenciais infinitos – e sobre a inutilidade dos arrependimentos.

No meu caso, fiquei pensando:

– E se eu tivesse ficado na equipe de natação, aos 15 anos?

– E se eu tivesse feito vestibular para outra coisa, em vez de jornalismo?

– E se eu estivesse trabalhando no Banco do Brasil até hoje?

– E se eu tivesse continuado em São Paulo?

– E se eu não tivesse me casado com o Beto?

A verdade é que não consigo me imaginar mais feliz em nenhuma dessas outras vidas, sendo atleta por mais tempo, ou bancária, ou vivendo até hoje na Terra Cinza. Não tenho nenhum arrependimento relacionado às grandes escolhas e decisões que tomei desde os meus 15 anos. Sinto que tenho acertado 🙂

Aliás, o ponto é este: não existem decisões certas ou erradas. Mesmo quando você vive uma vida de grandezas – vencedor de medalha Olímpica, de um Oscar, um Grammy ou um Nobel, por exemplo –, ela ainda será uma vida cheia de luzes e sombras, de erros e acertos, de momentos tristes e felizes.

Este livro explora bem a questão das vidas cheias de grandezas que Nora poderia viver, caso tivesse tomado esta ou aquela escolha. É até bastante inverossímil por isso. Mas tudo bem: foi a forma como o autor encontrou, a forma mais fácil, de ilustrar seu ponto de vista.

Nora não se sentia feliz com suas escolhas, como eu me sinto satisfeita com as minhas. Ela se sentia um erro ambulante. Como muita gente, que sofre a ponto de desejar a morte.

E é isso que torna este livro ainda mais especial: ele traz lições que dão uma perspectiva muito importante para pessoas que sofrem com problemas de saúde mental, como depressão, ataques de pânico, desejos suicidas, dentre vários outros.

Por um motivo muito simples, que é mostrar que não existe vida perfeita. Não existe vida 100% feliz, 100% positiva. E mais que isso: os momentos imperfeitos e tristes são parte inerente da vida. As sombras da vida não são sinônimo de fracassos, mas “parte de um todo”, “algo que ajuda outras coisas a serem ressaltadas, a crescerem, a existirem. A cinza no solo”.

Por tudo isso, este é um livro bonito. É uma ficção que resvala na autoajuda, que nos leva a admirar nossas próprias feridas, percalços e dissabores, porque dá outras cores, perspectivas e significados para essas experiências menos satisfatórias que experimentamos.

Todos já tivemos uma Nora dentro de nós, em algum momento da vida. Que saibamos buscar os livros certos, em nossas bibliotecas mentais, para que nos deem sabedoria e alento toda vez que as palavrinhas “e se” nos corroerem.

Sempre há tempo para essa leitura interna de tudo o que somos e ainda podemos ser.

Capa do livro A Biblioteca da Meia-Noite, de Matt Haig.“A Biblioteca da Meia-Noite”
Matt Haig
ed. Bertrand Brasil
306 páginas
R$ 39,52 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

2 comments

  1. É um livro realmente fascinante, Cris. Foi uma boa sacada de Matt Haig fazer com que a personagem Nora, que tentara se suicidar, viva no raro intervalo que lhe foi concedido à meia-noite do dia fatídico, numa imensa biblioteca, tantas experiências de vida, escolhidas por orientação da sábia bibliotecária e sob o impacto do Livro dos Arrependimentos. Na vida real essa sobrevida não dura mais que um minuto, enquanto agonizava, mas tempo suficiente para um longo aprendizado na busca – em diversas partes do mundo e conhecendo outros personagens também interessantes – daquele lugar em que valeria a pena viver. Terá encontrado?

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